Vorcaro reforça defesa em busca de 3ª tentativa de delação, mas provoca atritos com advogados
Por Aguirre Talento/Estadão Conteúdo
10/08/2026 às 11:10
Foto: Divulgação/Polícia Federal/Arquivo
Daniel Vorcaro
O banqueiro Daniel Vorcaro passou as últimas semanas negociando a contratação de advogados de pelo menos três escritórios diferentes para cuidar de sua defesa e tentar retomar as tratativas de sua delação premiada. Até agora, um deles foi constituído para atuar no caso, o do criminalista Daniel Bialski. Mas as sondagens têm provocado atritos com o advogado que acompanha Vorcaro há mais tempo e é seu amigo pessoal de longa data, o criminalista Sérgio Leonardo.
De acordo com pessoas que acompanham essas tratativas, Vorcaro sinalizou às equipes dos três escritórios que os contrataria, recebeu minutas dos contratos para assinatura e até negociou formas de pagamento dos honorários.
Após longas reuniões e discussões sobre as estratégias jurídicas, porém, o banqueiro postergava a assinatura dos contratos e demais documentos que formalizariam a mudança na equipe de defesa. Isso começou a despertar a desconfiança dos advogados de que a contratação não seria efetivada.
As negociações também esbarraram na resistência do advogado Sérgio Leonardo, que é amigo de longa data de Vorcaro e foi o único criminalista que continuou em sua defesa após a saída de todos os outros escritórios que estavam no caso. Ele chegou a sugerir aos advogados sondados por Vorcaro que atuassem apenas nos bastidores, sem a divulgação dos seus nomes no caso.
Foi o que ocorreu, inicialmente, com a contratação do criminalista Daniel Bialski, que já foi advogado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, do ex-governador do Rio Cláudio Castro e atuou em diversos casos criminais relevantes, como na Operação Lava Jato. Bialski teve reuniões com Vorcaro e acertou com o banqueiro a atuação em sua defesa perante o STF em conjunto com Sérgio Leonardo, com o objetivo de tentar destravar as negociações da delação premiada. A contratação só se tornou pública, porém, depois que Bialski peticionou nos autos.
Vorcaro também conversou nas últimas semanas com a equipe de Cezar Bitencourt, jurista e criminalista que atuou na delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid. Ele atuaria em conjunto com os advogados Vânia Adorno Bitencourt e Jair Alves Pereira, mesma equipe que trabalhou no caso de Cid. A negociação com essa equipe era a que estava mais avançada, mas acabou regredindo após reportagens na imprensa que divulgaram o nome de Bitencourt como o novo advogado do caso.
Um segundo escritório que negociou com Vorcaro foi o do ex-juiz federal Erik Navarro. Ele fez algumas reuniões com o banqueiro no presídio da Papudinha para definir estratégias de atuação junto à Polícia Federal para destravar a delação. Chegou a entregar a minuta do contrato, mas Vorcaro não assinou o documento.
Após a divulgação de notícias na imprensa de que Bitencourt assumiria a defesa, Sérgio Leonardo demonstrou irritação com a situação e soltou uma nota reafirmando ser ele o único advogado do caso. “A defesa de Daniel Vorcaro é conduzida pela equipe liderada pelo advogado criminalista Sérgio Leonardo, que está constituído desde 18 de novembro de 2025. Nenhum substabelecimento ou nova procuração foi juntado aos autos de nenhum processo perante o STF nos últimos 30 dias. Qualquer informação em sentido diverso não corresponde à realidade”, disse na nota.
Na ocasião, porém, a contratação de Bialski já estava encaminhada. Por isso, apesar de Sérgio Leonardo ter divulgado uma nota pública reiterando que era o único advogado do caso, uma semana depois a entrada de Bialski foi confirmada publicamente.
Vorcaro perdeu advogados após optar por delação
Quando se tornou alvo da Polícia Federal, Vorcaro tinha uma grande equipe de advogados, como as bancas de Pierpaolo Bottini, de Roberto Podval e de Walfrido Warde. O advogado Sérgio Leonardo, que é amigo de Vorcaro desde antes das investigações, também atuava no caso desde o início. Ele é criminalista, presidiu a seccional da OAB de Minas Gerais e é filho de Marcelo Leonardo, criminalista mineiro muito conhecido por sua atuação no mensalão e em grandes operações policiais.
Os escritórios foram deixando o caso depois que o banqueiro passou a buscar uma delação premiada, que foi inicialmente confeccionada pelo criminalista José Luís de Oliveira Lima. Com a rejeição da primeira proposta, Juca, como é conhecido, também saiu da defesa do banqueiro, que passou a ser acompanhado apenas por Sérgio Leonardo. Foi ele quem confeccionou a segunda proposta de delação, também rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Com as sucessivas derrotas na delação premiada, Vorcaro foi transferido da carceragem da Superintendência da PF em Brasília para uma unidade prisional no Complexo Penitenciário da Papuda. Depois disso, voltou a buscar outros advogados para reforçar sua equipe de defesa e tentar negociar uma terceira proposta de delação premiada.
A equipe de Cezar Bitencourt foi sugerida a Vorcaro por seus familiares, por causa do bom resultado obtido no processo de Mauro Cid. Após sondagens iniciais, os advogados mantiveram várias reuniões com Vorcaro no presídio. Nos encontros, discutiram possíveis estratégias jurídicas para o caso.
Essas conversas passaram a incomodar Sérgio Leonardo, que ganhou protagonismo no caso após passar a cuidar sozinho da defesa do banqueiro. Além de ter soltado uma nota à imprensa reiterando que era o único advogado do caso, Sérgio Leonardo também reclamou com familiares do banqueiro sobre a indicação de nomes para assumir a defesa.
Os investigadores consideram remota a possibilidade de reabrir uma terceira negociação de delação premiada. Segundo eles, nas duas propostas apresentadas por Vorcaro não constavam fatos novos para o avanço das investigações. Os investigadores entendem que o investigado tem direito de apresentar novas propostas de colaboração, mas isso não significa que a proposta seria aceita. Por isso, uma retomada da negociação só seria justificável se o banqueiro reformulasse totalmente sua delação premiada e decidisse contar tudo o que sabe. Até agora, os investigadores são céticos sobre essa possibilidade.
Politica Livre