segunda-feira, julho 27, 2026

Só um terço das falas de políticos checadas se mostram verdadeiras, diz estudo da Lupa

 

Só um terço das falas de políticos checadas se mostram verdadeiras, diz estudo da Lupa

Por Andrei Ribeiro/Folhapress

27/07/2026 às 09:07

Foto: Kayo Magalhães/Arquivo/Câmara dos Deputados

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Plenário da Câmara

Somente um terço (34%) das declarações feitas por políticos nos últimos cinco ciclos eleitorais —e que foram checadas— eram totalmente verdadeiras. As demais continham algum tipo de exagero, omissão ou falsidade. A constatação faz parte do relatório "Anatomia da Desinformação Eleitoral — Como a Mentira e os Boatos Políticos Evoluíram no Brasil entre 2016 e 2026", divulgado pela Agência Lupa nesta segunda-feira (27).

O dado reflete, segundo o estudo, uma sofisticação nas estratégias de desinformação em campanhas: em vez de recorrer à mentira explícita, cresce a manipulação de fatos e conteúdos verdadeiros, a chamada má informação.

"São cada vez mais frequentes omissões intencionais, exageros, recortes seletivos, comparações inadequadas e disputas de contexto", diz o relatório. "Em vez de inventar fatos, o discurso político passou a manipular informações verdadeiras ou a costurá-las de forma distorcida para produzir interpretações enganosas."

O fenômeno não se restringe a um espectro político, garantem os pesquisadores, que analisaram 3.080 declarações de 237 atores políticos de 37 diferentes partidos a partir de 2016. Há uma maioria de candidatos à Presidência, aos governos estaduais e prefeituras entre os analisados, e seus discursos foram coletados de redes sociais, debates televisivos, propagandas eleitorais, sites, entre outras fontes.

A amostra não retrata todo o ecossistema de desinformação eleitoral no Brasil, apenas os conteúdos publicados na seção de "Eleições" do site da Lupa nos últimos cincos ciclos eleitorais (2016 a 2024). As frases selecionadas "estão condicionadas às escolhas editoriais, aos critérios de relevância jornalística e aos fluxos de recebimento e monitoramento da agência", diz o estudo.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem a maior proporção de falas falsas checadas pela Lupa (43,2%), em um ranking que considera apenas os políticos que tiveram, no mínimo, 30 frases analisadas pela agência. Logo abaixo está o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (38,9%) e o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella (36,2%).

Entre os nomes de esquerda e centro-esquerda, a ex-deputada federal Manuela d´Ávila (PSOL) aparece em 6º, com 29%, e o presidente Lula (PT) em 7º, com 1 em cada 4 declarações falsas (26%) —o que "derruba a hipótese comumente ventilada no Brasil de que só a direita desinforma", diz o levantamento.

Quando distorcem informações em público, o presidente Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro têm estilos diferentes, cada um com a sua própria linguagem e temas preferidos.

Enquanto Lula parece gostar de atribuir a si mesmo a autoria ou o pioneirismo de políticas públicas e marcos institucionais que nem sempre tiveram origem em seus governos, Bolsonaro costumava declarar falsidades, principalmente, quando usava números e estatísticas ou fazia afirmações categóricas sobre sua gestão e a de adversários.

Entre os exemplos citados está uma declaração feita no debate da TV Globo em 2022, quando Bolsonaro afirmou que "nenhum país do mundo comprou vacina em 2020". Segundo a Lupa, ao menos 50 países já haviam iniciado a vacinação contra a Covid naquele ano.

De Lula, o levantamento dá como exemplo fala em um debate de 2022 no qual ele afirma que o menor índice de desmatamento ocorreu em seu governo, marca registrada na verdade pelo governo Dilma em 2012.

Em relação aos boatos virais, histórias que se espalham sem autores conhecidos, a mentira evidente continua sendo predominante, de acordo com a pesquisa. O que mudou nesse universo, porém, foi o alvo.

Os conteúdos enganosos deixaram de focar candidatos, partidos e propostas e passaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro. Dos 286 conteúdos virais verificados desde 2016, 209 (73%) procuravam desacreditar urnas eletrônicas, votação, apuração, resultados eleitorais ou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os Tribunais Regionais Eleitorais (TRE).

"Essas duas dinâmicas se complementam", afirma o estudo. "De um lado, atores políticos de grande visibilidade difundem distorções cada vez mais elaboradas e difíceis de desmontar. De outro, redes anônimas ou descentralizadas alimentam narrativas que buscam enfraquecer a confiança nas instituições eleitorais."

O levantamento aponta ainda que o Facebook deixou de ser a principal plataforma de difusão de boatos eleitorais anônimos. Em 2018, a rede da Meta respondia por 76,5% das verificações realizadas pela agência. Em 2022, o aplicativo de mensagens WhatsApp já estava presente em 92,4% dos casos e, em 2024, representava 100%. Ou seja, toda verificação daquele ano tinha o mensageiro como um dos canais de circulação identificados.

O cenário preocupa os pesquisadores pois indica que a desinformação migrou de redes abertas como o Facebook para ambientes mais fechados, menos transparentes e mais difíceis de monitorar, como o WhatsApp.

A agência alerta ainda para o impacto do avanço da inteligência artificial nas próximas eleições. Os conteúdos sintéticos gerados com a tecnologia aparecem de forma discreta no relatório até 2024, mas os pesquisadores afirmam que as ferramentas deverão ampliar significativamente o alcance e a sofisticação das campanhas de desinformação eleitoral a partir do pleito de 2026.

Em resposta a esse cenário, o TSE passou a exigir a identificação de conteúdos produzidos com IA, proibiu que sistemas do tipo recomendem ou priorizem candidatos e restringiu a publicação de material sintético nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores à votação. A agência declara que é cedo para saber se essas medidas serão suficientes.

A Lupa é uma agência de checagem de fatos que produz verificações de declarações públicas e pesquisas sobre desinformação desde 2015. Integra a International Fact-Checking Network (IFCN), rede que reúne organizações de verificação de diversos países.

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