sexta-feira, janeiro 23, 2026

Recuo de Tarcísio após sinalização eleitoral irrita aliados de Bolsonaro


Bolsonaristas classificaram como “estranho” o recuo

Luísa Marzullo
O Globo

O cancelamento da visita que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), faria nesta quinta-feira ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na unidade conhecida como “Papudinha” provocou irritação e desconfiança entre aliados do ex-mandatário. A sensação foi traduzida pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, que afirmou “esperar” que o recuo não tenha motivação eleitoral.

Nos bastidores, parlamentares bolsonaristas classificaram como “estranha” a decisão de recuar em meio ao clima de disputa na direita após o lançamento da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

PRIMEIRA CONVERSA – A visita havia sido autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e seria o primeiro encontro entre Tarcísio e Bolsonaro desde a prisão do ex-presidente. A agenda também marcaria a primeira conversa presencial entre os dois após Bolsonaro indicar Flávio como pré-candidato ao Palácio do Planalto, em dezembro.

A expectativa no entorno do ex-presidente era de um gesto com forte simbolismo político, com potencial de reforçar uma imagem pública de unidade e consolidar o alinhamento do governador ao núcleo bolsonarista.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que “espera” que o cancelamento tenha sido motivado apenas por razões de agenda. “Ele (Tarcísio) deve ter os motivos dele. Na primeira agenda autorizada pelo Alexandre de Moraes, eu também tive que remarcar. Não sei se teve motivo eleitoral. Espero que não. Flávio está consolidado”, afirmou.

DESCONFORTO – Interlocutores ouvidos pelo O Globo afirmam que o desconforto se aprofundou depois que Flávio antecipou publicamente que Bolsonaro diria ao governador que a hipótese presidencial estava descartada e que a reeleição em São Paulo seria prioridade estratégica para o bolsonarismo. No entorno de Tarcísio, a leitura foi de que a visita, antes tratada como demonstração de solidariedade pessoal, passaria a ter peso eleitoral.

Aliados do governador passaram a definir a visita como uma “armadilha” para colocá-lo sob cobrança pública de engajamento na campanha de Flávio, algo que ele não pretende assumir agora.

O incômodo, porém, não foi unânime. Uma ala do bolsonarismo avaliou que o recuo foi uma forma de evitar o enquadramento e manter margem de manobra diante da pressão interna. Esse grupo enxerga em Tarcísio um nome mais competitivo do que Flávio para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

CONSTRANGIMENTO – Nesse núcleo, a defesa mais explícita é de uma chapa presidencial encabeçada pelo governador, com Michelle Bolsonaro como vice. O vereador paulistano Adrilles Jorge (União Brasil-SP) avaliou que o episódio pode ter criado um constrangimento político para o governador num momento em que se discute a possibilidade de ele retomar ambições nacionais.

“O Tarcísio já declarou apoio ostensivo à candidatura de Flávio Bolsonaro. Fez isso de maneira pública. Mas, a partir do momento que ele ouve do Flávio que o Bolsonaro falou que as eleições presidenciais estão descartadas para ele, talvez crie um constrangimento. Tudo caminha para a candidatura, para a convergência em torno da candidatura do Flávio Bolsonaro. É só ter, da parte da família do Bolsonaro, um pouquinho mais de delicadeza, um pouquinho mais de tato em relação ao Tarcísio”, afirmou.

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