domingo, agosto 16, 2026

JK foi senador por Goiás em acordo político, apoiou Castelo Branco e acabou cassado pela ditadura

 

JK foi senador por Goiás em acordo político, apoiou Castelo Branco e acabou cassado pela ditadura

O ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK) chegou ao Senado por Goiás em 1961 após uma articulação política que envolveu a renúncia do senador Taciano de Melo, eleito pelo estado. O arranjo permitiu que a população goiana fosse convocada para uma eleição extraordinária, vencida por JK com 84,5% dos votos. Cinco anos depois, o ex-presidente seria cassado pela ditadura militar e teria os direitos políticos suspensos por uma década.

O episódio integra um dos capítulos menos conhecidos da trajetória de JK, que morreu em 22/08/1976, aos 73 anos, em acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, quando seguia de São Paulo para o Rio de Janeiro. Documentos preservados pelo Arquivo do Senado mostram que a articulação para sua candidatura ao Senado era conhecida entre parlamentares e setores políticos de Goiás.

A passagem pelo Senado também esteve relacionada aos planos de JK de permanecer politicamente ativo e disputar a Presidência da República em 1965. No entanto, a crise política de 1964 interrompeu esse projeto. JK apoiou a eleição indireta do general Humberto Castelo Branco, mas acabou cassado poucos meses depois da instalação do regime militar.

A articulação que levou JK ao Senado

Em 10/01/1961, o senador Taciano de Melo, do PSD de Goiás, renunciou ao mandato para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF). O cargo havia sido oferecido pelo governo de JK, que deixaria a Presidência da República três semanas depois.

A saída de Melo provocou uma eleição extraordinária em Goiás porque o suplente, Sócrates Diniz, havia morrido no ano anterior. O movimento abriu espaço para que JK concorresse ao Senado após deixar o Palácio do Planalto.

Discursos registrados no Arquivo do Senado evidenciam que parlamentares conheciam a finalidade política da renúncia. Vivaldo Lima, do PTB do Amazonas, afirmou que Taciano de Melo estava deixando o mandato para possibilitar que JK ocupasse uma cadeira no Senado e permanecesse ligado à vida pública.

O próprio Taciano de Melo reconheceu a articulação durante o pronunciamento de despedida. Segundo ele, sua saída permitiria que o então presidente assumisse uma cadeira no Senado e continuasse atuando na condução dos destinos do país.

Por que JK escolheu Goiás

Juscelino Kubitschek tinha uma trajetória política vinculada a Minas Gerais, onde havia sido governador, prefeito de Belo Horizonte e deputado federal. A candidatura por Goiás ocorreu porque, segundo os registros históricos, não havia senador mineiro disposto a renunciar ao mandato para abrir espaço ao ex-presidente.

Outro fator foi a relação política construída com Goiás durante a implantação de Brasília, cuja construção beneficiou diretamente o território que recebeu a nova capital federal.

O senador Coimbra Bueno, da UDN de Goiás, destacou em discurso a influência das obras realizadas durante o governo JK sobre o estado. A construção de Brasília, as rodovias e a expansão da presença federal eram apontadas como razões para o apoio dos eleitores goianos ao ex-presidente.

Alianças envolveram PSD, PTB e UDN

A candidatura de JK também contou com articulações entre diferentes grupos políticos. O governador eleito de Goiás, Mauro Borges, e o senador Pedro Ludovico, presidente do PSD estadual, participaram de missões oficiais do governo brasileiro no exterior.

O deputado Domingos Velasco, do PTB, foi nomeado ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Paralelamente, JK buscou apoio dentro da UDN de Goiás, partido que nacionalmente fazia oposição ao PSD.

A aproximação com os udenistas goianos provocou uma crise entre a direção regional e a direção nacional da UDN, que não desejava a presença de JK no Senado. Mesmo assim, setores da legenda no estado apoiaram a candidatura.

JK vence eleição com 84,5% dos votos

A eleição extraordinária ocorreu em 04/06/1961. JK venceu com 84,5% dos votos, derrotando o deputado federal Wagner Estelita, candidato apoiado pelo presidente Jânio Quadros.

Após o resultado, o ex-presidente percorreu diferentes regiões de Goiás em campanha. Em 12 de julho, viajou entre Goiânia e Brasília acompanhado por um cortejo de aproximadamente 300 carros, segundo registros jornalísticos da época.

A posse no Senado ocorreu diante de público numeroso. Em seu primeiro discurso, JK utilizou a tribuna para defender o legado de seu governo e apresentar os resultados econômicos e de infraestrutura alcançados durante os cinco anos em que ocupou a Presidência.

Discurso de posse defendeu legado presidencial

No primeiro pronunciamento como senador, JK citou 20 mil quilômetros de estradas, 320 mil veículos automotores, aumento da produção de aço, expansão da produção de cimento e investimentos em energia, petróleo, indústria pesada, construção naval, tratores e química de base.

O ex-presidente afirmou que seu governo havia ampliado a infraestrutura brasileira e criado condições para o avanço da economia nacional.

JK também explicou por que considerava importante permanecer no Senado. Segundo ele, a tribuna parlamentar permitiria defender seus princípios políticos e responder às críticas que surgissem contra seu governo.

A permanência no Legislativo também tinha uma dimensão eleitoral. JK já trabalhava com a possibilidade de disputar novamente a Presidência da República em 1965, após a eleição de Jânio Quadros em 1960.

Senado serviu de espaço para defesa política

Durante o período em que esteve no Senado, JK dedicou parte de sua atuação política às articulações para o retorno do presidencialismo, que ocorreu em 1963, e aos preparativos para uma eventual candidatura presidencial.

Os documentos do Arquivo do Senado mostram, porém, que sua presença nas atividades legislativas foi limitada. Ao longo do mandato, JK participou de poucas sessões e não apresentou projetos de lei, além de ter feito apenas três discursos no Plenário.

A baixa frequência provocou críticas de outros parlamentares. Em 1962, senadores questionaram uma entrevista concedida por JK ao Jornal do Brasil na qual ele acusara o Congresso de retardar votações relacionadas à reforma agrária, ao capital estrangeiro e ao voto dos analfabetos.

Críticas à baixa frequência no Senado

O senador Caiado de Castro, do PTB da Guanabara, afirmou que JK não poderia acusar o Congresso de não trabalhar enquanto comparecia pouco às sessões.

Aloysio de Carvalho, da UDN da Bahia, também criticou a postura do ex-presidente e afirmou que sua ausência indicava desprezo pelo Parlamento.

Até aliados reconheceram a baixa participação de JK. O senador Lima Teixeira, do PTB da Bahia, afirmou que o ex-presidente não tinha predileção pelo Congresso e que sua vocação política estava mais relacionada ao Poder Executivo.

Apesar das críticas, JK continuou utilizando sua posição política para defender Brasília, acompanhar a crise institucional e preparar-se para uma possível candidatura presidencial.

JK apoia Castelo Branco após o golpe de 1964

Em 21/03/1964, o PSD lançou oficialmente a candidatura de JK à Presidência da República para a eleição prevista para 1965. Durante a convenção partidária, o senador apresentou a reforma agrária como uma das prioridades de um eventual segundo governo.

Poucos dias depois, entre 31/03 e 01/04/1964, os militares derrubaram o presidente João Goulart e instalaram o regime que posteriormente seria consolidado como ditadura militar.

JK não condenou imediatamente o movimento. Ele participou de conversas com lideranças militares e se reuniu com o general Humberto Castelo Branco, que havia sido escolhido pelas Forças Armadas para concluir o mandato presidencial.

Castelo Branco precisava dos votos do PSD no Congresso para ser eleito indiretamente. Segundo os registros históricos, houve promessa de manutenção da eleição presidencial de 1965 e posterior devolução do governo aos civis.

Ex-presidente votou em Castelo Branco

Acreditando que o processo militar não impediria seu projeto político, JK participou da eleição indireta de 11/04/1964 e votou em Humberto Castelo Branco. O general tornou-se o primeiro presidente do regime militar.

A expectativa de JK era que a normalidade institucional fosse restaurada e que a eleição presidencial prevista para 1965 fosse realizada. O cenário, contudo, mudou rapidamente.

Nas semanas seguintes, cresceram os rumores de que o ex-presidente seria alvo de cassação. Em 03/06/1964, JK fez seu terceiro e último discurso no Senado.

No pronunciamento, afirmou que havia rumores sobre a suspensão de seus direitos políticos e questionou as acusações que poderiam fundamentar a medida. Também alertou que sua cassação atingiria o direito de escolha dos eleitores.

Mandato é cassado cinco dias depois

Cinco dias após o discurso, em 08/06/1964, Castelo Branco assinou decreto que cassou o mandato de JK e suspendeu seus direitos políticos por dez anos.

A medida encerrou a carreira parlamentar do ex-presidente e o retirou da disputa política. JK deixou o país e passou um período no exílio.

O historiador Ronaldo Costa Couto, autor de biografia sobre JK, sustenta que Castelo Branco não pretendia inicialmente cassar o ex-presidente, mas teria cedido à pressão de setores militares liderados pelo então ministro da Guerra, general Artur da Costa e Silva.

Segundo a avaliação apresentada pelo historiador, parte da cúpula militar considerava provável uma vitória de JK em uma eleição presidencial e avaliava que seu retorno ao Palácio do Planalto poderia representar uma reversão política do movimento de 1964.

Pressão militar estava ligada à possível volta de JK

De acordo com Costa Couto, pesquisas de opinião da época indicavam mais de 60% das intenções de voto para JK, o que aumentava a preocupação dos setores militares que haviam assumido o poder.

O historiador também relaciona a oposição militar ao histórico político de JK e à aproximação de seu discurso com propostas de reforma agrária defendidas por João Goulart.

Antes mesmo de 1964, JK havia enfrentado três episódios de contestação militar: em 1955, quando setores tentaram impedir sua posse; em 1956, durante a Revolta de Jacareacanga; e em 1959, na Revolta de Aragarças.

Após o exílio, JK retornou ao Brasil em 1967, mas não voltou a exercer cargo político. O regime militar não realizou a eleição presidencial de 1965, como havia sido inicialmente prometido.

A construção do mito político de JK

A historiadora Ana Maria Cardoso Ribas, pesquisadora da trajetória política de JK, afirma que a imagem construída posteriormente sobre o ex-presidente não contempla todas as contradições de sua atuação pública.

Segundo ela, JK participou conscientemente da construção de uma imagem associada à democracia, ao desenvolvimento econômico e à pacificação política.

A pesquisadora também chama atenção para episódios anteriores à Presidência. JK foi chefe de gabinete de um interventor de Minas Gerais nomeado por Getúlio Vargas na década de 1930 e prefeito de Belo Horizonte durante o Estado Novo, em período no qual o cargo não era preenchido por eleição.

Contradições da trajetória política

Na avaliação de Ribas, a imagem posterior de JK também deixou em segundo plano a articulação que permitiu sua chegada ao Senado e seu apoio inicial ao movimento militar de 1964.

A historiadora aponta que JK via o golpe como uma medida necessária diante do temor de avanço do comunismo, percepção compartilhada por setores civis e militares conservadores naquele período.

Com o prolongamento da ditadura, porém, a imagem do governo JK passou a ser associada aos chamados “anos dourados”, em contraste com o período autoritário que se seguiu.

Para Ribas, a cassação, o exílio, a prisão em 1968, problemas de saúde e a morte em acidente automobilístico contribuíram posteriormente para a consolidação de uma imagem idealizada do ex-presidente.

Morte de JK completa 50 anos em 2026

Juscelino Kubitschek morreu em 22/08/1976, quando o automóvel em que viajava sofreu um acidente na Rodovia Presidente Dutra, no trajeto entre São Paulo e Rio de Janeiro.

A morte ocorreu dez anos após o término do período de dez anos de suspensão de seus direitos políticos, mas JK não havia retomado uma função política institucional desde o retorno do exílio.

A trajetória apresentada pelos documentos do Senado reúne diferentes momentos da história política brasileira: a construção de Brasília, a articulação para sua eleição como senador por Goiás, a crise entre Jânio Quadros e João Goulart, o golpe de 1964, o apoio inicial a Castelo Branco e a posterior cassação.

A documentação também evidencia que a carreira de JK combinou projetos de desenvolvimento, articulações eleitorais, alianças políticas e decisões tomadas em contextos de forte instabilidade institucional. O episódio da chegada ao Senado e sua posterior cassação ajudam a compreender as contradições de uma das principais figuras políticas brasileiras do século XX.

*Com informações da Agência Senado.

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