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Trump abandonou Eduardo Bolsonaro

 

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Sábado, 18 de outubro de 2025


Trump largou o bolsonarismo ferido na estrada


Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo tinham certeza que o governo dos EUA sequer receberia os brasileiros. Tiveram que engolir uma conversa que ignorou completamente Jair Bolsonaro.


Em julho, quando Donald Trump impôs um tarifaço sobre produtos brasileiros, Eduardo Bolsonaro se apresentou como um articulador junto ao governo americano e disse que seria “mais fácil um porta-aviões americano chegar ao Lago Paranoá” do que o vice-presidente Geraldo Alckmin ser recebido por autoridades americanas.


Flávio Bolsonaro foi além e trouxe para a mesa duas bombas atômicas: “Essa situação tem que ser encarada como uma negociação de guerra sim, em que nós não estamos em condições normais, de exigir nada do Trump. Ele vai fazer o que ele quiser, independente da nossa vontade. Cabe a nós termos a responsabilidade de evitar que caiam duas bombas atômicas aqui no Brasil para depois anunciarmos que vamos fazer anistia”.


Os bolsonaristas juraram que autoridades brasileiras não seriam recebidas pelo governo norte-americano. Pior que isso: disseram que os EUA poderiam atacar militarmente o Brasil caso Jair Bolsonaro fosse preso.


Iniciou-se uma pressão, principalmente por parte da grande imprensa, para que Lula ligasse para Trump. Afinal de contas, uma republiqueta das bananas sofreria economicamente com o tarifaço da maior potência do mundo. O brasileiro não só não ligou, como continuou criticando a postura imperialista do americano.


O tempo passou e a economia brasileira não sofreu grandes impactos. Aliás, nossas exportações estão batendo recordes mesmo após o tarifaço. No fim das contas, quem mais sofreu foi o governo dos EUA, que passou a ser pressionado por empresários para revogar as tarifas contra o Brasil.


Lula não precisou ligar. Foi Trump quem ligou, não para ameaçar com porta-aviões ou com bombas atômicas, mas para dizer que os americanos estão sentindo a falta do café brasileiro. O americano não citou o nome de Bolsonaro ou condenou a “ditadura do judiciário". Nada disso. Trump chegou pisando fofo, só no sapatinho.


Três meses após as falas ameaçadoras dos filhos de Bolsonaro, o chanceler brasileiro Mauro Vieira foi recebido na Casa Branca pelo secretário de estado dos EUA Marco Rubio, designado por Trump para liderar as negociações com o Brasil.


Rubio também é um desses maluquinhos embriagados pela ideologia de extrema direita tal qual Eduardo Bolsonaro, mas antes de tudo é um soldado de Donald Trump. Dentro do surrealismo bolsonarista, a indicação de Rubio para a negociação foi um sinal inequívoco de que o governo americano iria jogar duro com o Brasil.


Os afagos de Trump seriam parte de uma estratégia de negociação para puxar o tapete do brasileiro.


Um dia antes da reunião com o chanceler brasileiro, integrantes do governo americano deram declarações acusando o judiciário brasileiro de perseguir até cidadãos americanos. O Representante Comercial dos EUA, Jameson Greer, afirmou que a maior parte da alíquota sobre o Brasil é explicada pela “imensa preocupação acerca do Estado de Direito, censura, e direitos humanos” no país.


A declaração acendeu um alerta no Itamaraty e deixou o bolsonarismo em festa. Os nepobabys do golpismo, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro, comemoraram nas redes sociais. Esse seria um sinal claro de que o governo dos EUA iria tratar de pautas políticas nas conversas com o Brasil.


Bom, a reunião aconteceu e ambos os representantes dos governos saíram dela satisfeitos. A gritaria de Eduardo Bolsonaro e dos trumpistas mais obcecados ideologicamente não sentou à mesa com os adultos.


Mais uma vez, o nome de Bolsonaro não foi citado e os assuntos políticos internos do Brasil não foram objeto de discussão. O clima foi de cordialidade e não houve qualquer intimidação à soberania brasileira. Assim como o presidente dos EUA, Rubio teve que pisar fofo com o Brasil.


Confirma-se o que já se supunha: o bolsonarismo foi mesmo largado ferido na estrada por Trump. Mais do que um maluquinho de extrema direita, o americano é um homem de negócios. Se for do interesse dele, até química com líderes de regimes comunistas pode rolar. Amigos, amigos negócios à parte.


Não nos esqueçamos da excelente relação que Trump mantém com o ditador norte-coreano Kim Jong Un. Ali a química rolou forte. Em 2017, Pyongyang lançou uma série de testes de mísseis provocativos, aumentando a tensão com os EUA e motivando provocações de Trump a Kim no Twitter.


Depois dessa rusga inicial, os dois líderes passaram a trocar cartas respeitosas — classificadas por Trump como “cartas de amor” — e se encontraram três vezes. "Você e eu temos um estilo único e uma amizade especial". escreveu Trump em uma das cartas. Isso demonstra que, ao contrário dos delírios bolsonaristas, Donald Trump não tem grandes compromissos com ideologias.


Ambos os países classificaram o encontro como positivo e publicaram uma nota em conjunto — uma clara demonstração de que os dois países estão se entendendo. As conversas sobre tarifas ainda não aconteceram, ainda é um primeiro passo, mas já está definidio que assuntos políticos não entrarão em pauta nas próximas rodadas de negociações.


Mauro Vieira declarou ao sair da reunião: “Prevaleceu uma atitude construtiva, com aspectos práticos para a retomada das negociações entre os dois países. Há boa química entre os governos, e o diálogo está aberto.”


O bolsonarismo balançou o rabinho, fez festinha para Trump e até ganhou alguns biscroks dele ao conseguir que autoridades sofressem sanções com a Lei Magnitsky. Mas nada além disso. A realidade dos fatos se impôs e as fantasias bolsonaristas foram barradas das negociações.


Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo continuarão vivendo de migalhas que alimentam suas narrativas delirantes. Mas agora a conversa será entre os adultos, as crianças birrentas e suas demandas ficam de fora. Dá pra dizer com tranquilidade que hoje é mais fácil o Eduardo Bolsonaro ser deportado do que um porta-aviões aparecer no Lago Paranoá.

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sexta-feira, outubro 17, 2025

Alcolumbre reforça papel de mediador e amplia influência entre Planalto e Congresso

 Foto: Carlos Moura/Arquivo/Agência Senado

Davi Alcolumbre17 de outubro de 2025 | 08:08

Alcolumbre reforça papel de mediador e amplia influência entre Planalto e Congresso

brasil

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem ampliado sua influência política e se consolidado como mediador entre o Planalto e o Congresso. Ao atender a um pedido do governo Lula e adiar a votação dos vetos ao novo licenciamento ambiental — que poderia representar uma nova derrota para o Executivo —, ele reforçou seu papel de fiador da governabilidade. O movimento ocorre no momento em que Alcolumbre tenta emplacar o nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para o Supremo Tribunal Federal (STF), embora Lula mantenha a prerrogativa da escolha e tenha como favorito o advogado-geral da União, Jorge Messias. A reportagem é do jornal “O Globo”.

Nos bastidores, Alcolumbre tem participado de negociações decisivas sobre o Orçamento de 2026 e buscado reduzir tensões entre os Poderes. Ele se opôs à proposta de anistia ampla aos condenados por atos golpistas e tem dialogado com ministros do STF e com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre temas econômicos e fiscais. Sua atuação, segundo aliados, tem sido fundamental para evitar novos impasses políticos e garantir a aprovação de pautas de interesse do governo.

Além disso, o adiamento da análise dos vetos ao projeto de licenciamento ambiental foi estratégico para o Planalto, que teme desgaste político às vésperas da COP30, em Belém. A equipe de articulação tenta costurar um acordo com a bancada ruralista, liderada por Tereza Cristina (PP-MS), para preservar parte dos vetos e evitar que o governo precise acionar o STF. Com isso, Alcolumbre se consolida como uma das figuras mais influentes da cena política nacional, capaz de equilibrar interesses do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

O preço da lealdade entre a governabilidade e o clientelismo no poder


Gleisi diz que devem permanecer os que apoiam o governo

Pedro do Coutto

Em entrevista concedida ao Globo, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que é “um fenômeno natural” permanecer no governo apenas aqueles que apoiam o projeto político em curso — em especial, a reeleição do presidente da República. A declaração, aparentemente pragmática, acende um debate antigo e incômodo sobre o equilíbrio entre fidelidade política e o princípio republicano de impessoalidade na administração pública.

Em outras palavras, até que ponto a lealdade pode ser usada como critério para manter cargos e funções dentro do Estado? Na prática, o que a ministra defende é a coerência de base: quem foi indicado por parlamentares aliados deve agir de forma alinhada ao governo, votando e se manifestando em favor das medidas do Executivo.

SEM SENTIDO – Caso contrário, a permanência desses indicados — especialmente em postos estratégicos, como diretorias de estatais e autarquias — perde sentido. Há uma lógica interna nesse argumento: governos democráticos dependem de maioria no Congresso para aprovar projetos e garantir estabilidade. No entanto, o discurso de Gleisi vai além do realismo político e se aproxima perigosamente da naturalização de uma prática que há décadas corrói o sistema brasileiro — a troca de cargos e favores por votos.

A história política do país é repleta de exemplos em que a lealdade pessoal ou partidária se sobrepôs à competência técnica. O fisiologismo, disfarçado sob o nome elegante de “governabilidade”, transformou-se em norma tácita. Cargos comissionados, nomeações estratégicas e verbas orçamentárias tornaram-se moedas de troca na construção de maiorias.

O problema não é novo, mas o que preocupa é a tentativa de apresentá-lo como “natural”, como se fosse inerente à política. O uso dessa palavra revela uma visão de poder que confunde o Estado com o projeto partidário e a lealdade política com virtude cívica.

AUMENTO DO TETO – A ministra cita como exemplo o recente aumento do teto de financiamento habitacional para a classe média, de até R$ 2,2 milhões — uma medida vista como estratégica para reforçar o apoio popular. Ao vincular políticas públicas à sustentação política, Gleisi traduz o dilema central dos governos de coalizão: a necessidade de equilibrar resultados de gestão com recompensas políticas.

Mas, ao mesmo tempo, expõe o risco de que políticas públicas sejam moldadas por conveniências eleitorais e não por critérios técnicos ou sociais. O afastamento de indicados por parlamentares que votaram contra o governo — inclusive em órgãos como a Caixa Econômica Federal e o INSS — ilustra essa estratégia de depuração interna.

Trata-se de uma forma de disciplinar a base, punindo a “infidelidade” e premiando a submissão. Em tese, o objetivo seria garantir coesão. Na prática, porém, o efeito colateral é a centralização do poder e o esvaziamento do debate democrático. O Estado se transforma em um instrumento de controle político, e não em uma estrutura de serviço público.

MÉRITO ADMINISTRATIVO –  Dizer que é “natural” demitir quem não vota com o governo é, no fundo, admitir que o mérito administrativo se subordina ao cálculo eleitoral. É aceitar que o Estado funcione como uma extensão do partido, e que a máquina pública sirva à sobrevivência política de quem está no poder.

A naturalização desse raciocínio é perigosa: ela legitima a substituição da técnica pela fidelidade, da competência pela conveniência. A política deixa de ser espaço de pluralidade e se transforma em um campo de obediência, onde a divergência é vista como traição.

Há, claro, uma dose de realismo na fala da ministra. Nenhum governo sobrevive sem base parlamentar sólida. Mas também é verdade que, ao transformar o apoio em moeda de permanência, o Executivo arrisca perder sua legitimidade institucional.

DESGASTE – O preço dessa “lealdade” é o desgaste dos princípios republicanos e a consolidação de uma cultura de dependência política que enfraquece o próprio Estado. Governabilidade não pode ser sinônimo de clientelismo, e coerência política não deve significar submissão cega.

O episódio expõe, mais uma vez, o dilema que assombra o presidencialismo brasileiro: como construir uma base de apoio sem sucumbir à lógica da barganha. É possível cobrar fidelidade política, mas não às custas da autonomia institucional. A democracia exige cooperação, não servidão. Um governo que precisa ameaçar para garantir apoio talvez precise, antes, repensar suas formas de diálogo e convencimento.


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