Por José Montalvão
É muito fácil fazer oposição de palanque, apontar o dedo diante das câmeras e proferir discursos inflamados na imprensa sem apresentar dados reais, sem fundamentação técnica e ignorando a complexidade do sistema de regulação médica. Tratar a saúde pública da Bahia como se fosse uma exceção negativa no país é, no mínimo, demonstração de desconhecimento ou má-fé política. O problema do represamento na alta complexidade é um desafio estrutural vivenciado em praticamente todos os estados brasileiros.
Mais do que isso: tentar atribuir a responsabilidade pela falta de leitos ou pelo tempo de espera exclusivamente à figura do governador é um reducionismo desonesto. A gestão da saúde pública é tripartite — dividida entre União, Estado e Municípios — e exige a análise criteriosa dos gargalos estruturais em todas as pontas.
A Pressão Real Sobre a Central de Regulação
Os números revelam a dimensão do desafio: a Central Estadual de Regulação da Bahia lida com uma demanda diária de cerca de 1.000 novas solicitações por dia.
Apesar dessa pressão gigantesca, os dados oficiais da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) apontam avanços expressivos. A resolutividade do sistema alcançou marcas importantes, garantindo que de 70% a 80% dos casos regulados sejam resolvidos em até 24 horas.
Onde reside, então, o problema? O gargalo remanescente concentra-se exclusivamente nos casos de altíssima complexidade e especialidades específicas, onde a oferta de leitos e profissionais no mercado nacional é historicamente deficitária:
Cirurgia Torácica: Média de 10,4 dias de espera;
Hematologia: Média de 7,8 dias;
Oncologia: Média de 6,7 dias;
Urologia e Pneumologia: Acima de 5,5 dias de espera.
Trata-se de áreas com carência crônica de especialistas em todo o Brasil. Tanto é assim que a Procuradoria Geral do Estado (PGE), ao responder a demandas judiciais, esclarece tecnicamente que o impasse muitas vezes não é a falta de vontade política ou de recursos orçamentários, mas a inexistência temporária de leitos vagos com perfil clínico compatível na rede assistencial.
As Falhas na Atenção Básica Municipal e a Sobrecarga do Estado
Outro ponto sistematicamente escondido pelos críticos de ocasião é o papel dos municípios. A regulação estadual sofre impacto direto do desempenho da Atenção Primária à Saúde (APS), responsabilidade direta das prefeituras.
Em Salvador, por exemplo, dados recentes apontam que a cobertura da Atenção Básica ainda gira em torno de 66,6%. Quando o município falha na prevenção, na distribuição de remédios contínuos e no acompanhamento de hipertensos e diabéticos, a consequência é inevitável: quadros crônicos se agravam, gerando urgências e superlotando as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Essas UPAs acabam retendo pacientes graves em macas por falhas no preenchimento de prontuários — como a ausência de exames básicos de ECG ou enzimas cardíacas nos relatórios —, o que atrasa a triagem dos médicos reguladores e trava a fila do Hospital Geral do Estado (HGE) e do Hospital Roberto Santos.
O Trabalho Sério de Expansão e Descentralização
Em vez de se omitir, o Governo do Estado vem trabalhando com planejamento e investimentos pesados para descentralizar a alta complexidade e cobrir as 28 regiões de saúde da Bahia:
Construção e Ampliação de Hospitais Regionais: Obras e reestruturações avançam em polos estratégicos no interior, como Serrinha, Valença, Jacobina e Paulo Afonso, reduzindo a dependência histórica da capital;
Modernização Tecnológica: Implementação da Rede Estadual de Dados em Saúde (REDS), unificando prontuários digitais para agilizar o fluxo entre as UPAs e a Central de Regulação;
Formação de Consórcios Regionais de Saúde: Regionalização dos atendimentos de média e alta complexidade com a entrega de policlínicas e hospitais de área.
O Bastidor Oculto: O Fim do Clientelismo e da "Mamata" do Transporte de Doentes
Existe, contudo, um fator político velado que poucos têm a coragem de encarar abertamente: se a saúde pública funcionasse 100% de forma autônoma, descentralizada e eficiente, muitos políticos de ocasião perderiam sua principal ferramenta de barganha eleitoral.
Há décadas, a fragilidade no atendimento médico no interior sustenta a política arcaica do "clientelismo". Para certos grupos, manter o cidadão dependente de um favor pessoal — seja para conseguir uma carona em ambulância, uma vaga de transporte para a capital ou o agendamento de um exame de urgência — é a receita perfeita para perpetuar a troca de votos por favores.
Quando o Estado estrutura o sistema, digitaliza a regulação e garante atendimento rápido e universal na própria região, a "mamata" desse apadrinhamento político rui. A verdadeira cidadania se constrói com direito e eficiência pública, não com a humilhação do cidadão precisando dobrar o joelho para pedir o que é seu por direito constitucional.
Conclusão: Crítica com Responsabilidade
Fazer jornalismo e debate público com responsabilidade exige analisar o cenário com dados concretos, e não com slogans eleitoreiros. A saúde pública tem desafios imensos que precisam ser superados diariamente, mas reconhecer os avanços e apontar as responsabilidades compartilhadas de municípios e da União é o primeiro passo para cobrarmos soluções reais.
O povo da Bahia não precisa de demagogia na imprensa nem de atravessadores políticos; precisa de fatos, trabalho sério e autonomia com a consolidação de um SUS forte!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: Analisando a gestão pública com dados reais, combatendo o clientelismo e defendendo a verdade para o leitor!