sábado, agosto 13, 2022

O sentido de uma vitória de Bolsonaro




O sucesso eleitoral do presidente é possível, mas num país bastante dividido e com um legado de problemas gigantesco

Por Fernando Luiz Abrucio* (foto)

As chances de o presidente Bolsonaro reeleger-se são maiores do que pensam a oposição - de centro-esquerda e centro-direita - e boa parte dos analistas. Se o pleito fosse hoje, o ex-presidente Lula ainda seria o favorito, mas com viés de segundo turno, o que torna o jogo mais complicado.

Mas a proposta bolsonarista atual construiu uma forte combinação entre conservadorismo, alianças com a elite política tradicional e populismo distributivo, tornando-a capaz de chegar à rodada final com poucos pontos de diferença em relação ao lulismo. É preciso entender as razões que explicam esse processo político e saber quais seriam as consequências de uma vitória do bolsonarismo.

Claro que há ainda bastante jogo político pela frente. Numa eleição muito disputada como será a próxima, em que não há uma narrativa completamente hegemônica, como havia em 1994, 2006, 2010 e 2018, a campanha dos candidatos e fatos novos ou inusitados podem ter mais impacto nos resultados. A qualidade da comunicação eleitoral e episódios marcantes podem beneficiar Lula ou Bolsonaro, ou mesmo o crescimento de Simone Tebet, embora seja mais difícil para ela, por conta do tempo exíguo para alterar o quadro geral da eleição.

De todo modo, levando em conta apenas os elementos que podem ser ponderados, a eleição de 2022 tende a ser mais parecida com a de 2014, quando a presidente Dilma tinha, ao mesmo tempo, muita rejeição, mas um apoio suficiente para ganhar de forma apertada a eleição.

Bolsonaro é ainda mais rejeitado do que ela, só que tem também um grupo fiel de 25% de apoio e está utilizando diversos instrumentos de populismo distributivo como nenhum candidato à reeleição teve antes. Com uma cordilheira de recursos públicos repassados para milhões de eleitores, o bolsonarismo espera angariar o patamar necessário de votos para criar no segundo turno uma “batalha final do bem contra o mal”.

Neste cenário, Bolsonaro tem, pelo menos, 40% de chances de vencer, podendo crescer esse percentual dependendo de não cometer erros fatais ao longo da campanha - e aqui pode ser contabilizado qualquer ato violento ou ameaça grave à democracia que possa ser debitado na conta do bolsonarismo, algo que beneficiaria Lula.

Um possível sucesso eleitoral de Bolsonaro terá causas diferentes daquelas que o elegeram em 2018. Naquele momento, sua maior força estava em vestir melhor o figurino do candidato antissistema, como já apontou bem Alberto Almeida. Apesar de continuar adotando pautas contra o sistema e usar sua autenticidade tosca do tiozão do churrasco como uma de suas principais características eleitorais, seu discurso está muito mais vinculado agora ao conservadorismo social e religioso.

Na verdade, uma parte de seus argumentos contra o funcionamento das instituições atuais conquistou uma parcela grande do voto conservador e por isso que o presidente repete diariamente essa cantilena. Mas o exagero em alguns desses temas, sobretudo no campo da violência e no ataque à democracia, não agrada a uma parte do eleitorado hoje bolsonarista e pode atrapalhar o seu desempenho eleitoral.

Sua primeira força está em representar um eleitorado conservador que congrega de 20% a 25% do eleitorado brasileiro. Para tanto, entrou muito mais fundo no discurso religioso do que em 2018 e fez alianças com importantes lideranças evangélicas do país, comprando a pauta delas e oferecendo benesses públicas, regulatórias e orçamentárias.

Além disso, como é o governante atual, tenta mostrar como fez o sistema ser mais regido por valores tradicionais e conservadores, como pátria, família e ordem. Se o sistema ainda não é perfeito, diria Bolsonaro, é porque ainda não lhe deram o poder suficiente para transformá-lo. E assim pedirá o voto dos eleitores.

Só que o contingente mais nitidamente conservador do eleitorado não será suficiente para garantir a reeleição. Por essa razão, Bolsonaro abriu os cofres da União num volume inédito e transformou-se num populista distributivista que procura conquistar os pobres, os eleitores da classe C e a classe média - neste último caso, com a redução do preço dos combustíveis.

Ao agir desse modo, o presidente vai contra toda a sua história, inclusive batendo de frente contra o seu próprio discurso de 2018, quando ainda falava que era mais importante dar trabalho para as pessoas e que transferências de renda eram formas de escravizar as pessoas e de comprar votos. Bolsonaro chegou a ser o único deputado a votar contra a institucionalização do Bolsa Família, que ainda chamava de “Bolsa Esmola”.

A chegada ao poder mudou sua cabeça, especialmente durante o momento mais duro da covid-19, quando o Auxílio Emergencial o salvou de se tornar um governante extremamente impopular.

Mas o que fez a grande virada de chave na visão de mundo de Bolsonaro foi o Centrão e seus líderes principais, Arthur Lira e, sobretudo, Ciro Nogueira, hoje os verdadeiros líderes políticos do governo, embora não do movimento social bolsonarista. Eles mudaram completamente o planejamento da política econômica de Paulo Guedes e conseguiram, em alguns meses, convencer primeiramente o presidente (que rifou o Ministério da Economia) e depois o Congresso Nacional de que seria preciso mudar a lógica fiscal do país para distribuir, em tempo recorde e por prazo praticamente limitado ao período eleitoral, uma tonelada de dinheiro à população, a fim de evitar a vitória de Lula em primeiro turno e garantir uma disputa acirrada no segundo round eleitoral.

Ainda há incertezas sobre o resultado desse transatlântico de recursos, especialmente os que irão para grupos nos quais Bolsonaro tem por ora uma votação menor. Isso vai depender de como o bolsonarismo vai propagandear essa medida e, muito mais, de como será o discurso dos candidatos oposicionistas para os mais pobres. Além das transferências diretas de renda, a campanha de reeleição espera se beneficiar do apoio dos parlamentares que receberam vultosas verbas do Orçamento secreto. Eles têm capilaridade por grande parte do país e podem ser importantes cabos eleitorais.

O sucesso eleitoral bolsonarista é possível, mas provavelmente será como a reeleição de Dilma, com agravantes. A vitória deverá ser também por pouquíssima margem de votos em relação ao segundo colocado, numa campanha ainda mais virulenta e marcada pelo ódio do que foi o pleito em 2014, deixando o país bem mais dividido do que naquela época e com um legado de tarefas e problemas gigantesco para o segundo mandato.

Mesmo com todas essas dificuldades e grandes conflitos pela frente, se Bolsonaro conseguir o segundo mandato, ele tem um projeto muito claro: reforçar o poder presidencial frente aos outros Poderes, à Federação e à sociedade. O objetivo maior disso é estabelecer um projeto autocrático de prazo maior do que quatro anos.

O segundo mandato geralmente já é mais difícil do que o primeiro, só que dessa vez será tão ou mais complicado do que o dia seguinte da reeleição de Dilma. Primeiro porque, ao abraçar o populismo distributivista como fez agora, Bolsonaro não poderá parar: terá que continuar a pagar o Auxílio Brasil no valor atual e provavelmente será pressionado a aumentar o saco de bondades porque a economia no ano que vem cairá em recessão. Os juros continuarão altos por um bom tempo, o desemprego tenderá a aumentar, a situação internacional deve piorar e uma saída para continuar gastando seria aumentar impostos, algo bem difícil perante o eleitorado bolsonarista raiz.

Outra solução seria adotar uma política econômica mais restritiva ao estilo do primeiro ano de Paulo Guedes, o que geraria uma enorme perda da popularidade presidencial, tal qual aconteceu em 2015 com Dilma, pois isso terá cheiro de traição ao eleitor, o pior sentimento que a população pode ter em relação a um político.

Ou seja, há muitas chances de a ressaca ser grande no ano que vem depois da esbórnia de 2022. É neste contexto que o Centrão cobrará a sua fatura: só interessará a esse grupo continuar como parceiro do bolsonarismo se ele for capaz de entregar um retumbante sucesso eleitoral nas eleições municipais de 2024.

Lira, Ciro Nogueira e Valdemar querem ter o comando da maior parte das prefeituras para ter um programa de longo prazo de permanência no poder. Mas se não for encontrada uma solução distributivista e que mantenha a popularidade do condomínio político montado com Bolsonaro, o conflito entre as partes será inevitável: um lado ameaçará com o impeachment e, mais ainda, com o semipresidencialismo, enquanto o outro organizará as brigadas bolsonaristas nas ruas e redes sociais, além de atiçar o conservadorismo de certos grupos evangélicos nas igrejas pelo país afora.

No final, o Armagedom poderá não ser entre bolsonarismo e lulismo, mas entre o Centrão e os bolsonaristas. Só que a classe política tradicional e fisiológica está fazendo uma campanha que legitima um projeto autocrático de poder, e escapar dele não será fácil. Numa possível derrota eleitoral, Bolsonaro tem mais chances de causar muita confusão e violência, ou dificuldades na transição para um possível governante eleito. Mas se ganhar, ele terá o poder e a legitimidade para aprofundar a quebra democrática, como seu ídolo máximo, Viktor Orbán, fez na Hungria.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

Valor Econômico

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