Publicado em 13 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Renato Aroeira (Brasil247)
Eduardo Gonçalves
O Globo
Com duas propostas de delação rejeitadas e há cinco meses na prisão, o banqueiro Daniel Vorcaro determinou que sua equipe de defesa faça uma nova devassa em documentos para apresentar à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma terceira versão da colaboração.
O dono do Banco Master tem recebido advogados diariamente na cela de 65 metros quadrados que ocupa desde o fim de junho na Papudinha, em Brasília — antes ele estava na Superintendência da PF, também na capital federal. Vorcaro passa boa parte dos dias discutindo estratégias para convencer autoridades a aceitarem a delação.
ESPECIALISTAS – A banca reunida por Vorcaro tem especialistas nas áreas criminal, empresarial e financeira. O criminalista Daniel Bialski é a contratação mais recente e pediu uma audiência com o ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). Nessa nova tentativa de colaboração, a defesa de Vorcaro tenta desfazer a impressão das duas anteriores, quando investigadores viram pouca disposição em de fato ajudar nas investigações.
Para isso, a ordem de Vorcaro é buscar mensagens, e-mails, contratos e rastrear pen drives, HDs e telefones cujas íntegras ainda não tenham sido acessadas por policiais — oito celulares do banqueiro foram apreendidos em diferentes fases da Operação Compliance Zero. O objetivo é indicar provas que possam corroborar linhas de apuração já em andamento ou abrir novas frentes. Há na tática também um braço defensivo: segundo interlocutores, Vorcaro insiste que os fundos do Master não eram inflados por ativos podres, como sustenta a investigação, e quer comprovar essa tese.
MAIS TEMPO COM VORCARO – Bialski, que já defendeu a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), quer levar a Mendonça um pedido para que os advogados fiquem mais horas por dia com Vorcaro. A rotina na Papudinha prevê visitas diárias de uma hora de advogados e familiares no parlatório, o que na visão da defesa não é suficiente para a complexidade dos processos envolvendo Vorcaro.
Na terça-feira, Bialski disse à GloboNews que o banqueiro “quer falar e colaborar”. A intenção da defesa é destravar a tentativa de delação ainda neste mês, para minimizar a possibilidade de o caso sofrer influência do calendário eleitoral. “Por ora, seguimos esperando o deferimento de vistas de todos os inquéritos e cautelares para depois pensar na melhor linha de defesa”, afirmou Bialski ao O Globo.
Para construir essa saída jurídica, Vorcaro recebeu sete advogados diferentes nas últimas semanas. Além de Bialski e de Sérgio Leonardo, amigo do banqueiro e integrante da defesa desde o início do caso, passou pela Papudinha o advogado Cézar Bittencourt. O banqueiro avalia que é necessário construir uma relação menos turbulenta com o STF. Em maio, por exemplo, o criminalista José Luis Oliveira Lima, o Juca, deixou a defesa de Vorcaro após um desentendimento com Mendonça.
CONSELHEIRO – Nesse contexto, Bittencourt pode servir também como uma espécie de conselheiro sobre a relação com a Corte. Ele foi o responsável pela delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, uma das bases da denúncia que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro na Corte pela trama golpista
Integrantes do círculo próximo ao banqueiro dizem que ele está “hiperfocado” em responder às suspeitas que o colocam como chefe do esquema de fraudes financeiras e demonstra abatimento e desconfiança com a decisão da PF e PGR em não querer ouvi-lo.
PROPOSTAS REJEITAS – Integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República rejeitaram duas propostas de delação feitas pelos advogados de Vorcaro — a primeira encampada por Juca, e a segunda, por Sergio Leonardo — sob o argumento de que elas não traziam novos elementos de provas.
Segundo a percepção dos investigadores, o banqueiro não estaria disposto a cooperar e teria poucas condições de corroborar os seus relatos com documentos, pois já não tem o controle do Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Além disso, eles também avaliaram que os anexos entregues não apresentam fatos suficientemente inéditos.
DIREITO A TELEVISOR – Instalado em uma das oito celas de 65 metros da Papudinha, ganhou um direito que ele não tinha na Superintendência da Polícia Federal: um televisor com acesso aos canais abertos, já que o aparelho não pode ter conexão com a internet. No alojamento, ele tem acesso a banheiro com box, chuveiro, cozinha, lavanderia, quarto e sala. Ele está há 48 dias no local.
Uma das preocupações do banqueiro é a possibilidade de Bolsonaro perder o direito da prisão domiciliar, o que poderia fazer com que o ex-mandatário voltasse a ocupar a cela onde hoje o Vorcaro está. No mês passado, o ministro do STF Alexandre de Moraes considerou que Bolsonaro descumpriu medidas cautelares impostas por ele, mas, no fim, manteve-o em casa. Com o reforço na equipe de advogados e tentando passar o recado que agora quer falar, Vorcaro ainda nutre esperança de obter uma prisão domiciliar do Supremo.