terça-feira, agosto 18, 2026

Apenas o “cretino fundamental” consegue achar que o conflito de gerações é recente

Publicado em 18 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

Charge “A diferença entre as gerações” | Modo Aleatório

Charge do Periotti (Arquivo Google)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Peço a gentileza ao leitor de me acompanhar na breve citação que se segue. “Os dias de hoje são a época da mediocridade e da insensibilidade, da paixão pela ignorância, pela preguiça, pela incapacidade de agir e pela necessidade de ter tudo pronto. Ninguém faz uma reflexão; seria raro alguém suportar uma ideia.” Fim de citação.

Você arriscaria dizer de quem é essa citação? Ou dizer de quando é? Temo que, afora aquelas pessoas que a conhecem, todos errarão de forma crassa ao dizer de quando é essa citação.

NOVA ERA – É comum pensarmos, como contemporâneos que somos, que inauguramos uma nova era na história do mundo. Sem dúvida, nunca houve inteligência artificial antes —ainda suspeito que, em alguns anos, se a IA vingar para além do falatório acerca dela hoje em dia, ninguém dará a mínima bola para ela. Vivemos na era dos aviões, computadores, redes sociais, da medicina científica, enfim, de toda a parafernália tecnológica que conhecemos e que, certamente, mudou o mundo em vários âmbitos.

Mas não nos basta, com o enorme ego moderno que carregamos, saber das mudanças tecnológicas. Nossa era, ou melhor dizendo, minha era — já que, desde que nasci, trouxe uma boa nova para o mundo, a saber, eu mesmo, o que penso e minhas opiniões, o que o Nelson Rodrigues chamava de “o cretino fundamental”— está a criar um novo amor, novas formas de relação sexual, novas masculinidades, uma nova mulher, novas formas de fazer viagens em busca de “experiência”, novas crianças, um novo trabalho.

Enfim, cansa a lista que percorre tudo o que o cretino fundamental acha que seu mundo está criando para o bem da história.

CRETINO FUNDAMENTAL – Na verdade, se ele não tivesse nascido, esta história não teria tido nenhum sentido. Nosso cretino fundamental se vê como o clímax da dialética hegeliana. O sonho que o espírito absoluto sempre carregou consigo ao longo de milênios.

Entre as grandes novidades que o cretino fundamental trouxe para o mundo está a ideia de que existe um “conflito de gerações” e de que, antes dos seus filhos e filhas de 15 anos, o mundo nunca viu tensões entre as gerações. Apesar de a expressão “conflito de gerações” ter a cara do século 20 mesmo, o fenômeno é anterior.

Vale dizer que o século 21, até agora, só inventou a mentira como método, muitas doses de purpurina que cobrem até os cemitérios e gente que acha que sua vida sexual, a saia ou calça que veste devem ser o centro da política. Como herdeiros diretos dos hippies, acham que suas personalidades e corpos são políticos. Existe gente mais chata do que essa?

DA INCAPACIDADE – Alguns fatos se somaram ao longo do século 19 e do início do 20 para que gerações mais velhas começassem a sentir que os mais jovens eram muito mais capazes e inteligentes do que eles ou que eles eram incapazes de ensinar algo que prestasse para os mais jovens.

Vejamos. O surgimento da ciência e da revolução industrial demandou maior formação técnica especializada por parte das próximas gerações. A Primeira Guerra Mundial gerou uma crise de consciência moral em muitos professores pelo fato de se sentirem responsáveis pela matança, e eles se perguntavam quais valores poderiam ensinar aos mais jovens.

 

O romance “Pais e Filhos” de Turguêniev, de 1861, narra justamente esse conflito de gerações. O jovem médico Bazarov considera a geração do seu pai, médico de província — um médico pré-científico — inútil, ignorante e atrasada. O que isso significa? Qual a relação com a citação acima? Significa que muito do que se pensa que está sendo “disruptivo” hoje —palavra idiota da moda— não passa de um processo que anda em curso, no mínimo, desde o século 19.

PROCESSO EM CURSO – Portanto, só cretinos fundamentais assumem que navegam em experiências disruptivas ou que a sua época inventou um novo homem e uma nova mulher. Os grandes escritores russos e russas trocavam de marido e de mulher, viviam em “trisais” reconhecidos como tal, muito antes de se achar que o século 21 inventou o trisal por conta das “novas formas de amor”.

E, provavelmente, se procurarmos, ainda antes do século 19, encontraremos essas tais novas formas de amor que dizem por aí. “Nada há de novo embaixo do sol”, Eclesiastes. Um dos pecados dos contemporâneos é acreditar piamente que criaram um mundo totalmente novo.

Mas voltemos à citação que abre esta análise. O trecho é uma fala do personagem Kraft, do romance “O Adolescente”, de Dostoiévski, de 1875. Muitos poderiam jurar que ela se refere ao “novo mundo” criado pelas redes sociais. A mediocridade, a paixão pela ignorância, a preguiça, a insensibilidade e a necessidade de ter tudo pronto se arrastam pelo mundo já há algum tempo.


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