segunda-feira, agosto 17, 2026

O medo que chega às urnas e pode até decidir a eleição presidencial

Publicado em 17 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

Medo de ser assaltado alcança dois a cada três eleitores

Pedro do Coutto

A campanha presidencial de 2026 começa sob uma constatação que nenhum candidato poderá tratar como questão secundária: o brasileiro está com medo. Medo de ser assaltado, de perder o celular, de sofrer uma agressão e, cada vez mais, de que a violência atravesse a porta de casa. A insegurança deixou de ser apenas um problema de política pública para se transformar em uma experiência cotidiana — e, por isso, em uma poderosa variável eleitoral.

A pesquisa Quaest divulgada na última sexta-feira confirma a dimensão política desse sentimento: 33% dos eleitores apontam a violência como o principal problema do país, mais que o dobro dos que citam a economia, com 15%. Saúde e corrupção aparecem com 14% cada. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais.

TEMORES  – O dado ganha ainda mais força quando colocado ao lado do estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha. A pesquisa mostra que 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm medo de pelo menos uma situação de violência. Entre os principais temores estão golpes, roubo à mão armada, morte durante um assalto, roubo de celular, bala perdida e invasão da residência.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o medo do crime, mas a percepção de que o Estado perdeu capacidade de proteger o cidadão. Quando alguém muda o caminho para evitar determinada rua, deixa de usar o celular em público ou evita sair à noite, a violência já não é apenas uma ocorrência policial: ela passa a organizar a vida social.

É nesse ponto que a segurança pública se transforma em terreno eleitoral especialmente fértil para a direita. O risco, porém, é transformar uma angústia legítima em combustível para soluções simplistas. Mais armas, penas maiores e discursos de endurecimento podem produzir impacto eleitoral, mas não resolvem sozinhos um crime organizado que se tornou sofisticado, movimenta dinheiro, controla territórios, utiliza tecnologia e estabelece conexões dentro e fora do sistema prisional.

MEDO É REAL – O erro do campo progressista seria igualmente grave se tratasse a segurança como uma pauta artificialmente criada pela direita. Os números mostram o contrário. O medo é real, disseminado e atravessa diferentes segmentos sociais. Ignorá-lo significa entregar aos adversários o monopólio do diagnóstico e, principalmente, da proposta de solução.

A esquerda precisa disputar esse tema sem abrir mão de direitos, mas também sem transformar direitos em argumento para a inação. Segurança pública exige polícia preparada, inteligência, investigação financeira, combate ao tráfico de armas, integração entre forças de segurança, controle das fronteiras, recuperação de territórios dominados por organizações criminosas e um sistema prisional que não funcione como centro de comando do crime.

O eleitor, entretanto, não está interessado apenas em conceitos. Ele quer saber se poderá voltar para casa sem medo. E é justamente aí que a campanha deverá ser cobrada. Não basta perguntar quem será mais duro contra o crime. Será preciso perguntar quem tem um plano capaz de reduzir a violência de maneira concreta e sustentável.

DEBATE SIMPLIFICADO – O medo também tem uma consequência política perigosa: simplifica o debate. Diante da insegurança, explicações complexas perdem espaço para frases de efeito. É nesse ambiente que prosperam propostas que prometem força imediata, mesmo quando não demonstram capacidade real de produzir segurança.

A eleição de 2026 poderá ser decidida, em parte, pela capacidade dos candidatos de compreender essa diferença. Explorar o medo pode render votos. Reduzi-lo exige governo. A segurança pública, portanto, não será apenas mais um tema da campanha. Ela poderá atravessar economia, desigualdade, juventude, drogas, urbanização, sistema prisional e até a relação entre União, Estados e municípios. O que estará em disputa será algo mais profundo: a confiança de que o Estado ainda consegue proteger o cidadão comum.

No fim, a pergunta decisiva não será quem grita mais alto contra a criminalidade. Será quem consegue apresentar um caminho plausível para que o brasileiro volte a caminhar pela rua, usar o próprio celular e abrir a porta de casa sem sentir que sua segurança depende da sorte. É nesse espaço entre o medo e a promessa de proteção que a eleição de 2026 começa a ser desenhada.

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