Publicado em 13 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

Michelle ganha espaço, e campanha quer usá-la como trunfo
Pedro do Coutto
O primeiro encontro público entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro depois do recente atrito entre os dois não deve ser interpretado apenas como uma reconciliação familiar. Em plena preparação para a eleição presidencial, a imagem dos dois juntos tem uma função política evidente: reconstruir a unidade de um grupo que depende fortemente da força simbólica da família Bolsonaro.
A crise havia adquirido dimensão suficiente para ameaçar a campanha. Agora, Michelle e Flávio voltam a aparecer juntos e procuram transmitir a mensagem de que as divergências foram superadas. A estratégia faz sentido eleitoralmente. Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 59% dos eleitores consideraram positiva a reaproximação, percentual que chegou a 90% entre os bolsonaristas.
ATIVO POLÍTICO – Mas a fotografia da reconciliação também revela uma questão mais profunda: Michelle se tornou um ativo político que Flávio não pode ignorar. Sua influência ultrapassa o papel de ex-primeira-dama e alcança segmentos importantes do eleitorado conservador, especialmente entre mulheres e evangélicos. Por isso, sua presença na campanha deixou de ser acessória. Ela passou a integrar a própria equação de poder do bolsonarismo.
Flávio, por sua vez, precisa ampliar sua candidatura para além do núcleo mais fiel ao pai. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em agosto mostra Lula com 39% e Flávio com 30% no primeiro turno; no segundo, o presidente aparece com 44%, contra 39% do senador. Já a CNT/MDA, divulgada nesta terça-feira, apontou Lula com 42,4% contra 28,7% de Flávio no primeiro turno e 48% contra 39,1% no segundo.
Os números mostram que Flávio está competitivo, mas ainda enfrenta um obstáculo central: transformar a herança política de Jair Bolsonaro em uma candidatura capaz de conquistar eleitores além da base bolsonarista.
UNIDADE FAMILIAR – É nesse ponto que Michelle pode ajudar. Sua imagem pode suavizar a candidatura, ampliar sua capacidade de comunicação e reforçar a sensação de unidade familiar. Mas existe também um risco: se Flávio depender excessivamente da ex-primeira-dama, poderá reforçar justamente a percepção de que ainda não construiu uma identidade política própria.
A reconciliação, portanto, resolve uma emergência, mas não encerra a disputa de fundo. O bolsonarismo entrou numa fase de sucessão. Jair Bolsonaro continua sendo sua principal referência, mas a eleição de 2026 definirá muito mais do que o adversário de Lula: definirá quem terá condições de comandar esse campo político nos próximos anos.
Nesse cenário, Michelle não é apenas uma apoiadora de Flávio. Ela também preserva capital próprio e capacidade de influência. E isso explica por que o reencontro interessa aos dois lados.
TOMA LÁ, DÁ CÁ – Flávio precisa de Michelle para fortalecer sua candidatura. Michelle precisa manter espaço dentro do grupo que continua orbitando o sobrenome Bolsonaro. O PL precisa dos dois para evitar que uma disputa familiar se transforme em fratura eleitoral. A paz, portanto, é conveniente para todos. Mas conveniência não significa consenso.
O vídeo dos dois juntos pode representar o fim de uma crise. Politicamente, porém, também funciona como o primeiro capítulo de uma disputa muito maior: quem herdará, de fato, o poder construído por Jair Bolsonaro.