
A misoginia representa um retrocesso para a sociedade
Míriam Leitão
O Globo
A violência contra as mulheres na arena política, os insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exaspera quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas, de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato isolado. É o ronco de um projeto.
Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na reação cometem crimes.
“MENTES NAUFRAGADAS” – O cientista político Mark Lilla tem uma expressão tão eloquente que é inescapável para explicar o fenômeno do extremismo do pensamento reacionário: “mentes naufragadas”. Elas querem impor a volta do passado que idealizam e que era nefasto por excluir grande parte da sociedade: as mulheres, os negros, os indígenas, os que eles avaliam como “diferentes”. Mas os diferentes chegaram e se impõem.
A reação contra o novo é comum na História e faz com que antigos imigrantes reajam contra novos imigrantes. Um fenômeno já conhecido pelos estudos sociais. A questão agora é de outra natureza. Há riscos concretos de retrocesso. Eles, os seres do passado, se organizaram, se alavancam nas redes sociais, sem limites e regulação, criam núcleos, agem de forma coordenada, cometem crimes seriais. Quem vê um insulto isolado, como coisa de um indivíduo abjeto, não vê a cena política inteira em que o avanço civilizatório está em perigo.
O impensável aparece a cada dia. Recentemente comentei aqui os movimentos pelo fim do voto da mulher. Pareceria só uma esquisitice tempos atrás, hoje é ameaça real. A ideia em si de um voto por família, com o homem da casa escolhendo por todos, é uma proposta que atinge o coração da democracia e da autonomia das pessoas.
COMENDO PELAS BORDAS – Os jovens então teriam seus votos suprimidos já que pertencem ao núcleo familiar? A estratégia é ir comendo os direitos pelas bordas. Há uma versão mitigada desse absurdo tendo adeptos, a de propor voto facultativo para as mulheres. E há quem até, em nome da liberdade, diga que isso é bom. O voto permaneceria sendo obrigatório para os homens. Não é uma proposta inocente. É o começo da revogação das vitórias que as sufragistas colheram há um século.
A virulência dos ataques que já caíram sobre tantas colegas da imprensa tem um propósito. Não há sofisticação alguma na estratégia. É o uso da força bruta para calar as mulheres. O recurso às imagens sexuais como parte da infâmia também não é ocasional. Integra a estratégia dos ataques.
Elas são sempre as vítimas da violência sexual nas guerras de submissão. Foi essa também uma das formas de tortura durante a ditadura militar no Brasil. Os estupros digitais se normalizam na sociedade hiperconectada de agora. E não vai adiantar, para os mais sensíveis e cansados, saírem das redes. Seria deixá-los vencer nesta arena.
EVIDÊNCIAS – Este é um momento de extremo perigo para quem tem um outro sonho feliz de sociedade. Para quem acredita que vitórias se acumulam levando a novas vitórias. É inevitável render-se às evidências. Há um movimento sinistro que avança, disposto a revogar o conquistado, anular progressos e usar todas as armas espúrias e deletérias para alcançar seus propósitos.
A minha geração é sonhadora. Sonhamos com o fim da ditadura e vimos o amanhecer. Marchamos com as mulheres e avançamos. Invadimos espaços fechados e abrimos as janelas para renovar o ar. Decidimos quebrar barreiras entre grupos sociais e muitas vezes foi difícil nos entendermos, mas o diálogo foi curativo.
Encaramos fraturas cristalizadas na História do país e pensamos em políticas para superá-las. Admiramos alguns frutos brotando nas árvores que plantamos. Mas nunca foi fácil. Pagamos um preço alto para sobreviver ao tempo mais sombrio. Por isso, não podemos deixar de avisar aos mais jovens que o inimigo está ativo, avança, tem planos e métodos.
Cúpula militar brasileira descarta operações terrestres dos EUA contra narcotráfico no Brasil
Militares brasileiros vêem limites para ação dos EUA
Bela Megale
O Globo
A cúpula das Forças Armadas brasileiras não acredita que os planos dos Estados Unidos de realizar operações terrestres na América Latina para combater narcotraficantes irão atingir o Brasil. Integrantes das Forças Armadas que mantêm contato constante com seus pares norte-americanos avaliam que é improvável que ações diretas sejam realizadas em solo brasileiro.
Para esses militares, qualquer intervenção dos EUA no território nacional dependeria da cooperação das instituições brasileiras, especialmente do Exército, que possui atuação mais presente ao longo dos quase 17 mil quilômetros de fronteira terrestre que o Brasil compartilha com 10 países sul-americanos.
COMPLEXIDADE DA FRONTEIRA – A avaliação é que os EUA sabem que o Brasil não é um grande produtor de drogas, mas sim um consumidor e um importante entreposto comercial para o tráfico. Além disso, a extensão e a complexidade da fronteira brasileira são vistas como um grande desafio para ações terrestres na região.
Para comparação, destacam os militares, os Estados Unidos enfrentam dificuldades em sua fronteira de pouco mais de 3 mil quilômetros com o México, palco já conhecido de dificuldades operacionais contra o narcotráfico.
Em visita ao Panamá, chefe do Pentágono, Pete Hegseth, disse que os EUA planejam atacar “em terra” narcotraficantes na América Latina, como já fazem em águas internacionais contra supostas embarcações que atuariam no contrabando de drogas.