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Governador falou sobre pressões de bolsonaristas
Samuel Lima
O Globo
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atribuiu, nesta sexta-feira (23), a ausência na visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro na Papudinha a uma “razão pessoal” e alegou que não se sentiu pressionado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a demonstrar apoio à sua candidatura a presidente.
“Mais enfático do que isso? “, reagiu ele, referindo-se à postura que tem adotado, ao ser perguntado sobre a desconfiança de bolsonaristas com o episódio e as cobranças por posicionamentos mais explícitos de apoio a Flávio durante a entrega de moradias populares em Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo.
SEM PROBLEMA – “Não tem nada de pressão. Até porque agora a gente vai trabalhar muito em prol do Flávio Bolsonaro, não vai ter problema nenhum com relação a isso. Acho que, com o tempo, as coisas vão se acomodando. Isso é absolutamente normal. Tenho certeza que teremos uma candidatura muito competitiva”, acrescentou o governador.
O encontro de quinta-feira com Bolsonaro, que seria o primeiro desde a prisão, foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e chegou a ser confirmado pelo governo estadual. Segundo disseram interlocutores ao O Globo, contudo, Tarcísio teria ficado irritado com declarações de Flávio à imprensa de que o pai tinha a intenção de dizer ao governador que as eleições presidenciais estão descartadas para ele e que contava com a sua reeleição em São Paulo, motivando-o a cancelar o compromisso.
“Pessoal, assim, quando você marca uma visita, o tribunal atribui uma data, e pode acontecer de não ser possível por uma razão qualquer. Eu tinha uma razão pessoal, não podia ir naquela data. Imediatamente pedi outra data para o Supremo que já foi autorizada, vai ser quinta-feira. Na semana que vem, eu estarei lá para dar um abraço no meu amigo Jair Bolsonaro, pessoa a quem eu sou muito grato”, justificou-se.
COBRANÇAS – A mesma informação apareceu em um postagem nas redes sociais no fim da tarde de quinta-feira, como forma de controlar a reação negativa do eleitorado mais fiel a Bolsonaro. Mais cedo, as contas do governador foram inundadas por cobranças quando ele divulgou um vídeo que informava sobre o andamento das obras da Linha 6 (Laranja) do metrô.
Tarcísio afirmou ainda que suas declarações públicas demonstram “coerência” desde o início do mandato com a ideia de que vai concorrer a mais quatro anos no Palácio dos Bandeirantes. O Globo mostrou, porém, a partir de conversas com aliados, que o governador se animou com a possibilidade de enfrentar Lula nas urnas e autorizou articulações nesse sentido. Ele chamou esses relatos de “especulações”. “Tem muitos projetos que estão sendo estruturados que são de longo prazo”, disse o governador.
TOCANDO BARCO – “Eu continuo focado no meu projeto de São Paulo, não tem nada diferente disso. O que vai acontecer em abril? Nada, eu vou continuar tocando barco, não vou apresentar uma carta de renúncia, não vou me descompatibilizar e vou focar num projeto de longo prazo de São Paulo com o meu time”, afirmou.
Tarcísio não explicou quais foram os compromissos que o impediram de comparecer à cela de Bolsonaro, no 19° Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, em Brasília. Na sua agenda, constou a informação de que o governador se ocupou de “despachos internos”.
TROCA DE SECRETÁRIOS – Ainda na quinta, ao final do dia, o governo anunciou uma troca dupla no secretariado, com o chefe da Casa Civil, Arthur Lima, deslocado para a Secretaria da Justiça, no lugar de Fábio Prieto, e substituído no cargo pelo presidente estadual do Republicanos, Roberto Carneiro. Lima vivia desgastes com partidos como o Progressistas, prefeitos do interior e aliados do governo que reclamavam de falta de diálogo.
O governador afirmou que a mudança entra na previsão de baixas pelo ano eleitoral e que sentiu a necessidade de colocar um nome de maior traquejo político na Casa Civil, responsável pela liberação de emendas e relacionamento com os deputados da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp). Lima cogita concorrer a deputado federal pelo União Brasil em outubro. Já Prieto pediu desligamento para retornar à advocacia.
“O Arthur é um cara técnico, fez um trabalho de estruturação da Casa Civil, de informação e de reorganização administrativa, e agora eu preciso de um perfil um pouco mais político para organizar a jornada que vem. O Roberto Carneiro vai me ajudar nisso. Ele vai ser uma pessoa de confiança dentro do Palácio para tratar dessas questões com os partidos e os prefeitos”, aponta o chefe.
MENSAGEM – O Globo apurou com deputados da base aliada na Alesp que Prieto encaminhou uma mensagem comunicando a saída de forma repentina, ainda na segunda-feira. Existe a impressão, entre alguns deles, de que demonstrava cansaço com a função pública. “Voltarei para a advocacia, não há mistério”, escreveu o agora ex-secretário.
A troca por Lima, contudo, foi lida como uma forma de destensionar a relação com os parlamentares e os prefeitos no interior que vinham no aliado um perfil duro e com “mão de ferro”. Há reclamações frequentes sobre o ritmo de assinatura de convênios e liberação de emendas dos deputados para o interior, com valores pendentes ainda do ano passado.
Deputados que acompanham de perto a execução orçamentária dizem que a Fazenda apertou as contas do estado no ano passado devido a instabilidades na previsão de arrecadação. Um aspecto relevante para isso foi o tarifaço anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, sobre as exportações de produtos brasileiros aos Estados Unidos.
INFLUÊNCIA – Carneiro é uma figura influente no interior do estado e costumava acertar agendas do governador Tarcísio com prefeitos antes de ser nomeado para a Casa Civil. Ele também é um nome de confiança do presidente nacional do partido, o deputado federal Marcos Pereira. O novo secretário ocupou o mesmo cargo no Espírito Santo, durante o governo de Paulo Hartung.
Além de controlar o ritmo dos repasses em ano eleitoral, ele tem pela frente o desafio de encaminhar um projeto de regulamentação da Lei Orgânica da Polícia Civil, que está atrasado desde o ano passado, sob responsabilidade de um grupo de trabalho liderado pela pasta. Um parlamentar próximo do Palácio diz que há risco de a proposta ficar para o próximo mandato por conta das divergências com associações do setor.
OUTRAS BAIXAS – Tarcísio deve anunciar outras baixas no secretariado até 4 de abril, prazo final para que futuros candidatos nas eleições deixem os cargos no Executivo. No Turismo, Roberto de Lucena será substituído pela empresária Ana Biselli. Ainda não se tem a informação de quem entrará no lugar da secretária de Esportes, Coronel Helena.
Outro que tem situação indefinida é Gilberto Kassab, presidente do PSD, que chefia a secretaria de Governo. “Eu não sei exatamente o que ele vai fazer, se ele tem intenção de concorrer ou não. Fico aguardando os próximos passos dele”, anunciou Tarcísio no mesmo evento.