quinta-feira, fevereiro 23, 2023

Não haverá bondade sem maldade




Imposto menor para alguns elevará a carga dos demais

Por Lu Aiko Otta (foto)

Os primeiros passos da reforma tributária neste ano indicam que sua aprovação não será tão célere quanto espera o governo. O Executivo fala em votação no primeiro semestre. Porém, o grupo de trabalho criado na Câmara para analisar a proposta tem prazo até o início de maio para produzir um relatório.

Em seguida, o texto passará pelo Senado, que desejará fazer uma avaliação criteriosa. Do ponto de vista de quem tem pressa, o ideal seria alguns senadores acompanharem o debate na Câmara, para ganhar tempo. Esse esquema funcionou bem na reforma da Previdência.

Estão sobre a mesa duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs), a 45 e a 110. Em comum, elas fundem os tributos sobre o consumo para criar um imposto sobre valor agregado. De diferente, a PEC 45 propõe que a fusão resulte num só imposto sobre bens e serviços, enquanto a PEC 110 propõe um novo tributo dual: uma parte a cargo da União, e outra, dos Estados e municípios.

Uma vantagem da reforma é simplificar o sistema. Por exemplo, com a uniformização de 27 regras diferentes que hoje regem o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Outra, acabar com a guerra fiscal. Ou ainda, permitir que as empresas deduzam totalmente, a cada etapa de produção, os impostos que pagaram na etapa anterior, acabando com o pesadelo que existe hoje. Assim, a reforma pretende simplificar a vida das empresas e reduzir seus custos de conformidade. É esperado impacto positivo nas decisões de negócio e no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Os benefícios são muitos, mas a reforma tributária aguarda aprovação há mais de 30 anos. Não é por acaso.

Olhando no detalhe, a simplificação pretendida na reforma tromba de frente com uma constelação de especificidades e pressões políticas. Ao longo dos anos, essas forças criaram esse monstrengo que temos hoje e barraram as tentativas de reforma. O roteiro ameaça se repetir.

O grupo de trabalho da Câmara tem três deputados do Amazonas. A Zona Franca de Manaus é potencialmente prejudicada com a reforma, pois os tributos que não são cobrados lá (mas o são no restante do país) deixarão de existir. Assim, deixa de existir o que é hoje um atrativo suficientemente grande para levar indústrias a se instalarem num local distante dos centros de consumo e com logística cara.

Além do fim do IPI, está previsto o fim do PIS/Cofins, uma belezinha cujo funcionamento é regulado por um catatau de 811 artigos. Diz a lenda que ninguém na Receita Federal sabe tudo sobre ele. Hoje, há 38 programas por meio dos quais setores específicos pagam menos ou não pagam o PIS, e outros 43, o Cofins. Juntos, eles retiram dos cofres públicos R$ 130 bilhões.

Em teoria, o fim do PIS/Cofins acabará com todos eles. Porém, não se espera uma rebelião generalizada dos setores hoje beneficiados. Isso porque os regimes especiais foram criados para contornar o problema da cumulatividade. Que, em tese, será resolvido pela reforma.

Assim, pelo menos na teoria, o fim dos benefícios não resultará em aumento da carga tributária. As empresas pagarão o mesmo.

Da mesma forma como a Zona Franca pressionará por um tratamento especial na reforma, outros grupos farão o mesmo. O setor de serviços é um deles. A PEC 45 diz que empresas dos setores de saúde e educação terão 12 anos de tratamento diferenciado, a ser detalhado em lei. Ninguém duvida que a lista aumentará, com itens de maior ou menor mérito, limitando a simplificação pretendida. É o preço que está posto para a aprovação da reforma.

Há, porém, um limite nessa construção. A reforma tem de ser neutra, ou seja, tem de garantir que a arrecadação após sua aprovação continue nos mesmos níveis de hoje. Assim, se algum setor for beneficiado com recolhimentos menores, todo o conjunto restante terá de bancar essa diferença. Como se diz no Executivo: não haverá bondade sem maldade.

Quanto mais exceções houver, maior será a alíquota geral do novo tributo sobre o consumo que se pretende criar. Sem tratamentos diferenciados, a alíquota seria de 25% para todos. Com tratamentos diferenciados, poderá ficar maior.

O tamanho da alíquota era visto pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes como um problema político. Embora apenas reflita o que já pagamos hoje sem nos darmos conta, é um número elevado que pode perfeitamente ser explorado pela oposição à proposta.

No governo anterior, a reforma tributária tinha a seu favor um inédito consenso dos governadores em torno de uma proposta elaborada pelo Comitê de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz) e apresentada como emenda às duas PECs. Esse texto foi incorporado à PEC 110.

No entanto, dado que está em construção um novo relatório, com parte das duas PECs, o apoio será reavaliado, disse a esta coluna o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que no governo passado presidia o Comsefaz.

Ele acha que não haverá unanimidade em torno da proposta. Ainda assim, está otimista quanto à aprovação, dada sua importância econômica. E também porque, desta vez, a reforma é apoiada pelo presidente da República.

São Paulo quer protagonismo nessa discussão, segundo se informa no entorno do governador, Tarcísio de Freitas. Acusado nos bastidores de ter trabalhado contra a reforma tributária no ano passado, Guedes deve ser conselheiro no Palácio dos Bandeirantes.

Não são poucos os obstáculos à frente. Porém, além de seus inegáveis impactos econômicos, a aprovação da reforma tributária ajudaria a desanuviar a percepção sobre a economia brasileira. Acredita-se no governo que o clima hoje é pior do que as condições objetivas determinariam.

Os ruídos em torno da política monetária, ainda não superados, provocaram uma sensação de crise. Seria o contrário se o governo tivesse centrado fogo nas duas prioridades que escolheu: reforma tributária e arcabouço fiscal. A ver se o Carnaval contribuiu para recalcular a rota.

Valor Econômico

Em destaque

Flávio usa imagens do governo Bolsonaro para atacar Lula sobre miséria

Publicado em 13 de abril de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Senador atribuiu imagens à notícia veiculada este a...

Mais visitadas