Toma-lá-dá-cá de Ciro com Lula pesou
Eliane Cantanhêde
Estadão
Toda eleição tem lá seus mistérios e o maior de todos em 2026 é o encontro (ou encontros) do presidente Lula com o senador Ciro Nogueira, que deu uma cambalhota, tirou o PP e o próprio Centrão da candidatura de Flávio Bolsonaro e empurrou para o que chamam de “neutralidade”. Depois da reaproximação de Lula e Nogueira, a eleição nunca mais foi a mesma.
Ciro Nogueira, do Piauí, é um duplo recordista. Apoiou FHC, Lula, Dilma e Temer, até chefiar o que o próprio Jair Bolsonaro chamava de “coração” do seu governo, a Casa Civil. E esteve, de alguma forma, envolvido nos mais variados escândalos, desde a Lava Jato até o Banco Master. Detalhe: foram sete esquemas de corrupção, cinco inquéritos e quatro denúncias formais, nenhuma condenação.
NOVO ACERTO – Soa ingênuo dizer que o novo acerto entre Lula e Nogueira foi só por conveniências políticas no Piauí, onde ele disputa a reeleição ao Senado. E é muito pouco definir como “pragmático” o “reencontro” entre eles, que se conhecem de outros carnavais e vivem entre amor e ódio. Nos três primeiros anos do terceiro mandato, o senador foi o mais ácido crítico de Lula. De repente, ficou mudo.
Entre os motivos do silêncio estão as fotos, trocas de mensagens, viagens carregadas de luxo e mesadas que somaram R$ 6 milhões do amigão Daniel Vorcaro para Nogueira. Certamente, porém, o toma-lá-dá-cá com Lula pesa. E os efeitos políticos e eleitorais já emergem à luz do dia e nas campanhas.
Ciro Nogueira não estava apenas por trás, mas comandou com mão de ferro a decisão do PP de impedir que a também senadora Tereza Cristina fosse candidata a vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Uma decisão rápida e incomum: sem a executiva, sem reunião, sem debate e não se fala mais nisso.
“SONHO DE CONSUMO” – Bastaram alguns telefonemas e o anúncio de Nogueira para eliminar um baita troféu de Flávio e uma assombração de Lula. Mulher, líder do agro, ex-ministra da Agricultura e com grande credibilidade, Tereza Cristina é “sonho de consumo” do candidato do PL e de qualquer candidato, mas, em sintonia com o PP, quer mesmo é ser a primeira mulher a presidir o Senado.
Também é graças ao Centrão que outro trunfo para Flávio e assombração para Lula está ruindo em Minas, onde o Republicanos e o senador Cleitinho, um curioso campeão de votos, vivem uma história de gato e rato que tem impacto na candidatura de Flávio num estado-chave e, portanto, reflexos na própria eleição presidencial
O partido correu atrás do senador durante meses, para que fosse candidato ao governo do estado e dar palanque para Flávio, mas ele sempre rejeitou. Quando mudou de ideia e correu atrás do partido, aí foi o Republicanos que desdenhou. A birra pesou mais do que a campanha de Flávio?
COMPROMETIMENTO – “Neutralidade”, no caso do Centrão, ou direitão, tem um significado claro no dicionário da política: não se comprometer com Flávio, deixar as portas abertas para o favorito Lula, liberar partidos nos Estados para fazerem o que bem quiserem e aguardar as urnas para negociar, bem e caro, o apoio ao eleito no Congresso.
Se o Centrão pulou fora do barco de Flávio, pulou inteiro no de Tarcísio de Freitas em São Paulo, congestionado com doze siglas. O princípio é o mesmo que rege o bloco e a carreira política de Ciro Nogueira: não importa quem, nem o passado e o presente, só o futuro e a perspectiva de “retorno” – principalmente financeiro. Em bom português: quem dá mais. Lula ou Flávio?