sábado, janeiro 24, 2026

Ano eleitoral começa com tensão entre Tarcísio e o núcleo bolsonarista


Governador falou sobre pressões de bolsonaristas

Samuel Lima
O Globo

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atribuiu, nesta sexta-feira (23), a ausência na visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro na Papudinha a uma “razão pessoal” e alegou que não se sentiu pressionado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a demonstrar apoio à sua candidatura a presidente.

“Mais enfático do que isso? “, reagiu ele, referindo-se à postura que tem adotado, ao ser perguntado sobre a desconfiança de bolsonaristas com o episódio e as cobranças por posicionamentos mais explícitos de apoio a Flávio durante a entrega de moradias populares em Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo.

SEM PROBLEMA – “Não tem nada de pressão. Até porque agora a gente vai trabalhar muito em prol do Flávio Bolsonaro, não vai ter problema nenhum com relação a isso. Acho que, com o tempo, as coisas vão se acomodando. Isso é absolutamente normal. Tenho certeza que teremos uma candidatura muito competitiva”, acrescentou o governador.

O encontro de quinta-feira com Bolsonaro, que seria o primeiro desde a prisão, foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e chegou a ser confirmado pelo governo estadual. Segundo disseram interlocutores ao O Globo, contudo, Tarcísio teria ficado irritado com declarações de Flávio à imprensa de que o pai tinha a intenção de dizer ao governador que as eleições presidenciais estão descartadas para ele e que contava com a sua reeleição em São Paulo, motivando-o a cancelar o compromisso.

“Pessoal, assim, quando você marca uma visita, o tribunal atribui uma data, e pode acontecer de não ser possível por uma razão qualquer. Eu tinha uma razão pessoal, não podia ir naquela data. Imediatamente pedi outra data para o Supremo que já foi autorizada, vai ser quinta-feira. Na semana que vem, eu estarei lá para dar um abraço no meu amigo Jair Bolsonaro, pessoa a quem eu sou muito grato”, justificou-se.

COBRANÇAS – A mesma informação apareceu em um postagem nas redes sociais no fim da tarde de quinta-feira, como forma de controlar a reação negativa do eleitorado mais fiel a Bolsonaro. Mais cedo, as contas do governador foram inundadas por cobranças quando ele divulgou um vídeo que informava sobre o andamento das obras da Linha 6 (Laranja) do metrô.

Tarcísio afirmou ainda que suas declarações públicas demonstram “coerência” desde o início do mandato com a ideia de que vai concorrer a mais quatro anos no Palácio dos Bandeirantes. O Globo mostrou, porém, a partir de conversas com aliados, que o governador se animou com a possibilidade de enfrentar Lula nas urnas e autorizou articulações nesse sentido. Ele chamou esses relatos de “especulações”. “Tem muitos projetos que estão sendo estruturados que são de longo prazo”, disse o governador.

TOCANDO BARCO – “Eu continuo focado no meu projeto de São Paulo, não tem nada diferente disso. O que vai acontecer em abril? Nada, eu vou continuar tocando barco, não vou apresentar uma carta de renúncia, não vou me descompatibilizar e vou focar num projeto de longo prazo de São Paulo com o meu time”, afirmou.

Tarcísio não explicou quais foram os compromissos que o impediram de comparecer à cela de Bolsonaro, no 19° Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, em Brasília. Na sua agenda, constou a informação de que o governador se ocupou de “despachos internos”.

TROCA DE SECRETÁRIOS –  Ainda na quinta, ao final do dia, o governo anunciou uma troca dupla no secretariado, com o chefe da Casa Civil, Arthur Lima, deslocado para a Secretaria da Justiça, no lugar de Fábio Prieto, e substituído no cargo pelo presidente estadual do Republicanos, Roberto Carneiro. Lima vivia desgastes com partidos como o Progressistas, prefeitos do interior e aliados do governo que reclamavam de falta de diálogo.

O governador afirmou que a mudança entra na previsão de baixas pelo ano eleitoral e que sentiu a necessidade de colocar um nome de maior traquejo político na Casa Civil, responsável pela liberação de emendas e relacionamento com os deputados da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp). Lima cogita concorrer a deputado federal pelo União Brasil em outubro. Já Prieto pediu desligamento para retornar à advocacia.

“O Arthur é um cara técnico, fez um trabalho de estruturação da Casa Civil, de informação e de reorganização administrativa, e agora eu preciso de um perfil um pouco mais político para organizar a jornada que vem. O Roberto Carneiro vai me ajudar nisso. Ele vai ser uma pessoa de confiança dentro do Palácio para tratar dessas questões com os partidos e os prefeitos”, aponta o chefe.

MENSAGEM – O Globo apurou com deputados da base aliada na Alesp que Prieto encaminhou uma mensagem comunicando a saída de forma repentina, ainda na segunda-feira. Existe a impressão, entre alguns deles, de que demonstrava cansaço com a função pública. “Voltarei para a advocacia, não há mistério”, escreveu o agora ex-secretário.

A troca por Lima, contudo, foi lida como uma forma de destensionar a relação com os parlamentares e os prefeitos no interior que vinham no aliado um perfil duro e com “mão de ferro”. Há reclamações frequentes sobre o ritmo de assinatura de convênios e liberação de emendas dos deputados para o interior, com valores pendentes ainda do ano passado.

Deputados que acompanham de perto a execução orçamentária dizem que a Fazenda apertou as contas do estado no ano passado devido a instabilidades na previsão de arrecadação. Um aspecto relevante para isso foi o tarifaço anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, sobre as exportações de produtos brasileiros aos Estados Unidos.

INFLUÊNCIA – Carneiro é uma figura influente no interior do estado e costumava acertar agendas do governador Tarcísio com prefeitos antes de ser nomeado para a Casa Civil. Ele também é um nome de confiança do presidente nacional do partido, o deputado federal Marcos Pereira. O novo secretário ocupou o mesmo cargo no Espírito Santo, durante o governo de Paulo Hartung.

Além de controlar o ritmo dos repasses em ano eleitoral, ele tem pela frente o desafio de encaminhar um projeto de regulamentação da Lei Orgânica da Polícia Civil, que está atrasado desde o ano passado, sob responsabilidade de um grupo de trabalho liderado pela pasta. Um parlamentar próximo do Palácio diz que há risco de a proposta ficar para o próximo mandato por conta das divergências com associações do setor.

OUTRAS BAIXAS – Tarcísio deve anunciar outras baixas no secretariado até 4 de abril, prazo final para que futuros candidatos nas eleições deixem os cargos no Executivo. No Turismo, Roberto de Lucena será substituído pela empresária Ana Biselli. Ainda não se tem a informação de quem entrará no lugar da secretária de Esportes, Coronel Helena.

Outro que tem situação indefinida é Gilberto Kassab, presidente do PSD, que chefia a secretaria de Governo. “Eu não sei exatamente o que ele vai fazer, se ele tem intenção de concorrer ou não. Fico aguardando os próximos passos dele”, anunciou Tarcísio no mesmo evento.

Em destaque

Jaques Wagner pediu contratação de Guido Mantega no Banco Master com salário de R$ 1 milhão

  Jaques Wagner pediu contratação de Guido Mantega no Banco Master com salário de R$ 1 milhão Por  Política Livre 24/01/2026 às 11:12 Atuali...

Mais visitadas