
Charge do Jônatas (Política Dinâmica)
Dora Kramer
Folha
A julgar pelo modo como Flávio Bolsonaro (PL) conduz sua carruagem, ele ainda não entendeu que a condição de filho de ex-presidente —preso e inelegível— não lhe dá a prerrogativa de mandar no governador de São Paulo.
Já Tarcísio de Freitas (Republicanos) exibiu alguma noção do que significa comandar o maior estado do país e segundo maior orçamento da República, ao se recusar a cumprir as ordens do 01.
PREFERÊNCIA – Autorizado a atender ao pedido de Jair Bolsonaro (PL) para um encontro na morada prisional, Tarcísio disse que iria em atenção ao “amigo”. O homem chamou, mas ele quis afastar as decisões políticas da conversa. Açodado, Flávio deu-se ao atropelo. Anunciou que o governador receberia de Bolsonaro a determinação de candidatar-se à reeleição, pois a fila para a disputa presidencial teria o filho mais velho como preferência.
A política tem regras e rituais a serem seguidos e o senador precisará compreender isso se não quiser perder o capital de intenções de votos de que dispõe hoje nas pesquisas. O bom político pode até ter duas caras, mas não deixa isso tão evidente. Nas palavras o senador é humilde e cordial; nos gestos é prepotente e hostil. Assim, denota inabilidade e inspira desconfiança.
REELEIÇÃO – Visita remarcada para esta semana, Tarcísio foi logo avisando mais uma vez que vai à reeleição. Com isso, tomou a si a iniciativa da decisão e o poder de mudar de opinião conforme as circunstâncias. O cassado e autoexilado Eduardo (PL) juntou-se ao irmão na impertinência, com a alegação de que Tarcísio de Freitas era um desconhecido até ser levado pelo prestígio do pai ao Palácio dos Bandeirantes.
Isso faz quatro anos e de lá para cá o governador conquistou boa avaliação no exercício do cargo, período em que Jair Bolsonaro perdeu a reeleição e a liberdade. Projetos políticos de sucesso não vicejam em ambiente de divergências internas. Se não ficar esperta, a direita corre o risco de caminhar para um irreparável racha e se afundar nas águas turvas do filhotismo.
Nem Malafaia suporta Flávio, e a direita evangélica resiste ao herdeiro Bolsonaro

Malafaia expõe insatisfação de evangélicos com Flávio
Juliano Spyer
Folha
O impensável aconteceu. O pastor Silas Malafaia anunciou que pode não apoiar Flávio Bolsonaro na eleição presidencial deste ano. Em vídeo publicado na semana passada, criticou a ideia de que a direita deveria se unir em torno de um único representante.
“Se a direita tiver um só candidato, eu vou apoiar. Se tiver mais de um, aquele que eu achar que tiver mais chance eu vou apoiar”, afirmou. Malafaia diz indiretamente que a candidatura de Flávio serve aos interesses do clã Bolsonaro, não aos da direita. O senador não teria o carisma do pai, mas herdaria sua rejeição entre eleitores de centro —um segmento que, segundo o pastor, votaria em Tarcísio de Freitas.
FINS POLÍTICOS – A decisão de escalar a queda de braço com Flávio não é impulsiva. Lideranças cristãs conservadoras preferem se associar a outro nome. A pré-candidatura de Flávio simboliza, para muitos pastores, o uso mais explícito da fé com fins políticos. Até a publicação deste artigo, o site do senador não menciona prática religiosa, mas, na semana passada, ele foi batizado pela segunda vez no rio Jordão.
O senador também errou ao se aproximar do pastor André Valadão, líder da Lagoinha Church. Valadão encarna um modelo de empresário da fé criticado por setores tradicionalistas, por ser orientado pelo dinheiro e por transformar a fé em espetáculo, com o cristianismo em segundo plano.
O movimento de Flávio ocorreu no pior momento. O nome da Lagoinha passou a circular no noticiário em razão dos escândalos envolvendo o Banco Master e a CPMI do INSS. Dois dos personagens centrais nesses episódios —Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro— mantêm vínculos antigos com a denominação e prosperaram junto com ela.
DESCONTOS INDEVIDOS – Ao se pronunciar sobre os casos, Valadão negou qualquer relação entre sua fintech, a Clava Forte, e o Banco Master. Mas admitiu que há um membro da igreja mencionado pela CPMI do INSS “com motivos para ser investigado”. Ele possivelmente se referia a Felipe Macedo Gomes, ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios, acusada de fazer descontos indevidos a aposentados. Gomes compareceu perante a CPMI, mas ficou calado, amparado por habeas corpus concedido pelo ministro Dias Toffoli.
Preso preventivamente ao tentar embarcar para o exterior, Fabiano Zettel liderava a Lagoinha Belvedere, um templo de luxo. Foi um dos maiores doadores individuais às campanhas de Tarcísio e Bolsonaro em 2022 e comandava a gestora de investimentos Reag, que, em 2021, comprou parte do resort Tayayá, pertencente aos irmãos de Dias Toffoli.
RESISTÊNCIA – Flávio procurou a Lagoinha ao querer impor sua vontade aos dois principais articuladores do bolsonarismo nas igrejas. A resistência de Malafaia e de Michelle em apoiá-lo abriu espaço para que outros líderes cristãos sigam evitando um posicionamento público sobre a eleição presidencial.
Antes de anunciar sua pré-candidatura, Flávio avisou Tarcísio, mas não se deu ao trabalho de falar com Michelle. Ele resiste a admitir que a jovem bonita, de origem modesta, que se casou com seu pai, se tornou uma liderança nacional —independentemente do marido. Diferente dele.