Ex-comandante da FAB chama de ‘leviandade’ fala de Flávio Bolsonaro sobre suposto apoio a Lula
Senador fez declaração durante sabatina da Globo na última sexta-feira, 28
Por Estadão
30/08/2026 às 08:20
Foto: Divulgação/FAB/Arquivo
O tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB)
O tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), reagiu no sábado, 29, à declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, de que ele estaria pedindo votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em publicação no X (antigo Twitter), Baptista chamou a afirmação de “leviandade” e disse que o comentário foi uma forma de o candidato fugir de uma pergunta feita durante a sabatina da Globo, na última sexta-feira, 28.
Flávio havia sido questionado sobre os depoimentos de ex-comandantes das Forças Armadas a respeito da tentativa de ruptura institucional no fim do governo Jair Bolsonaro. Entre eles está Baptista Junior, que comandava a Aeronáutica na época e relatou ao Supremo Tribunal Federal (STF) ter resistido às pressões para que os militares aderissem ao plano.
Ao ser questionado sobre os relatos, Flávio afirmou que Baptista estaria fazendo campanha para Lula. O ex-comandante negou a afirmação e disse que ela foi usada para desviar o foco da questão colocada ao candidato.
“A leviandade de dizer que faço campanha para a reeleição do presidente Lula, apresentada para não abordar a verdadeira pergunta colocada no debate de ontem, na Globo, é antes de tudo uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la — algo entendido na figura de filho, mas não de alguém que se proponha a nos presidir”, escreveu Baptista.
O ex-comandante também sugeriu que Flávio aguardasse o lançamento de seu livro “Eu Disse Não! Uma trincheira antigolpista”, antes de fazer novas afirmações sobre sua atuação naquele período. A obra, publicada pela Autêntica Editora, narra os bastidores da crise institucional no fim do governo Bolsonaro e as pressões enfrentadas pelos militares diante da tentativa de ruptura.
“Talvez seja prudente aguardar, ler o livro e refletir, antes de outra entrevista”, escreveu.
Baptista ainda dirigiu uma provocação ao coordenador-geral da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN). “Sugiro não incorporar o espírito do nosso querido Zagallo, exigindo agressivamente que ‘a tal direita consentida vai ter que nos engolir’”, concluiu.
O que Baptista relatou ao STF
Baptista Junior comandava a Aeronáutica no fim do governo Bolsonaro e foi um dos militares que resistiram às pressões para que as Forças Armadas aderissem a uma ruptura institucional após a derrota do então presidente nas eleições de 2022.
Em depoimento ao STF, o ex-comandante descreveu reuniões realizadas nos últimos meses do governo nas quais, segundo seu relato, foram discutidas medidas de exceção e uma minuta com propostas para impedir a posse de Lula.
Baptista afirmou que se recusou a receber uma cópia do documento. Também relatou que o general Marco Antônio Freire Gomes, então comandante do Exército, advertiu Bolsonaro de que poderia ser preso caso insistisse em uma tentativa de golpe.
O militar afirmou ainda que o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, colocou tropas da Força à disposição do plano.
Os relatos dos militares foram incluídos na Ação Penal 2668, no STF, que julgou integrantes do núcleo central da tentativa de golpe. Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão. O julgamento foi concluído em setembro de 2025.
Livro reúne bastidores da crise
No livro “Eu Disse Não! Uma trincheira antigolpista”, Baptista narra em primeira pessoa sua experiência durante aquele período e as pressões para que integrantes das Forças Armadas aderissem a uma ruptura institucional.
A obra descreve três momentos em que, segundo o ex-comandante, a tentativa de golpe acabou frustrada e detalha encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que foram discutidas medidas de exceção e os termos da minuta golpista.
O livro, publicado pela Autêntica Editora, chega às livrarias em setembro. É apresentado como o primeiro relato em primeira pessoa de um integrante da alta cúpula militar daquele período sobre os bastidores da crise.
Baptista ingressou na FAB em 1975 e acumulou mais de 4,5 mil horas de voo como piloto de caça. Chegou ao comando da Aeronáutica em abril de 2021 e permaneceu no cargo até janeiro de 2023.
O DEVER DE CHECAR E CONTRADIZER: Por que o Jornalismo Não Pode Apenas Assistir Passivo à Desinformação na TV
Por José Montalvão
As entrevistas com os candidatos à Presidência da República no Jornal Nacional e em outros grandes veículos de comunicação de massa são momentos cruciais para a consolidação do processo democrático. Em um país continental como o Brasil, o horário nobre da televisão é o espaço por excelência em que o eleitor busca subsídios e informações para formar seu juízo de valor e definir o rumo do país no dia da votação.
Contudo, para que uma sabatina eleitoral seja verdadeiramente justa, transparente e esclarecedora, a postura do entrevistador precisa ir além do simples papel de cronômetro ou leitor de pautas prefixadas. O jornalista investido da função de sabatinar pretensos chefes de Estado carrega um dever social irrenunciável: o de desmentir dados falsos, rebater distorções flagrantes e interromper discursos embasados em desinformação de forma imediata.
O Perigo da Passividade e o Uso do Espaço Público
Permitir que um candidato utilize uma concessão pública de rádio e televisão para disseminar narrativas sem respaldo técnico ou fatos comprovadamente inverídicos, sem o devido confronto direto, transforma o jornalismo em um reprodutor passivo de propaganda e mentiras.
A maioria esmagadora da população brasileira não dispõe de tempo, recursos ou ferramentas de checagem para verificar por conta própria, em tempo real, a veracidade dos dados econômicos, dados de saúde pública, indicadores sociais ou promessas mirabolantes proferidas ao vivo.
Quando o entrevistador se omite em nome de uma suposta "neutralidade" ou pelo simples cumprimento mecânico do tempo, ocorrem três danos imediatos ao processo eleitoral:
A Indução do Eleitor ao Erro: A afirmação falsa não rebatida ganha ares de verdade perante o público, distorcendo a percepção sobre a real situação do país;
A Desigualdade na Disputa: Candidatos compromissados com fatos e propostas viáveis acabam prejudicados frente àqueles que recorrem ao sensacionalismo e a slogans sem embasamento técnico;
A Desvalorização da Imprensa: A função do jornalista é mediar a verdade, servindo como filtro e checador entre o poder público e a sociedade. Onde não há contraditório, o jornalismo perde sua razão de existir.
Fact-Checking em Tempo Real: O Caminho para Sabatinas Reais
Sabatina não é palanque. O confronto com dados oficiais e o contraditório firme não representam falta de respeito ou parcialidade; ao contrário, constituem a mais pura aplicação da ética e do dever profissional.
Grandes veículos de imprensa internacionais e as redes modernas de comunicação já utilizam centrais integradas de fact-checking (checagem de fatos) em tempo real. Se o entrevistado apresenta um indicador econômico adulterado ou distorce conceitos científicos e legais para enganar o espectador, o apresentador tem a obrigação de corrigir o dado na hora ou expor a contradição antes do término do bloco.
Conclusão: Respeito à Sociedade e à Democracia
A democracia não se fortalece com a conivência diante da desinformação, mas sim com o debate franco, técnico e rigoroso. O eleitor brasileiro merece ser tratado com respeito.
Exigir que os entrevistadores atuem com firmeza, rebatendo mentiras e cobrando coerência e embasamento técnico dos postulantes ao cargo máximo da República, é a única forma de garantir que a televisão cumpra o seu papel social de informar com responsabilidade, clareza e compromisso absoluto com a verdade!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: Defendendo o jornalismo ético, cobrando responsabilidade da imprensa e combatendo a desinformação na política!