quarta-feira, fevereiro 08, 2023

O populismo reacionário de Bolsonaro




Acaba de ser publicada a mais recente análise do bolsonarismo: o livro de Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, intitulado 'O populismo reacionário: ascensão e legado do bolsonarismo'. 

Por João Pereira Coutinho 

(...) Os iliberais (ou, como Michael Oakeshott lhes chama, os anti-indivíduos) permanecem conosco até hoje, tentando recriar esse mundo perdido com várias roupagens coletivistas: a sociedade sem classes; a comunidade do "solo e do sangue"; integralismos de várias ordens; e até os novos identitarismos. Em comum, repito, está o ódio ao indivíduo e à modernidade que o gerou.

Os cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, autores de "O Populismo Reacionário" (Contracorrente, 209 págs.), sabem disso. O livro é uma notável explicação do fenômeno Bolsonaro, juntando no título dois conceitos-chave.

Por um lado, o populismo do capitão apenas copia os populismos seus contemporâneos, apresentando o líder como o verdadeiro representante do povo contra elites predatórias e corruptas.

Pela mesma lógica, o líder não pode aceitar a existência de instituições intermédias entre ele e as massas, razão pela qual o Judiciário ou a mídia são alvos óbvios da ira populista.

Como é evidente, essa conceituação do "povo" como entidade homogênea e pura é uma espécie de marxismo do avesso: também os marxistas olhavam para o "proletariado" como um monólito no qual projetavam suas fantasias e aspirações.

Que esse "proletariado" nunca tenha existido, tal como não existe "o povo" dos populistas, é uma evidência para qualquer pessoa que não tenha sido sequestrada pelo fanatismo político.

Por outro lado, o bolsonarismo transporta o gene reacionário que é típico do antiliberalismo de direita. Esse gene funciona em duas etapas: primeiro, é preciso identificar a doença; depois, é obrigatório ministrar a cura radical.

A doença é a modernidade como um todo: o individualismo; a secularização da sociedade; o pluralismo político; o pensamento científico; e a democracia representativa, tida como incapaz de dar voz à "vontade geral".

A cura, sem surpresas, é a pré-modernidade como um todo: a defesa da comunidade nacional como dotada de uma alma ou de uma missão; a recristianização da sociedade até nos seus detalhes mais privados e pessoais; o antipluralismo militante (a política é uma guerra entre "amigos" e "inimigos", como diria Carl Schmitt); a adoração do pensamento mítico ou do irracionalismo anticientífico; e a defesa de um líder carismático e autoritário, capaz de estabelecer uma relação direta entre ele e as massas. (...)

Folha de São Paulo

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