Vasconcelo Quadros
BRASÍLIA. Policial preparado na linha de frente do combate ao crime, o diretor do Departamento de Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, há dois meses no cargo, está colocando um ingrediente diferente nas mudanças que a corporação sofrerá nos próximos 15 anos: um choque de gestão para construir o que ele vem chamando de Polícia Federal de 2022. Durante os finais de semana e feriados, ele e os demais diretores que substituíram a equipe do delegado Paulo Lacerda - hoje diretor geral da Abin - têm se debruçado em longas discussões sobre as deficiências e a capacidade de uma polícia que cresceu no atacar a corrupção, mas que na realidade tem uma estrutura limitada para se consolidar como polícia de Estado e independente do humor de quem hierarquicamente a governa.
- A prospecção de cenários permite planejar nossa atuação e desenvolver ferramentas de gestão para reduzir improvisos - disse o diretor da PF.
Os debates, que levam o nome de Atualização de Cenários Prospectivos, já foram incorporados à rotina dos novos dirigentes e deles sairão as definições para, segundo Corrêa, aliar a produção de provas mais robustas contra criminosos à capacidade de se auto-gerir como instituição.
A mais interessante conseqüência dessa meta, uma vez cumprida, será a autonomia administrativa - com a consolidação de um orçamento próprio, hoje na casa de R$ 3 bilhões, destinado às metas projetadas pela corporação - e melhora na capacidade humana e tecnológica para investigar o crime para reduzir a impunidade no país.
É uma novidade numa corporação que no passado funcionou como mero apêndice da ditadura e, em especial, porque a iniciativa parte de um diretor conhecido internamente como cana dura - conceito que o caracterizara como policial de linha de frente.
Os adversários do novo homem forte do DPF não falam publicamente, mas insinuam que a nomeação de Luiz Fernando Corrêa teve a finalidade de "aparelhar" a corporação em decorrência do avanço da polícia sobre a até então intocável elite do poder, cuja ousadia marcante ou a gota d'água que entornou o caldo dos políticos governistas, teria sido as revelações e buscas na casa do irmão do presidente Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, supostamente envolvido com a quadrilha de caça-níqueis.
O desempenho da PF nos últimos dois meses mostraram que é difícil se imaginar um controle político sobre a corporação: foram 187 ações contra o crime listadas no site do DPF, 26 delas classificadas como operações planejadas em diferentes pontos do país. Destas, uma quebrou o esquema de uma grande multinacional na importação ilegal de produtos de informática (a Cisco Systems, na Operação Persona), outra desmontou a máfia que adicionava soda cáustica e água oxigenada no leite (Operação Ouro Branco) e uma terceira (Operação Metástase) atacou os desvios de dinheiro na Fundação Nacional da Saúde (Funasa), prendendo apadrinhados do líder do governo no Senado e um dos principais políticos da base aliada, o senador Romero Jucá (PMDB-RR).
Ainda não se viu uma grande operação que defina o estilo Corrêa, mas há sinais: a polícia continua com liberdade para agir dentro da lei, mandou parar com a excessiva exposição de presos - os espetáculos de mídia caracterizados por vazamentos privilegiando determinados veículos com o fornecimento de imagens de suspeitos ou trechos de diálogos em grampos - e tem determinado mais rigor na análise de indícios e provas contra suspeitos.
Fonte: JB Online
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