Publicado em 21 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet
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Estrangeiros retiram R$ 15,6 bilhões da Bolsa em agosto
Pedro do Coutto
A saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira é mais do que um movimento de mercado. É um termômetro da incerteza que começa a cercar a eleição presidencial de 2026. Investidores não precisam declarar voto. Quando reduzem posições, porém, fazem uma escolha econômica: preferem esperar até que o quadro político e fiscal fique mais claro antes de colocar dinheiro em ativos brasileiros.
Em agosto, a retirada de recursos estrangeiros da B3 já alcançava R$ 15,63 bilhões até o dia 18, o maior volume mensal de saída desde janeiro de 2022. O movimento ocorre depois de um primeiro trimestre excepcionalmente positivo, quando os estrangeiros haviam colocado mais de R$ 53 bilhões na Bolsa.
GRAU DE CONVICÇÃO – É preciso evitar uma leitura simplista: não se trata de dizer que o capital internacional “abandonou o Brasil”. O comportamento dos fluxos mostra que o investidor continua interessado no país quando enxerga uma relação aceitável entre risco e retorno. O que mudou foi o grau de convicção. E, nos mercados, a perda de convicção pode ser tão importante quanto uma deterioração objetiva dos indicadores.
A Bolsa entrou no segundo semestre submetida a uma combinação pouco confortável: juros elevados, sinais de desaceleração da economia, dúvidas sobre crédito e inadimplência, ambiente internacional menos favorável e, sobretudo, incertezas em torno das eleições. Entre 3 e 12 de agosto, as empresas listadas na B3 perderam cerca de R$ 279 bilhões em valor de mercado. O Ibovespa acumulou uma sequência de pregões negativos, enquanto o dólar avançava.
A questão fiscal aparece no centro dessa equação. Não porque o mercado espere necessariamente uma catástrofe, mas porque ainda não consegue enxergar com nitidez qual será a política econômica do próximo governo. O problema é a dificuldade de transformar discursos eleitorais em números verificáveis: quanto será gasto, de onde virá o dinheiro, qual será a trajetória da dívida e quais despesas serão efetivamente controladas.
DÉFICIT PRIMÁRIO – Os números oficiais ajudam a explicar a apreensão. O Tesouro Nacional informou que o Governo Central registrou déficit primário de R$ 48,2 bilhões em junho de 2026, acima dos R$ 44,2 bilhões do mesmo mês do ano anterior. A despesa cresceu em ritmo superior ao da receita líquida.
O Banco Central, no Relatório Focus de 31 de julho, mostrava expectativa de resultado primário negativo de 0,50% do PIB em 2026 e de 0,40% em 2027. Para a dívida líquida do setor público, a mediana das projeções apontava 69,9% do PIB neste ano, 73,4% em 2027 e 76,4% em 2028.
É nesse ponto que a política entra diretamente no preço dos ativos. O investidor não olha apenas para o resultado fiscal de hoje. Tenta antecipar o comportamento do governo de amanhã. Se não consegue compreender a combinação entre arrecadação, despesas, investimentos, programas sociais e regras fiscais, exige mais prêmio para assumir o risco brasileiro. Ou simplesmente procura outro mercado.
RESPOSTA – E há uma ironia importante. A fuga de capital não significa que os investidores tenham escolhido um candidato de oposição ao governo Lula. Tampouco significa que estejam convencidos de que uma mudança de governo resolverá automaticamente o problema fiscal. O que os números indicam é algo mais incômodo: o mercado ainda não recebeu dos principais atores políticos uma resposta suficientemente convincente sobre como as contas públicas serão estabilizadas.
Isso coloca o governo Lula diante de uma cobrança específica. A continuidade da atual política econômica precisa ser acompanhada de maior clareza sobre a trajetória das despesas, da dívida e do resultado primário. Não basta afirmar que a economia cresce, que a arrecadação aumenta ou que determinadas metas estão formalmente preservadas. O investidor quer saber se a combinação de receitas e gastos é sustentável.
Mas seria igualmente equivocado transformar a saída dos estrangeiros numa espécie de certificado de incompetência fiscal exclusivamente do governo. A incerteza eleitoral é mais ampla. Os investidores ainda desconhecem, em detalhes, o programa econômico que prevalecerá depois da eleição. E propostas que prometem redução de impostos, aumento de despesas, benefícios ou investimentos públicos precisam responder à pergunta mais simples — e mais difícil — da política econômica: quem paga a conta? Essa indefinição tem preço.
EXPECTATIVAS – O mercado financeiro trabalha com expectativas. Quanto maior a distância entre aquilo que os candidatos prometem e aquilo que os investidores conseguem calcular, maior tende a ser a volatilidade. A Folha de S.Paulo já apontou que propostas com impacto direto nas contas públicas estão entre os fatores capazes de provocar movimentos relevantes no câmbio e nos ativos brasileiros.
Também é importante colocar o movimento em perspectiva. O capital estrangeiro entrou com força no Brasil no início de 2026. Em janeiro e fevereiro, as entradas líquidas chegaram a R$ 42,56 bilhões. No primeiro semestre, o saldo ainda permaneceu positivo, apesar da reversão ocorrida no segundo trimestre. Ou seja: o estrangeiro não está dizendo que o Brasil deixou de ser interessante. Está dizendo que, diante do novo cenário, o risco passou a exigir mais cautela.
Essa distinção é fundamental para impedir que a política transforme um indicador econômico complexo numa arma eleitoral simplista. Se alguém afirmar que “o mercado rejeitou Lula”, estará reduzindo excessivamente o fenômeno. Se outro lado disser que tudo se resume a uma tentativa de pressionar o governo, cometerá erro semelhante. Há fatores internacionais, juros americanos, decisões de grandes bancos e condições específicas das empresas brasileiras envolvidos na equação.
SEM EXPLICAÇÃO – O que a Bolsa está revelando, portanto, não é o resultado da eleição. É a ansiedade diante do que ainda não foi explicado. O dinheiro estrangeiro pode voltar rapidamente — e já mostrou isso em 2026. Mas voltará com maior convicção quando houver menos espaço para dúvidas sobre o futuro das contas públicas. Isso vale para Lula e para qualquer candidato que pretenda ocupar o Palácio do Planalto.
A eleição pode ser decidida pelo voto. O preço do risco brasileiro, porém, será decidido pela credibilidade das escolhas que vierem depois dele. E talvez essa seja a principal mensagem escondida na fuga recente de capital: antes de escolher quem governará o Brasil, os investidores querem saber como o próximo governo pretende pagar pelo Brasil que promete entregar.