
Charge do Duke (otempo.com.br)
edro do Coutto
Reportagem de Nicolas Iory, Bianca Gomes e Julia Noia, O Globo desta segunda-feira, destaca que pesquisa concluída semana passada pelo Ipec encontrou um índice de 57% voltado contra a polarização Lula x Bolsonaro e a favor de uma terceira via contra essa realidade.
A insatisfação que se volta contra o cotejo das urnas no ano passado, na minha opinião, parte do princípio voltado para a busca de um candidato ideal. Esse candidato, efetivamente, não existe, aliás, como definiu magistralmente o professor Alceu Amoroso Lima. No ano de 1965 sob o pseudônimo de Tristão de Athayde ele escrevia uma coluna semanal no Jornal do Brasil.
CANDIDATO IDEAL – Numa delas, em outubro de 1965, na disputa pelo governo do então estado da Guanabara, manifestou seu apoio a Negrão de Lima contra Flexa Ribeiro, candidato de Carlos Lacerda. Jovens estudantes foram procurá-lo e disseram que Amoroso Lima estava apoiando um conservador. O professor respondeu: “meus filhos, o candidato ideal não existe”.
Nunca esqueci a frase que é uma simples e admirável dos embates políticos. O candidato ideal é uma ficção no caminho do poder. Nesse rumo só existem duas estradas, a das ruas e a das armas.
A questão política, em grande parte, repousa nesta dúvida. Infelizmente. Pois as urnas devem sempre prevalecer, daí porque o sentimento da terceira via que o Iepc destaca. A terceira via, na realidade, que os fatos do ano passado demonstraram não funcionar, refere-se à uma atmosfera de tranquilidade social, longe, portanto, da invasão e das depredações de Brasília. A resposta à pesquisa assim busca, conforme os números indicam por larga margem, o caminho democrático para o exercício do poder político no país.
APRECIAÇÃO – Isso de um lado. De outro, a análise de qualquer governo exige a apreciação ao longo do mandato. Seria uma solução ideal, utópica, que tivesse como objetivo esperar em poucos meses, como acontece agora, a resposta direta por obstáculos sociais que se estenderam no tempo. Os números da economia revelam esse cenário, a começar pelo desemprego que deixou um rastro sinistro e o fato de o governo Bolsonaro, seguindo a cartilha do ministro Paulo Guedes, ter congelado os salários e liberado os preços, sobretudo no setor da alimentação que subiu em grande velocidade.
Evidentemente que tal política deixou marcas negativas na população do país. Entretanto, o mesmo Ipec aponta que 41% acham o governo Lula positivo contra 24% que o consideram negativo. Aí está um exemplo da polarização elevada ao seu nível máximo com o episódio de 8 de janeiro de 2023 que ficará para sempre na história do país como um momento crítico. Ficou caracterizada a tentativa de um golpe contra o resultado das urnas voltado para depor o presidente Lula da Silva, o que felizmente não se concretizou. Teria sido um retorno trágico ao 13 de dezembro de 1968 quando da edição do Ato Institucional nº 5.
INELEGIBILIDADE – Numa entrevista a Júlia Chaib e Thiago Rezende, Folha de S. Paulo de ontem, o senador Flávio Bolsonaro afirma que seria uma atrocidade antidemocrática que o tribunal Superior Eleitoral decidisse deixar o ex-presidente da República, seu pai, inelegível. Jair Bolsonaro responde por 16 ações na Justiça, inclusive a de participar à distância na tentativa de golpe frustrada em 8 de janeiro deste ano.
Flávio Bolsonaro, portanto, baseia a sua posição diante e de acordo com o regime democrático. Mas, a tentativa de golpe, ficou claro, constituiu um sério atentado à própria democracia. Quanto à busca de uma terceira via, qualquer pensamento nesse sentido desloca-se para a teoria e para o sonho. É preciso esperar os resultados concretos do atual governo para julgá-lo positiva ou negativamente. A cada quatro anos um presidente da República é julgado nas urnas. O julgamento de Bolsonaro ocorreu em 30 de outubro.