Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Que o ex-presidente Fernando Henrique bateria palmas efusivas, não se duvidava. Ele sempre defendeu a extinção dos direitos trabalhistas, sob o eufemismo da "flexibilização". Surpresa, mesmo, foi assistir ao ministro da Justiça, Tarso Genro, sustentar a retirada dos direitos trabalhistas do texto da Constituição e, pior ainda, acentuar que a lei não deveria cuidar das prerrogativas do assalariado. Em suas palavras no plenário da Confederação Nacional da Indústria, esta semana, os direitos trabalhistas deveriam resultar de entendimento entre patrões e empregados, através de contratos coletivos.
Para um petista histórico seria um sacrilégio, não fossem os pecados há seis anos cometidos pela imensa maioria dos companheiros, transformados quase todos em neoliberais. Será que Tarso Genro esqueceu as fábulas ouvidas em seus tempos de criança, com ênfase para a história do lobo e do cordeiro? Defende a livre negociação entre a guilhotina e o pescoço, precisamente o que já acontece desde a supressão (perdão, flexibilização) de montes de direitos trabalhistas durante o consulado do sociólogo.
O pior é que ninguém mais fica indignado, todos se acomodam diante da metamorfose verificada no PT por conta do uso do poder. O silêncio é absoluto, por parte das centrais sindicais, CUT à frente. Na Câmara dos Deputados, protestou apenas Vanessa Grazziotin, do PC do B.
O ministro, em sua palestra, alegou a existência de "novas formas de trabalho", justificando para elas a ausência das garantias uma vez estabelecida por Getúlio Vargas. Convenhamos, só falta mesmo recriar a mecânica do "trabalho sem salário", coisa que nos faria clamar pela presença da princesa Isabel entre nós.
Não vem que não tem
Através de interlocutores especiais, o ministro Hélio Costa tem sinalizado para o governador Aécio Neves que se por hipótese ingressar no PMDB deverá contentar-se com uma candidatura ao Senado, já que o partido marchará com a indicação a ser feita pelo presidente Lula. Mais ainda, o titular das Comunicações deixa claro que qualquer acordo em torno do Palácio da Liberdade, em 2010, parte da premissa de sua candidatura, irreversível e inarredável.
Não podode ser verdade
Atribuiu-se ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, o comentário de que os comandantes das Forças Armadas não tolerariam a indicação de um determinado cidadão para ministro do Tribunal de Contas da União.
Não pode ser verdade. Primeiro porque o ministro da Defesa não possui qualquer ingerência sobre o TCU, órgão auxiliar do Congresso Nacional. Depois, porque os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica há décadas vêm mantendo conduta exemplar, dissociados por completo de questões políticas. Voltados para suas atribuições constitucionais, em momento algum admitiriam interferir em qualquer setor da administração. Não pode ser verdade, mesmo.
Águas evaporadas
A passo de tartaruga, arrastam-se as obras do desvio das águas do rio São Francisco. Mesmo sem a crise econômica, do jeito que as coisas andam, apenas no próximo século um braço do Velho Chico chegaria ao Rio Grande do Norte e outros estados do Nordeste.
Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional, garante que os cronogramas vêm sendo cumpridos, mas essa é sua obrigação, mais como ministro, menos como baiano, pois seu estado natal rejeita o desvio, preferindo as igualmente vagarosas obras de revitalização do rio.
Melhor faria o presidente Lula se anunciasse o adiamento do projeto, pois se arrisca a não cumprir a promessa de encerrar seu segundo mandato com o São Francisco irrigando por completo a região nordestina. Porque será cobrado, quando acirrar-se a campanha sucessória. Ele e, quem sabe, a ministra Dilma Rousseff, por coincidência a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento.
Tião não recua
Decisão tomada pelo senador Tião Viana: levar até o fim sua candidatura à presidência do Senado. Com apoio velado ou ostensivo do presidente Lula, ou sem nenhum apoio, disputará a sucessão de Garibaldi Alves. Em função disso, tem conversado muito com os colegas, freqüentando o plenário mesmo quando o senador Mão Santa discursa apenas para os funcionários.
Tudo depende, agora, do senador José Sarney. Se aceitar sua candidatura, Tião Viana não terá chances. Mas se cumprir a determinação anunciada até agora, de não ser candidato, assistirá até mesmo senadores do PMDB votando no petista. Porque qualquer outro nome do PMDB rachará a bancada.
Enquanto isso o presidente Lula oscila entre participar ou lavar as mãos. Esta semana declarou preferir "ficar no seu cantinho", ou seja, no Palácio do Planalto, deixando a questão para deputados e senadores. Chegou a reconhecer que o PMDB tem o direito de ocupar as presidências da Câmara e do Senado, por dispor da maioria nas duas casas.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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