quinta-feira, março 16, 2023

Caso das joias sauditas mostra que a Marinha agora tem um inevitável dever a cumprir


Bento Albuquerque: ex-ministro de escândalo das joias ganha R$ 34 mil no conselho de Itaipu

Bento Albuquerque manchou o nome da Marinha do Brasil

Marcelo Godoy
Estadão

Conta-se que, diante do inimigo, quando se aproximava do Riachuelo, o almirante Francisco Barroso transmitiu à frota uma mensagem: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Com esse espírito, Hélio Leôncio Martins, então capitão-tenente, subiu em um caça-ferro para proteger comboios no Atlântico Sul, na Segunda Guerra. Ali testemunhou um submarino do Eixo explodir um petroleiro na costa venezuelana.

Mais tarde, o almirante Leôncio foi o primeiro comandante do porta-aviões Minas Gerais. Era sincero nas respostas.

HERÓI DA MARINHA – Ao ser indagado sobre se a Marinha estava preparada para o conflito mundial, disse: “Zero… Pode pôr zero. Zero mesmo. Não sabíamos nada de defesa antissubmarina, não tínhamos arma, nem equipamentos”.

O caça-ferro Juruena, com o qual fez a guerra, só foi incorporado à Marinha em novembro de 1942, três meses após iniciado o conflito. E foi no mar que o Brasil sofreu as maiores baixas – 1,5 mil mortos –, embora a memória lembre mais da perda dos cerca de 600 pracinhas e aviadores na Itália.

“Cada passagem de comboio era uma vitória.” E Leôncio teve muitas. Morreu em 2016. Honrou cada sílaba da frase de Barroso.

UMA NOVA MISSÃO – A Marinha tem agora um novo dever a cumprir. Lidar com o papel de seus almirantes no governo de Jair Bolsonaro. Foi do comandante da Força, Almir Garnier, que surgiram duas extravagâncias: o desfile de carros de combate em Brasília, no dia da votação da PEC do Voto Impresso, e a ridícula recusa de transmitir o cargo ao almirante Marcos Olsen. Elas expuseram a politização na Marinha.

Já a revelação do caso das joias trazidas da Arábia Saudita para Bolsonaro e sua mulher, Michelle, por outro almirante – Bento Albuquerque – só atesta a degradação que o bolsonarismo impôs ao País. Em uma das andanças, Bento esbarrou em um fiscal que cumpria o seu dever.

PUNIÇÃO HONROSA – O pior foi que a voz do almirantado que se insurgiu contra a partidarização da Força Naval, o contra-almirante da reserva Antonio Nigro, foi punido com uma repreensão, em 2022. E isso em um governo que abafou o caso do general da ativa Pazuello. Se há punições que têm o valor de uma medalha, Nigro teve a sua.

Recentemente, ele escreveu: “Não me surpreende o fato de Bolsonaro ter incorporado ao seu acervo pessoal parte dos presentes. Nem tampouco o protagonismo de militares partidarizados na façanha de omitir o desvio das joias. Louvável a dignidade da conduta dos agentes de carreira da Receita. Exemplar a resistência deles contra investidas de autoridades de mais elevado nível hierárquico.”

Nigro tem razão. Sua fala não tem nada de ofensiva, só reconhece na conduta do fiscal o mesmo material que moveu Barroso e Leôncio: o cumprimento do dever.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Meu padrinho de casamento foi herói na Segunda Grande Guerra nas Marinhas dos EUA, Reino Unido e Brasil. Entrou no conflito num caça-pau americano (caça-submarino feito de madeira), no início da guerra. Náufrago duas vezes, em uma delas foi resgatado por um destroier inglês, onde ficou trabalhando na casa de máquinas. Depois, veio lutar na Marinha brasileira num caça-ferro comandado pelo capitão-tenente Hilton Berutti, que se tornou um almirante muito respeitado. Meu padrinho chamava-se Roberval Frutuoso Dantas. Recebeu uma medalha que poucos combatentes tiveram no mundo, por passar mais de 365 dias embarcado, sem pisar em terra, bebendo aquela horrível água do mar dessalinizada. Depois, foi submarinista. Quando se reformou na Marinha, voltou a embarcar na Fronape, frota da Petrobras. Tenho uma enorme saudade dele. Era um homem de verdade. (C.N.)


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