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Foto: Carlos Moura/Arquivo/Agência Senado
Davi Alcolumbre17 de outubro de 2025 | 08:08O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem ampliado sua influência política e se consolidado como mediador entre o Planalto e o Congresso. Ao atender a um pedido do governo Lula e adiar a votação dos vetos ao novo licenciamento ambiental — que poderia representar uma nova derrota para o Executivo —, ele reforçou seu papel de fiador da governabilidade. O movimento ocorre no momento em que Alcolumbre tenta emplacar o nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para o Supremo Tribunal Federal (STF), embora Lula mantenha a prerrogativa da escolha e tenha como favorito o advogado-geral da União, Jorge Messias. A reportagem é do jornal “O Globo”.
Nos bastidores, Alcolumbre tem participado de negociações decisivas sobre o Orçamento de 2026 e buscado reduzir tensões entre os Poderes. Ele se opôs à proposta de anistia ampla aos condenados por atos golpistas e tem dialogado com ministros do STF e com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre temas econômicos e fiscais. Sua atuação, segundo aliados, tem sido fundamental para evitar novos impasses políticos e garantir a aprovação de pautas de interesse do governo.
Além disso, o adiamento da análise dos vetos ao projeto de licenciamento ambiental foi estratégico para o Planalto, que teme desgaste político às vésperas da COP30, em Belém. A equipe de articulação tenta costurar um acordo com a bancada ruralista, liderada por Tereza Cristina (PP-MS), para preservar parte dos vetos e evitar que o governo precise acionar o STF. Com isso, Alcolumbre se consolida como uma das figuras mais influentes da cena política nacional, capaz de equilibrar interesses do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.
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Gleisi diz que devem permanecer os que apoiam o governo
Pedro do Coutto
Em entrevista concedida ao Globo, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que é “um fenômeno natural” permanecer no governo apenas aqueles que apoiam o projeto político em curso — em especial, a reeleição do presidente da República. A declaração, aparentemente pragmática, acende um debate antigo e incômodo sobre o equilíbrio entre fidelidade política e o princípio republicano de impessoalidade na administração pública.
Em outras palavras, até que ponto a lealdade pode ser usada como critério para manter cargos e funções dentro do Estado? Na prática, o que a ministra defende é a coerência de base: quem foi indicado por parlamentares aliados deve agir de forma alinhada ao governo, votando e se manifestando em favor das medidas do Executivo.
SEM SENTIDO – Caso contrário, a permanência desses indicados — especialmente em postos estratégicos, como diretorias de estatais e autarquias — perde sentido. Há uma lógica interna nesse argumento: governos democráticos dependem de maioria no Congresso para aprovar projetos e garantir estabilidade. No entanto, o discurso de Gleisi vai além do realismo político e se aproxima perigosamente da naturalização de uma prática que há décadas corrói o sistema brasileiro — a troca de cargos e favores por votos.
A história política do país é repleta de exemplos em que a lealdade pessoal ou partidária se sobrepôs à competência técnica. O fisiologismo, disfarçado sob o nome elegante de “governabilidade”, transformou-se em norma tácita. Cargos comissionados, nomeações estratégicas e verbas orçamentárias tornaram-se moedas de troca na construção de maiorias.
O problema não é novo, mas o que preocupa é a tentativa de apresentá-lo como “natural”, como se fosse inerente à política. O uso dessa palavra revela uma visão de poder que confunde o Estado com o projeto partidário e a lealdade política com virtude cívica.
AUMENTO DO TETO – A ministra cita como exemplo o recente aumento do teto de financiamento habitacional para a classe média, de até R$ 2,2 milhões — uma medida vista como estratégica para reforçar o apoio popular. Ao vincular políticas públicas à sustentação política, Gleisi traduz o dilema central dos governos de coalizão: a necessidade de equilibrar resultados de gestão com recompensas políticas.
Mas, ao mesmo tempo, expõe o risco de que políticas públicas sejam moldadas por conveniências eleitorais e não por critérios técnicos ou sociais. O afastamento de indicados por parlamentares que votaram contra o governo — inclusive em órgãos como a Caixa Econômica Federal e o INSS — ilustra essa estratégia de depuração interna.
Trata-se de uma forma de disciplinar a base, punindo a “infidelidade” e premiando a submissão. Em tese, o objetivo seria garantir coesão. Na prática, porém, o efeito colateral é a centralização do poder e o esvaziamento do debate democrático. O Estado se transforma em um instrumento de controle político, e não em uma estrutura de serviço público.
MÉRITO ADMINISTRATIVO – Dizer que é “natural” demitir quem não vota com o governo é, no fundo, admitir que o mérito administrativo se subordina ao cálculo eleitoral. É aceitar que o Estado funcione como uma extensão do partido, e que a máquina pública sirva à sobrevivência política de quem está no poder.
A naturalização desse raciocínio é perigosa: ela legitima a substituição da técnica pela fidelidade, da competência pela conveniência. A política deixa de ser espaço de pluralidade e se transforma em um campo de obediência, onde a divergência é vista como traição.
Há, claro, uma dose de realismo na fala da ministra. Nenhum governo sobrevive sem base parlamentar sólida. Mas também é verdade que, ao transformar o apoio em moeda de permanência, o Executivo arrisca perder sua legitimidade institucional.
DESGASTE – O preço dessa “lealdade” é o desgaste dos princípios republicanos e a consolidação de uma cultura de dependência política que enfraquece o próprio Estado. Governabilidade não pode ser sinônimo de clientelismo, e coerência política não deve significar submissão cega.
O episódio expõe, mais uma vez, o dilema que assombra o presidencialismo brasileiro: como construir uma base de apoio sem sucumbir à lógica da barganha. É possível cobrar fidelidade política, mas não às custas da autonomia institucional. A democracia exige cooperação, não servidão. Um governo que precisa ameaçar para garantir apoio talvez precise, antes, repensar suas formas de diálogo e convencimento.
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