Toffoli ficará espantado ao saber que há um cassino no hotel
Mario Sabino
Metrópoles
Os repórteres Valentina Monteiro e Sam Pancher, colegas de Metrópoles, hospedaram-se no resort Tayayá, no interior do Paraná, que foi vendido “oficialmente” por dois irmãos e um primo do ministro Dias Toffoli a um advogado da J&F, o conglomerado dos irmãos Batista.
Antes disso, os parentes do ministro haviam negociado uma participação no resort construído por eles com um fundo que tinha como investidor o pastor empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
INSINUAÇÕES MALDOSAS – São apenas coincidências no dinâmico mercado dos negócios brasileiros. Porém, apesar dessa teia de aquisições, os repórteres constataram que todo mundo em Ribeirão Claro, município onde fica o Tayayá, conhece o hotel como “o resort do Toffoli”.
Dá para entender essas insinuações. Afinal, o ministro é frequentador assíduo do resort, deu festa de arromba por lá e tem até uma casa exclusiva para ele na parte chique do empreendimento.
A casa, enorme, fica no alto de uma colina com vista para a represa de Xavantes, às margens da qual o Tayayá se espraia. Toffoli também tem um barco que permanece o tempo inteiro à sua disposição.
IGUAL A LULA… – Sigamos firmes nos registros imobiliários, contudo, porque brasileiro é apressado nas conclusões: assim como Lula nunca foi dono do Sítio de Atibaia e dos pedalinhos que havia no laguinho local, Toffoli jamais foi proprietário do resort Tayayá e do barco ancorado na represa de Xavantes.
Como é que o ministro poderia ser dono de um resort, se o seu salário no STF não chega a R$ 50 mil? Só porque o “Zé” (é como os funcionários do empreendimento chamam Toffoli) tem parentes bem-sucedidos, isso não significa que ele seja rico.
O mesmo vale, aliás, para Alexandre de Moraes: não é porque a sua mulher é advogada de sucesso, não menos do que estrondoso, que o mérito é dele, ora bolas. Chega de maliciar.
HOTEL-CASSINO – Valentina Monteiro e Sam Pancher descobriram que o resort Tayayá tem um cassino. Há máquinas de apostas que são legais no Paraná e sessões de jogatina a dinheiro que são ilegais em qualquer lugar do Brasil.
O advogado da J&F, dono oficial do resort, negou qualquer ilegalidade, e Toffoli não se dignou a responder aos questionamentos da reportagem do Metrópoles. Ministros do STF, como se sabe, não têm de dar explicação de nada a ninguém, muito menos a jornalistas.
Imaginei, ainda assim, a surpresa de Toffoli ao ler que há um cassino no resort que não é dele.
“CASABLANCA” – Veio à minha cabeça, então, uma cena famosa do filme “Casablanca”, que nada tem a ver com a história do resort Tayayá. É só o meu inconsciente fazendo associações completamente aleatórias, Freud explica.
A cena é aquela em que, pressionado por nazistas, o chefe de polícia da cidade fecha o Rick’s Café American, dizendo que estava “chocado por saber que há jogos de azar acontecendo aqui” (em inglês, a fala é mais divertida: “I’m shocked, shocked to find out that gambling is going on in here”).
Segundos depois, um crupiê entrega ao chefe de polícia o montante que ele havia ganhado na mesa de roleta, em visita anterior. O chefe de polícia, então, responde: “Ah, muito obrigado”.