
Flávio opta pela espetacularização em pré-campanha
Marcelo Copelli
Revista Fórum
A pré-campanha presidencial de 2026 já expôs seu método antes mesmo de apresentar seu programa. Em vez de colocar no centro da discussão propostas sobre crescimento, produtividade, envelhecimento populacional, transição energética ou reforma do Estado, a direita brasileira voltou a organizar sua comunicação em torno da lógica do confronto permanente. O lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, realizado em São Paulo, tornou esse movimento evidente.
Na convenção que oficializou o nome do senador pelo PL para a corrida presidencial, sem vice definido e ainda sem uma coligação nacional consolidada, o momento de maior repercussão não foi um discurso sobre economia ou políticas públicas. Foi a exibição de um vídeo produzido por inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, utilizado pelo próprio filho para pedir apoio ao seu nome, mesmo com o ex-presidente submetido a restrições judiciais que o impedem de participar de atos públicos.
REAÇÃO – O episódio provocou reação imediata. A Federação Brasil da Esperança, que reúne o PT, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma representação por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial, distribuída ao ministro Kassio Nunes Marques. No Supremo, a defesa de Bolsonaro argumentou que o ex-presidente sequer teria condições de autorizar o uso de sua imagem diante das limitações impostas pela Justiça. A justificativa, porém, acabou ampliando uma questão central: se o próprio Bolsonaro não poderia validar publicamente a utilização de sua imagem, quem decidiu colocá-lo para “falar” na convenção?
A controvérsia dividiu espaço nas manchetes com outro episódio de forte impacto: a presença do presidente argentino Javier Milei, que utilizou seu discurso para atacar Lula e o ministro Alexandre de Moraes em termos que dificilmente seriam empregados por um político brasileiro em território nacional, protegido pela condição de chefe de Estado estrangeiro. A consequência foi uma crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires, com a convocação do embaixador brasileiro para consultas e uma reação institucional do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que classificou as declarações como desrespeitosas às instituições brasileiras.
Somaram-se ainda mensagens de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, utilizadas para associar a chapa à imagem de uma articulação conservadora internacional. O resultado foi simbólico: o evento que deveria apresentar Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto acabou dominado por controvérsias externas à formulação de um programa de governo — inteligência artificial, tensão diplomática e conflitos institucionais — e não pela apresentação de prioridades para o país.
MÉTODO POLÍTICO – Essa dinâmica não surgiu agora. Ela representa a continuidade de um método político consolidado desde 2018: transformar a política em uma disputa permanente de identidades, ameaças e inimigos, na qual conflitos com instituições, pautas de costumes e ataques simbólicos ocupam o espaço que deveria ser destinado à construção de um projeto nacional.
É preciso reconhecer que esse modelo teve eficácia política. A direita bolsonarista construiu uma identidade forte, mobilizou sua base de maneira consistente e alterou o funcionamento do debate público brasileiro como poucas forças políticas conseguiram fazer nas últimas décadas. Sua capacidade de criar engajamento e influenciar a agenda nacional é um fato político relevante.
O problema está em outro ponto: a mobilização passou a funcionar como substituta de uma formulação programática mais ampla. A extrema direita brasileira demonstrou força para organizar conflitos, mas ainda enfrenta dificuldades para apresentar uma visão de país que vá além da reafirmação de identidades políticas e da permanente busca por adversários.
SIMBOLISMO – A lógica do confronto permanente cumpre, nesse modelo político, uma função específica: manter a base mobilizada a partir de ameaças contínuas e disputas simbólicas que exigem posicionamento constante. Enquanto um programa de governo precisa lidar com escolhas, limites e resultados mensuráveis, a política baseada no conflito depende da produção permanente de novos antagonismos. O adversário deixa de ser apenas um concorrente eleitoral e passa a ocupar o centro da própria identidade do movimento.
No caso de Flávio Bolsonaro, essa limitação aparece de forma mais evidente. O senador foi lançado ao cenário presidencial pelo próprio pai, sem ter construído, até aqui, uma identidade política plenamente independente, e enfrenta dificuldades para consolidar liderança dentro do próprio campo. Pesquisas indicam que Michelle Bolsonaro apresenta maior competitividade entre segmentos como evangélicos e mulheres, enquanto o campo conservador continua marcado por diferentes grupos e interesses.
Ao mesmo tempo, setores do centro político e aliados da direita buscam nomes com maior capacidade de articulação e ampliação eleitoral, enquanto pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa ainda marcada pela vantagem de Lula em cenários de segundo turno. Flávio também carrega o peso de episódios que acompanham sua trajetória política, como as investigações envolvendo crime de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio e questionamentos relacionados à aquisição de imóveis. São temas explorados por adversários e que não desaparecem apenas porque o debate público é ocupado por controvérsias momentâneas.
PRIORIDADES – Uma eleição presidencial deveria ser o momento de confronto entre diferentes visões sobre o futuro do país. Os desafios que estarão diante da próxima administração não pertencem a um único governo nem serão solucionados por uma única gestão. A qualidade da disputa democrática depende da capacidade de apresentar prioridades, escolhas e caminhos para enfrentar problemas estruturais. Quando a maior parte da atenção pública é absorvida por conflitos institucionais, embates simbólicos e disputas de identidade, reduz-se o espaço para discutir como cada candidatura pretende governar.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em diferentes democracias, forças políticas perceberam que a mobilização de ressentimentos, identidades e adversários simbólicos pode produzir resultados eleitorais relevantes. A diferença está no que acontece depois: transformar engajamento político em capacidade de formular políticas públicas diante de sociedades cada vez mais complexas continua sendo o principal teste para qualquer força que pretende governar.
ESPETACULARIZAÇÃO – A questão central para a direita brasileira, especialmente para sua vertente mais radicalizada, não é mais sua capacidade de mobilizar. O problema é que essa mobilização passou a ocupar o lugar que deveria ser destinado à construção de um projeto de país. Ao transformar espetacularização, desinformação, confrontos institucionais e conexões internacionais utilizadas como instrumentos de polarização em eixo da comunicação política, a extrema direita deixa em segundo plano a apresentação de respostas para os problemas concretos do Brasil.
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou apenas uma estratégia de comunicação; expôs um método político. O centro da cena foi ocupado pela reconstrução artificial da presença de Jair Bolsonaro, pela internacionalização da disputa e pelo confronto com instituições. O que permaneceu ausente foi justamente o elemento que deveria organizar uma candidatura presidencial: uma visão de futuro para o país, com prioridades definidas e respostas para os desafios que estarão diante da próxima administração.