sexta-feira, janeiro 23, 2026

Liquidação do Will Bank expõe fragilidades do sistema e cobra transparência das autoridades

 

Pedro do Coutto

A decisão do Banco Central de decretar a liquidação do Will Bank marca mais um capítulo delicado no já conturbado processo envolvendo o banco Master e lança luz sobre fragilidades que insistem em reaparecer no sistema financeiro brasileiro — sobretudo quando o impacto recai, de forma desproporcional, sobre clientes de baixa renda.

A medida, revelada em reportagem de O Globo, não surgiu do nada: foi a resposta a uma sequência de descumprimentos legais e operacionais que tornaram insustentável a continuidade da instituição. O ponto de inflexão ocorreu no dia 19, quando o Will Bank deixou de honrar sua grade de pagamentos junto à Mastercard.

BLOQUEIO – Diante da falta de liquidez, a operadora de cartões bloqueou as transações, paralisando, na prática, a vida financeira de milhares de clientes. O episódio expôs não apenas a fragilidade da instituição, mas também a dependência estrutural de um modelo que exige confiança permanente entre bancos, bandeiras e consumidores. Quando um elo falha, o efeito dominó é imediato.

O Banco Central, ao intervir, cumpriu o papel que lhe cabe: preservar a estabilidade do sistema e evitar que o problema se alastre. A liquidação, ainda que traumática, é um instrumento extremo justamente para conter riscos maiores. Ao mesmo tempo, a autoridade monetária avalia a possibilidade de venda das operações do Will Bank no mercado financeiro, hipótese que, embora prevista na regulação, se mostra complexa. O prazo de até 120 dias para negociações existe, mas o histórico recente e o tamanho do passivo tornam a tarefa árdua.

Enquanto isso, quem paga a conta da incerteza são os correntistas. Muitos deles recorreram ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo essencial para proteger depósitos e limitar danos sociais em crises bancárias. O FGC cumpre uma função silenciosa, mas decisiva: impedir que episódios como esse se transformem em tragédias financeiras pessoais. Ainda assim, o acesso à informação e ao próprio dinheiro, segundo relatos de clientes, tem sido confuso e lento — um problema que não pode ser tratado como detalhe operacional.

DESAFIOS – Há, neste episódio, uma dimensão política e institucional que não pode ser ignorada. A proliferação de bancos digitais ampliou a inclusão financeira e reduziu custos, mas também impôs desafios regulatórios inéditos. A supervisão precisa ser firme sem sufocar a inovação, e a comunicação com o público deve ser clara, sobretudo quando decisões duras — como uma liquidação — se tornam inevitáveis. Falhas de governança e de compliance não são acidentes; são escolhas ou omissões que, mais cedo ou mais tarde, cobram seu preço.

O caso do Will Bank reforça uma lição conhecida, mas frequentemente esquecida: estabilidade financeira não é um dado permanente, é uma construção diária. Exige vigilância técnica do Banco Central, responsabilidade dos controladores e transparência com a sociedade. Quando essa equação se desequilibra, o discurso da modernização bancária perde força diante da realidade concreta de clientes sem acesso ao próprio dinheiro. E isso, em um país ainda marcado por desigualdades profundas, é um risco que vai muito além das planilhas e dos balanços.


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