
Novos elementos associam Toffoli ao Resort Tayayá
Pedro do Coutto
Nas últimas semanas, o cenário político-judicial brasileiro voltou a expor uma fratura sensível na relação entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a opinião pública. No centro dessa tensão está o ministro Dias Toffoli, relator das investigações que apuram suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master — um caso que, inicialmente restrito ao sistema financeiro, passou a adquirir contornos institucionais mais amplos.
Reportagens recentes de O Globo revelaram novos elementos que associam, ainda que de forma indireta, o nome do ministro a um empreendimento imobiliário de alto padrão, o Resort Tayayá, no Paraná, ligado a familiares e a fundos de investimento citados no contexto do escândalo.
COMPROVAÇÃO – Embora não haja, até o momento, comprovação de ilegalidade direta, a sobreposição entre relações pessoais, estruturas financeiras e a função de relatoria reacendeu o debate sobre imparcialidade, prudência institucional e aparência de neutralidade — valores centrais para a credibilidade de qualquer Corte constitucional.
A reação institucional foi rápida e coordenada. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, destacou que a atuação do relator segue os parâmetros constitucionais e que a Corte não pode se deixar capturar por pressões externas, reafirmando que “crises e adversidades não suspendem o Estado de Direito”.
O decano Gilmar Mendes, por sua vez, endossou o arquivamento, pela Procuradoria-Geral da República, do pedido de afastamento de Toffoli, interpretando a decisão como expressão do funcionamento regular das instituições. Formalmente, o sistema respondeu como previsto: o pedido foi analisado, a PGR entendeu não haver providência a adotar, e o STF reafirmou a confiança em um de seus membros.
CONFIANÇA SOCIAL – O problema, contudo, não se encerra no plano formal. Em democracias constitucionais maduras, a legitimidade das instituições não depende apenas da legalidade estrita de seus atos, mas também da confiança social que conseguem sustentar.
A insistência de novos pedidos de suspeição, a vocalização de críticas por parlamentares e o desconforto relatado nos bastidores do próprio Supremo indicam que o caso Master ultrapassou os limites de um episódio isolado. Ele toca em um ponto estrutural: a dificuldade histórica do STF em administrar situações em que a legalidade se mantém, mas a percepção pública se deteriora. Nesse terreno, a ausência de transparência suficiente — ainda que juridicamente justificável — pode corroer silenciosamente a autoridade da Corte.
CONFLITO DE INTERESSES – O dilema, portanto, não é apenas sobre a conduta individual de um ministro, mas sobre como o Supremo lida com conflitos de interesse reais ou aparentes em um ambiente de crescente polarização e desconfiança institucional. A defesa corporativa, compreensível sob a ótica da autonomia judicial, corre o risco de ser percebida como fechamento excessivo, alimentando narrativas de autodefesa e distanciamento da sociedade. Ao mesmo tempo, ceder a pressões políticas pode fragilizar a independência judicial, um pilar inegociável do Estado democrático de direito.
O caso Master expõe, assim, uma encruzilhada institucional. Ou o STF avança em mecanismos mais robustos de autocontenção, transparência e prestação de contas — especialmente em situações sensíveis que envolvem seus próprios membros —, ou continuará operando em um ciclo recorrente de crises de confiança. Em tempos de instabilidade política e erosão da credibilidade pública, preservar a legitimidade institucional exige mais do que decisões juridicamente corretas: exige sensibilidade democrática, prudência ética e a disposição de reconhecer que, para além da lei, a justiça também se sustenta na confiança que inspira.