sexta-feira, março 24, 2023

Bacen desafia Lula, abala a sua autoridade e abre uma crise política no país


Campos Neto admitiu que poderá haver um novo aumento da Selic

Pedro do Coutto

O Banco Central ignorou a vontade do presidente Lula da Silva e manteve na reunião de quarta-feira a taxa Selic. Com essa decisão, tomada por unanimidade, abriu-se uma crise política de grandes proporções, ameaçando reflexos no mercado financeiro que, evidentemente, como é previsto, apoia a decisão liderada por Roberto Campos Neto.

A crise assim não se restringe à política monetária e financeira, mas se projeta sobre um universo muito mais amplo, sensibilizando fortemente a autoridade do presidente da República. A reportagem no O Globo é de Renan Monteiro, Alvaro Gribel, Manuel Ventura e João Sorima Neto. Na Folha de S. Paulo é de Natália Garcia e, no Estado de S. Paulo, de Célia Froufe e Eduardo Rodrigues. A matéria foi manchete principal dos grandes jornais do país.

NOVO AUMENTO – Roberto Campos Neto, inclusive, foi mais além da contestação. Admitiu que poderá haver um novo aumento da Selic, índice que incide sobre a dívida bruta brasileira, que é de R$ 6 trilhões. Como a taxa é anual, esse índice produz a cada 12 meses, se for mantida, é claro, uma despesa da ordem de R4 800 bilhões.

O presidente Lula ainda não se manifestou, mas certamente encontra-se revoltado não só pelo sentido da decisão, que contraria as suas diretrizes e o seu projeto social, mas também porque produz reflexo no universo político, abalando a sua autoridade. O ministro Fernando Haddad tentou suavizar o impacto, condicionando a orientação do Bacen às futuras decisões (referindo-se claramente à Selic), podendo inclusive comprometer o resultado fiscal.

“Daqui a pouco haverá problemas das empresas tanto para as suas vendas, quanto para o recolhimento dos impostos”, afirmou. A questão assim adquire uma dimensão que atinge em cheio, como um torpedo, tanto a autoridade quanto a solidez do governo Lula da Silva. As reações do Palácio do Planalto e dos ministros vão se fazer sentir e se projetar nos noticiários.

INVESTIDA – É claro que a decisão do BC vai diretamente ao encontro do que deseja o ex-presidente Jair Bolsonaro e os bolsonaristas até hoje revoltados com as derrotas nas urnas, que foram contestadas antes mesmo da computação dos votos. Ficou claro que a investida do Banco Central ajusta-se a um projeto voltado para abalar o poder do atual presidente da República e de seu governo como um todo.  

É necessário lembrar que o ex-ministro da Justiça Anderson Torres encontra-se preso por decisão do Supremo Tribunal Federal. E também é preciso não esquecer o grau de omissão das forças de Segurança no dia 8 de janeiro, com a invasão de Brasília pela extrema-direita bolsonarista. Uma sombra de preocupação desce sobre tanto o Palácio do Planalto, quanto sobre o Palácio Alvorada, colocando em risco as instituições democráticas.

RECUO – Ficou nítido o propósito de Campos Neto de confrontar o presidente Lula da Silva. Para evitar o efeito contrário a esse, bastaria que o BC, por exemplo, reduzisse minimamente a taxa Selic, recuando-a. Mas não. Campos Neto empenhou-se e votou pela manutenção dos 13,75% ao ano e foi além ao afirmar que poderia elevar ainda mais o índice Selic.

Haddad revelou que o governo fará chegar ao Bacen as suas preocupações e que as decisões futuras da autoridade monetária podem comprometer o ajuste fiscal. Afirmou que o governo divulgou dados concretos sobre a melhoria da trajetória fiscal. A posição do ministro Fernando Haddad, admitindo no fundo uma moderação entre a Fazenda e o BC, naturalmente vai encorajar nova ofensiva de Roberto Campos Neto em sua intenção de desafiar o chefe do Poder Executivo e realçar, com base no mercado das finanças, uma blindagem de aço à movimentação do próprio governo Lula em sentido contrário.

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