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Censura à imprensa: quando o ataque à informação ameaça a democracia
A recente decisão de um juiz do Amazonas que censura uma reportagem sobre um diretor do Incra e um projeto de crédito de carbono é mais um sinal alarmante de que a liberdade de imprensa segue sob ataque no Brasil. O caso expõe uma realidade incômoda: a censura não é um problema isolado, nem restrito a pequenas cidades ou contextos locais. Ela aparece onde há poder, interesses econômicos e medo da verdade.
Ainda bem — ou talvez infelizmente — não é só em Jeremoabo que se tenta calar a imprensa. Quando grandes veículos nacionais também sofrem censura, o problema ganha outra dimensão: deixa de ser local e passa a ser institucional, atingindo o direito coletivo à informação. Censurar jornalistas é impedir que a sociedade tenha acesso aos fatos, é travar o debate público e enfraquecer a democracia.
Por mais que se tente justificar decisões desse tipo com argumentos jurídicos ou técnicos, a realidade é simples: quem censura a imprensa censura o povo. Impede que a população seja informada, que questione, que fiscalize e que forme sua própria opinião. Trata-se de uma mordaça covarde, injustificável sob qualquer aspecto.
Neste episódio específico, há um elemento que provoca reflexão crítica: a censura atinge a Folha de S.Paulo, um dos maiores jornais do país. Isso não muda o fato de que a censura é errada — nenhuma censura é aceitável —, mas expõe uma ironia histórica que não pode ser ignorada.
A Folha, enquanto organização, colaborou diretamente com a repressão durante a ditadura militar, chegando a emprestar seus veículos para que o regime realizasse capturas e perseguições de militantes políticos. Esse fato histórico é documentado e não pode ser apagado. Além disso, o jornal sempre foi visto por parcelas da sociedade como defensor de interesses do mercado, muitas vezes adotando posições reacionárias e alinhadas às elites econômicas.
Ainda assim, é preciso deixar claro: nem mesmo a Folha merece ser censurada. A liberdade de imprensa não é um privilégio concedido a veículos “simpáticos” ou ideologicamente alinhados. Ela é um direito fundamental, válido para todos — inclusive para quem, no passado, falhou em defendê-la.
A censura nunca é pedagógica, nunca é justa e nunca fortalece a democracia. Pelo contrário: ela protege interesses obscuros, fragiliza instituições e empobrece o debate público. Hoje é um jornal; amanhã pode ser um site local, um blogueiro, um radialista ou qualquer cidadão que ouse “colocar a boca no trombone”.
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