ALÉM DO VÍDEO VIRAL: O Escândalo na Igreja de Jeremoabo e a Crônica Omissão do Estado na Saúde Mental
Por José Montalvão
O lamentável e bizarro episódio registrado recentemente na Paróquia São João Batista, em Jeremoabo — onde um cidadão em visível estado de surto psiquiátrico defecou próximo ao altar em plena celebração eucarística —, tomou proporções nacionais após ganhar as redes sociais e os noticiários. A cena gerou indignação, choque moral e debate jurídico. No entanto, quando despimos o fato do mero sensacionalismo e da busca por engajamento digital, o que resta exposto é a ferida aberta de uma falha crônica do poder público: a inoperância e a omissão histórica na assistência à saúde mental e à população em vulnerabilidade extrema no interior do país.
Como diz o saber popular, o Estado brasileiro tem a amarga cultura de "fechar a porta depois de arrombada". Não fosse a repercussão estrondosa impulsionada pela imprensa falada, escrita, televisiva e pelos canais digitais, o indivíduo em questão continuaria sendo apenas mais uma figura invisível a vagar sem rumo e sem assistência pelas ruas da cidade.
A Rotina Invisível de Danos e Surtos Reincidentes
O escândalo dentro do templo religioso não foi um fato isolado ou imprevisível. Circula também na internet outro registro em que o mesmo homem aparece tentando causar prejuízos e tumulto em um estabelecimento comercial no centro de Jeremoabo, além de relatos de diversos outros episódios de perturbação e agressividade.
Esses antecedentes comprovam que o sinal de alerta já vinha piscando há tempos. A comunidade local já convivia com o risco, e comerciantes e moradores já sentiam na pele a insegurança.
É preciso reconhecer que o abandono da saúde mental e da assistência social é um mal crônico que se arrasta há anos, não apenas em Jeremoabo — onde a atual gestão do prefeito Tista de Deda herdou uma verdadeira herança maldita de sucateamento e falta de redes estruturadas —, mas em grande parte do Brasil. A administração municipal vem fazendo a sua parte e somando esforços para avançar no setor social, na saúde e na educação, mas é evidente que não se consegue consertar gargalos históricos e falhas estruturais de décadas a toque de caixa.
A fragilidade do sistema repousa em três pilares perversos da gestão pública nacional:
Ausência de Rede Preventiva Eficiente: Os órgãos de saúde pública e de assistência social frequentemente operam de forma reativa e burocrática. Pessoas em sofrimento mental grave ou em situação de rua extrema só entram no radar do poder público quando cometem atos escandalosos ou de violência explícita;
Inércia Institucional e Abandono das Famílias: A falta de estruturas adequadas de retaguarda psiquiátrica (como CAPS atuantes com leitos de acolhimento e suporte intensivo) deixa tanto a sociedade quanto as próprias famílias dos doentes mentais completamente desamparadas. Sem apoio estatal, familiares exaustos não conseguem reter ou medicar o indivíduo, que passa a vagar sem controle;
As Redes Sociais Como Gatilho Tardio: A viralização do vídeo funcionou como um incômodo e constrangedor espelho. O Estado muitas vezes só se mobiliza para prestar socorro ou recolher o paciente quando a sua omissão vira motivo de chacota ou denúncia em escala nacional.
O Papel da Imprensa e a Necessidade de Ação Integrada
A cobertura jornalística do caso cumpriu a sua função mais nobre: tirou o problema de debaixo do tapete. Sem a força da imprensa e a pressão da opinião pública, o caso teria sido tratado apenas como mais uma ocorrência policial passageira ou um simples "ato de vandalismo", ignorando-se a raiz patológica e social do problema.
Agora que a porta foi arrombada e o escândalo consumado, não bastam notas oficiais de esclarecimento ou medidas paliativas para abafar o caso. Jeremoabo e o Estado da Bahia precisam consolidadar uma política pública contínua, humana e rigorosa de atenção à saúde mental e à assistência social, fortalecendo as ações que a gestão municipal já tenta implementar para superar o passivo recebido do passado.
Conclusão: Saúde Mental É Caso de Saúde Pública, Não de Policiamento ou Deboche
Pessoas acometidas por transtornos mentais graves e sem suporte familiar não podem ser abandonadas à própria sorte nas ruas da cidade como bombas-relógio prestes a explodir. Elas necessitam de diagnóstico, medicação, acompanhamento e internamento quando a sua condição oferecer risco a si e a terceiros.
Tratar a saúde mental com descaso é condenar a sociedade ao medo e expor o doente à degradação moral. Que o triste espetáculo visto no altar da nossa matriz sirva de lição definitiva: a reconstrução da rede de saúde mental exige tempo e investimentos, mas o poder público — em todas as esferas — precisa agir com inteligência, estrutura e sensibilidade antes que a tragédia ou o ridículo tomem conta das nossas ruas!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: Cobrando eficiência na gestão pública, superação dos problemas históricos e defesa da saúde mental para a população de Jeremoabo!