Publicado em 22 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
Evento é avaliado para as próximas semanas
Caio Spechoto
Catia Seabra
Mariana Brasil
Folha
A equipe de campanha do presidente Lula (PT) avalia promover um evento voltado a evangélicos nas próximas semanas, provavelmente no Rio de Janeiro. A estratégia para se aproximar desse eleitorado, que tende a apoiar mais seu adversário Flávio Bolsonaro (PL-RJ), divide o grupo do petista.
Parte dos aliados defende que ele adote ações diretas, como atos específicos para o segmento. Outra ala afirma que esses eventos soam artificiais e prega uma abordagem mais sutil. A organização desse tipo de ato também é um assunto delicado no entorno do presidente porque ele costuma dizer que rechaça a ideia de misturar política e religião.
COMBATE À DESINFORMAÇÃO – “A gente entendeu que é preciso ter um trabalho direcionado [aos evangélicos], até para combater a desinformação”, afirma Gutierres Barbosa, integrante da Igreja Batista Nazareth, de Salvador, e coordenador do Setorial Inter-religioso do PT. Ele diz que eventuais atos do presidente voltados a esse público deverão ocorrer em um espaço separado das igrejas, com convites para líderes religiosos.
Pesquisa Quaest divulgada no início de agosto mostrou que Lula tem 33% das intenções de voto no segundo turno entre envangélicos, e Flávio, 48%. O Censo de 2022 mostrou que cerca de 27% da população do país é evangélica. No eleitorado total, Lula tem empate técnico com Flávio, com 43% a 40%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Os aliados mais próximos do presidente da República que, reservadamente, criticam a organização de eventual ato para evangélicos argumentam que as ações do governo se destinam a todos os segmentos da sociedade, independentemente da religião. Para eles, a aproximação com esse eleitorado poderia ser feita de outras formas.
MANIFESTAÇÕES – Uma delas seria Lula suavizar seu discurso, principalmente na forma. Foram citados dois exemplos de manifestações do presidente que, por essa análise, atrapalham a aproximação com o público religioso em geral.
O primeiro foi a frase que Lula repetiu inúmeras vezes ao longo da campanha de 2022, que tinha “tesão de 20 anos”. O segundo, o discurso no Palácio do Planalto no qual Lula mostrou o dedo do meio. Outra proposta é incorporar aos discursos expressões que atraiam esse público, como mais menções à família.
Um colaborador afirma que o presidente sempre se disse cristão, antes mesmo de isso se tornar um tema relevante na política. Além disso, é mencionado como ponto forte de Lula para a conversa com evangélicos o fato de ele ter indicado Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). O advogado-geral da União, que é membro da Igreja Batista, foi rejeitado pelo Senado.
DISCURSOS E EVENTOS – A senadora Eliziane Gama (PT-MA), integrante da Assembleia de Deus e uma das conselheiras do presidente em assuntos relacionados ao eleitorado evangélico, avalia que a adequação dos discursos e a promoção de eventos não são excludentes. “Encontros do presidente com denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus, são fundamentais e falam muito para o segmento na sua plenitude”, disse ela.
A vereadora de Goiânia e candidata a deputada federal Aava Santiago (PSB), da Assembleia de Deus Ministério de Madureira e aliada do presidente, disse que os evangélicos estão exaustos da politização das igrejas e que o petista acertou ao não criar um “cabo de guerra” com o bolsonarismo.
Ela afirma que atos específicos foram importantes em 2022, quando o clima era mais adverso a Lula, mas não precisam ser repetidos neste ano. A vereadora defendeu foco em ações como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, a regularização de dívidas no Desenrola e a defesa do fim da escala 6×1.
PONTOS SENSÍVEIS – Segundo ela, essas medidas aumentam a capacidade das pessoas de colaborar com a manutenção da igreja por meio do dízimo e o tempo disponível para congregar com a comunidade, pontos sensíveis em círculos evangélicos. “[É preciso] ter a capacidade política de associar os resultados concretos das decisões do governo a valores caros ao evangelho”, afirmou.
Ela minimiza o potencial de desgaste com os discursos de Lula e cita o estilo do hoje ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), principal líder dos opositores do petista. “A referência deles puxou o [grito de] imbrochável no 7 de Setembro”, mencionou.
A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), um dos nomes que historicamente buscou pontes entre Lula e o eleitorado evangélico, disse à Folha que uma das preocupações é não fazer distinções entre grupos evangélicos de diferentes posicionamentos –desde os de esquerda até os mais conservadores.
PREOCUPAÇÃO ANTIGA – “Nós temos todo o cuidado de não selecionar, mas dar o mesmo tratamento que nós já vínhamos dando”. Benedita, que é integrante da Igreja Presbiteriana Betânia, disse que a preocupação com o segmento em seu grupo político é antiga. As tentativas de aproximação de Lula com o eleitorado evangélico se avolumaram ao longo do atual mandato. O petista tem feito conversas diretas com esse público, discursos com menção a Deus e participação em eventos de interesse desse segmento.
Lula é católico, mas em algumas declarações públicas passou a citar uma identidade religiosa mais abrangente, a de cristão, que inclui evangélicos. Em setembro do ano passado, o petista deu entrevista ao lado da mulher, a primeira-dama, Janja, ao podcast Papo de Crente. O programa é feito por um grupo simpático ao petista. Na época, um dos vídeos mais populares do canal era intitulado “Coalizão de evangélicos contra Bolsonaro”.
Um mês depois, o presidente recebeu lideranças evangélicas no Palácio do Planalto, ao lado de Jorge Messias, que estava prestes a ser indicado para o STF. A religião foi um ponto reforçado pelo indicado de Lula durante sua sabatina, que se referiu a si mesmo como um “servo de Deus”.