Insegurança continua sendo uma das protagonistas da eleição
Pedro do Coutto
A campanha presidencial de 2026 começou oficialmente neste domingo, 16 de agosto, e as primeiras horas confirmaram o que as pesquisas já vinham desenhando: a disputa tende a se organizar em torno de Lula da Silva e do bolsonarismo, agora representado por Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos também largaram, mas ficaram longe da repercussão alcançada pelos dois principais polos.
Não é apenas uma questão de tamanho dos eventos. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 14 de agosto mostrou Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio. Caiado e Renan Santos aparecem com 4% cada, enquanto Zema tem 2%. No segundo turno, Lula registra 43% contra 40% de Flávio, num cenário de empate técnico.
SEGUNDO TURNO – É cedo para decretar que esse será o segundo turno, mas seria igualmente errado ignorar a força desse cenário. A eleição ainda pode mudar, especialmente porque parte importante do eleitorado permanece disponível para novas escolhas. O que existe hoje é uma vantagem competitiva dos dois polos. E o primeiro dia de campanha revelou o principal terreno dessa batalha: a segurança pública.
Lula percebeu que não pode deixar esse tema exclusivamente nas mãos da direita. Em São Bernardo do Campo, incorporou a segurança ao discurso eleitoral e voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública, vinculada à aprovação da PEC da Segurança pelo Congresso. A proposta pretende ampliar a participação da União no combate ao crime organizado e integrar as diferentes forças de segurança.
A mudança é politicamente relevante. Durante anos, a esquerda permitiu que a direita ocupasse quase sozinha o espaço do medo, da violência e da promessa de punição. Agora, Lula tenta mudar essa equação.
SEGURANÇA PÚBLICA – A segurança tornou-se uma das principais preocupações do eleitorado. Pesquisa recente aponta o tema como o principal problema nacional para 30% dos entrevistados, à frente de saúde, corrupção e outras questões.
Ao falar de crime organizado, Lula tenta deslocar o debate: não basta prender quem está nas ruas; é preciso atingir dinheiro, armas, lavagem de recursos, logística e os setores legais que eventualmente sustentam as organizações criminosas. A mensagem procura associar segurança a inteligência, investigação e combate à estrutura financeira do crime.
Flávio Bolsonaro escolheu outro caminho. Em Copacabana, apresentou-se como candidato capaz de responder diretamente ao medo cotidiano do eleitor. Associou segurança à soberania nacional, atacou Lula e defendeu medidas mais duras contra facções e milícias. Ao mesmo tempo, retomou explicitamente o legado do pai, Jair Bolsonaro.
VANTAGEM – Essa escolha oferece uma vantagem evidente: Flávio não precisa explicar de onde vem sua identidade política. O sobrenome funciona como uma marca eleitoral reconhecida. O desafio é convencer que pode ser mais do que o herdeiro político de Jair Bolsonaro.
Ele precisa preservar o núcleo bolsonarista e, simultaneamente, alcançar eleitores que não desejam simplesmente a repetição do governo anterior. Lula enfrenta o problema inverso: precisa defender seu governo sem permitir que a eleição se transforme exclusivamente num plebiscito sobre sua administração.
A presença de Jair Bolsonaro continua central. Mesmo fora da disputa, seu nome permanece como instrumento de mobilização. O primeiro ato de Flávio deixou isso evidente ao incorporar mensagens e referências ao pai.
PRESSÃO DE TRUMP – A soberania nacional será outro campo decisivo. A pressão exercida pelo governo Donald Trump sobre o Brasil tornou o tema mais concreto. Lula incorporou a defesa da soberania ao discurso, enquanto Flávio procura apresentar-se como alguém capaz de estabelecer uma relação diferente com Washington.
A palavra, porém, significa coisas diferentes para cada campo. Para Lula, envolve autonomia diplomática e defesa dos interesses econômicos brasileiros. Para Flávio, aparece ligada à autoridade do Estado, à segurança e à capacidade de proteger os cidadãos.
SEM CONTROLE – No fundo, ambos tentam responder à mesma ansiedade: a sensação de que o Brasil perdeu capacidade de controlar o que acontece dentro e fora de suas fronteiras. Por isso, a segurança pública pode ser o grande termômetro da eleição. O eleitor não discute o tema de forma abstrata. Fala do medo de ser assaltado, da bala perdida, das facções, das milícias e da percepção de que o Estado muitas vezes chega depois do crime.
O risco é transformar essa preocupação numa competição de promessas punitivas. O crime organizado brasileiro não é apenas um problema policial. Envolve dinheiro, fronteiras, armas, corrupção, sistema prisional, inteligência, tecnologia e lavagem de recursos. Nenhum governo enfrentará essa estrutura apenas com discursos de endurecimento.
Esse será o teste de Lula e Flávio. O presidente terá de mostrar que sua proposta de maior participação federal não é apenas uma promessa eleitoral. Flávio precisará demonstrar que suas propostas vão além da retórica e podem produzir resultados concretos.
BUSCA DE NARRATIVA – Caiado e Zema enfrentam um problema ainda maior. Possuem experiência administrativa e tentam ocupar o espaço da direita que não se identifica integralmente com o bolsonarismo. Mas experiência estadual não se transforma automaticamente em competitividade nacional. Precisam encontrar rapidamente uma narrativa capaz de romper a disputa binária que já domina o imaginário eleitoral.
A campanha começou, portanto, não como uma corrida entre candidatos em condições iguais, mas como uma disputa pela definição da agenda nacional. Lula quer que a eleição seja sobre soberania, direitos sociais, economia, segurança e democracia. Flávio quer que seja sobre segurança, corrupção, rejeição ao governo petista e continuidade do legado de Bolsonaro. Os demais precisam encontrar espaço entre esses dois discursos.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, haverá pouco mais de sete semanas para mudar essa fotografia. Debates, propaganda e redes sociais ainda podem alterar o cenário.
PRESENÇA DE BOLSONARO – A polarização, porém, permanece. Jair Bolsonaro já não está na urna, mas sua presença continua condicionando a estratégia de Flávio. Lula segue como principal adversário do bolsonarismo e precisa evitar que o desgaste do governo transforme a eleição num voto de rejeição.
A grande batalha de 2026 será saber se o eleitor escolherá entre dois projetos de futuro ou se, novamente, votará sobretudo contra aquilo que mais teme.
O primeiro dia de campanha deixou um sinal claro: o medo continuará sendo um dos grandes personagens da eleição. Medo da violência, da crise econômica, da interferência estrangeira e da volta do adversário. Antes mesmo de apresentarem plenamente o Brasil que pretendem construir, os candidatos já começaram a disputar quem conseguirá convencer o eleitor de que o outro representa o maior risco para o país.