Por José Montalvão
É curioso — e ao mesmo tempo preocupante — como uma parte da população insiste em chamar Lula e seus simpatizantes de “comunistas”, sem demonstrar o mínimo entendimento sobre o que essa palavra realmente significa. A pergunta que não quer calar é: esse povo sabe, de fato, o que é comunismo? Ou apenas repete slogans vazios, embalados pelo ódio político e pela desinformação?
A reabilitação desse discurso anticomunista não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Em várias partes do mundo, líderes e grupos conservadores recorrem a essa retórica para atacar qualquer proposta que envolva direitos sociais, justiça distributiva ou políticas públicas voltadas aos mais pobres. Tudo vira “comunismo”: Bolsa Família, cotas, SUS, universidades públicas, salário mínimo valorizado, moradia popular. É um espantalho ideológico usado para assustar e manipular.
No caso brasileiro, a contradição é ainda mais gritante. Os governos do PT, ao longo de 14 anos, jamais implantaram comunismo ou socialismo no país. Pelo contrário: governaram dentro das regras do capitalismo, respeitaram a propriedade privada, fortaleceram bancos públicos e privados, ampliaram o consumo e incentivaram grandes empresas nacionais. Falar em “ditadura comunista” ou “ameaça vermelha” nesse contexto é, no mínimo, desonesto intelectualmente.
Essa narrativa anticomunista serve, na prática, como uma cortina de fumaça. Por trás dela, esconde-se a tentativa de desqualificar qualquer ideia que fale em igualdade, direitos universais, respeito à diversidade e proteção social. Em vez de debater propostas concretas para melhorar a vida do povo, prefere-se criar um inimigo imaginário. Assim, evita-se discutir quem realmente se beneficia da desigualdade, da miséria e da concentração de renda.
E aí surge outra provocação: Jesus era comunista? Evidentemente, não no sentido moderno e político do termo. Mas é impossível ignorar que seus ensinamentos defendiam a partilha, a solidariedade, o cuidado com os pobres, os doentes e os excluídos. Quem se diz cristão e ao mesmo tempo demoniza políticas sociais deveria, ao menos, refletir sobre essa contradição moral.
Diante disso, vale a pergunta: o comunismo é uma alternativa real ao capitalismo ou apenas uma utopia? As respostas não são fáceis. O que é certo é que o capitalismo, do jeito que está, produz desigualdades absurdas, crises recorrentes e exclusão social em massa. Se não surgirem alternativas viáveis para mudar esse rumo, não estaremos discutindo comunismo, socialismo ou paraíso celestial — estaremos lutando apenas para sobreviver.
No fim das contas, rotular Lula de comunista ou tratar políticas sociais como ameaça ideológica revela mais ignorância do que convicção. É mais fácil repetir bordões do que estudar, pensar e debater seriamente os problemas do país. Enquanto isso, os verdadeiros desafios — fome, desemprego, desigualdade, falta de educação e saúde de qualidade — seguem sem solução.