
Charge do JCaesar / Veja
Roberto Nascimento
A grande imprensa tem comentado, com ênfase, os problemas da governabilidade de Lula 3, em comparação ao primeiro mandato, iniciado após o duplo governo de Fernando Henrique Cardoso. São duas situações diferentes, porque assumir após o legado da administração de Bolsonaro teve um significado aterrador.
A demolição feita pelo bolsonarismo, que atingiu até a política externa, está exigindo um gigantesco esforço de reconstrução. E não será da noite para o dia que os rumos do Brasil voltarão ao normal.
À BEIRA DA DITADURA – O mais grave, além dos erros oficiais na pandemia, foi que estivemos à beira de uma ditadura militar, que tentaram implantar durante a segunda etapa do mandato e também no início do atual governo, com a invasão dos Três Poderes em dia 8 de janeiro de 2023.
Aos poucos, vão se descobrindo as razões do fracasso golpista, que ocorreu no estilo Brancaleone. Três comandantes do Exército — Tomas Paiva, Richard Nunes e Valério Stumpf, respectivamente, do Sudeste, Nordeste e Sul — não aceitaram lançar as tropas em mais uma aventura política, desta vez sob o comando de um ditador inconsequente, e tiveram apoio da ampla maioria do Alto Comando do Exército, desfazendo o golpe.
Na época, cansamos de escrever que Bolsonaro estava iludido. Num eventual regime militar, caso as condições políticas parecidas com 1964 voltassem a ocorrer, o presidente seria novamente um general de quatro estrelas.
DILEMAS DE LULA – Lula venceu a eleição e agora se depara com um cenário hostil, precisa se equilibrar na corda bamba.
No que concerne às empresas estatais, por exemplo, considero equivocado haver uma política de partidos de esquerda, confundindo-se posições do conservadorismo e métodos progressistas — um a favor da privatização; e o outro, defendendo maior presença do Estado.
Ora, os 21 anos do regime militar/civil, em modelo direitista, tiveram a maior criação de empresas estatais da História Republicana, repetindo o modelo virtuoso do período Getúlio Vargas, que criou o tripé da Industrialização (Siderurgia, Energia Elétrica e Petróleo) no Brasil do início da década de 50, com a eleição de Vargas após a Segunda Grande Guerra.
Então, com esses dois exemplos, cai por terra a ideia cantada em prosa e verso de que as empresas estatais são uma criação de esquerdistas. Lógico que não. Criar as empresas estatais foi uma política de Estado levado a cabo pelas Forças Armadas, por total falta de interesse dos empreendedores privados nacionais e estrangeiros.
NOS PARAÍSOS FISCAIS – Hoje, a situação mudou. Sabemos que nossos empresários adoram ganhar dinheiro aqui, mas preferem viver no exterior e investir nos paraísos fiscais, embora possam ter maior lucro se aplicarem no Tesouro Direto, perguntem aos economistas Roberto Campos Neto e Paulo Guedes que eles confirmarão.
Ao começar seu novo mandato, Lula 3 está pisando num terreno minado, porque a polarização não acabou. Apesar da alta probabilidade de Bolsonaro ser condenado em um dos 16 processos eleitorais a que responde, tornando-se automaticamente inelegível, a radicalização está aumentando, ao invés de diminuir.
Essa situação, é claro, está dificultando que o governo Lula 3 decole com facilidade. Por isso, precisamos ter paciência e olhar para a frente, deixando o retrovisor para os bolsonaristas.