Por Pepe Escobar
Como a análise política se tornou alvo dos fakes da I. A.
‘Bem-vindos à I.A. transformando a Internet em uma máquina infernal voltada para o apagamento de significado, cultura e História, como o tecnofeudalismo quer' - 04 de janeiro de 2026
A I.A. vem, rapidamente, se espalhando como uma praga por todo o espectro da Internet. O que seria bastante previsível, considerando que o modelo Big Tech para a I.A. é o tecnofeudalismo, baseado no lucro e no controle mental/social, e não no compartilhamento/expansão do conhecimento e na criação de melhores condições para um coletivo de cidadãos bem-informados.
A I.A., em muitos aspectos, é a antítese da civitas. Antes da explosão da I.A., várias camadas da Internet já haviam sido distorcidas, conve…
[04:59, 22/01/2026] +55 21 98291-7055: Texto fundamental, o risco da I.A. É crescente.
[07:36, 22/01/2026] +55 21 99864-3341: Números em conflito. Afetos em disputa. A democracia medida sob tensão
* Paulo Baía
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg Nacional divulgada em janeiro de 2026 se apresenta como um documento sociologicamente revelador do Brasil contemporâneo. Trata-se de um ensaio empírico que reúne dados estatísticos, simulações eleitorais e indicadores de rejeição política, amplamente divulgado pela imprensa, disponibilizado ao público e registrado oficialmente no site do Tribunal Superior Eleitoral. Este ensaio sociológico apresenta integralmente as informações, os dados, os argumentos e as interpretações que emergem do relatório tal como ele foi oferecido ao debate público, mas os reinscreve em uma leitura crítica que recusa a ingenuidade numérica e recoloca os percentuais no interior da vida social concreta. O que está em jogo não é apenas quem lidera ou quem perde, mas o tipo de sociedade que se deixa entrever quando a política passa a ser vivida como experiência emocional extrema e quando a democracia é convertida em objeto de mensuração permanente.
Do ponto de vista estatístico, o levantamento se ancora em uma base formal sólida. São 5.418 entrevistas, margem de erro aproximada de um ponto percentual e nível de confiança de 95 por cento. Esses números conferem ao estudo uma densidade rara no mercado brasileiro de pesquisas de opinião. No entanto, estatística não é sinônimo de neutralidade sociológica. A técnica de recrutamento digital aleatório, o Random Digital Recruitment, carrega consigo uma promessa metodológica e uma aposta cultural. A promessa consiste em reduzir o constrangimento social, eliminar a figura do entrevistador e permitir respostas mais livres. A aposta reside na suposição de que o ambiente digital produz maior autenticidade subjetiva. Essa suposição é apenas parcialmente verdadeira. O silêncio da interação humana não dissolve conflitos internos, não apaga medos socialmente produzidos nem suspende hierarquias simbólicas internalizadas ao longo da vida.
Responder a uma pesquisa política é sempre um ato socialmente situado. Mesmo quando mediado por uma tela, o respondente carrega consigo sua história, suas lealdades, suas frustrações e suas feridas simbólicas. A técnica digital captura o momento da decisão declarada, mas não alcança o percurso afetivo que a antecede. Ela transforma a política em um gesto aparentemente simples, quando, na experiência vivida, esse gesto é atravessado por dilemas morais, pressões comunitárias e narrativas concorrentes. O método reduz certos vieses clássicos, mas cria outros, mais sutis, ligados à autoimagem do indivíduo, à sua relação com o espaço público e ao modo como ele deseja ser percebido, ainda que anonimamente.
A pós-estratificação estatística, amplamente utilizada para corrigir distorções demográficas e regionais, cumpre uma função técnica relevante, mas possui limites epistemológicos claros. Ela ajusta o que é mensurável, não o que é vivido. Sexo, idade, renda, escolaridade e região são variáveis fundamentais, mas não esgotam a experiência política. Não há ponderação capaz de corrigir integralmente o impacto desigual da desinformação, da religiosidade politizada, do consumo algorítmico de notícias ou da socialização em ambientes fortemente polarizados. O próprio relatório reconhece que sua metodologia minimiza interferências psicológicas. O verbo é preciso e, ao mesmo tempo, revelador. Minimizar não significa neutralizar. O núcleo afetivo da política permanece operando abaixo da superfície estatística.
É nesse contexto que a estabilidade de Lula nos cenários de primeiro turno deve ser compreendida. Oscilar entre 48 e 49 por cento em diferentes desenhos eleitorais não é apenas um dado técnico. É a expressão de um campo social relativamente consolidado, sustentado por memória histórica, identificação simbólica e percepção de risco. O voto em Lula aparece menos como adesão entusiástica a um programa e mais como gesto de contenção. Ele funciona como âncora em um ambiente percebido como instável. Trata-se de um voto defensivo, no sentido sociológico do termo. Um voto que protege fronteiras morais, institucionais e existenciais.
Quando a pesquisa substitui Lula por Fernando Haddad, a queda é imediata e consistente. Haddad aparece com cerca de 41 a 42 por cento das intenções de voto. Não se trata de rejeição extrema nem de fracasso pessoal. Trata-se da não transferibilidade integral do capital simbólico. O lulismo, enquanto fenômeno político, não se reduz a políticas públicas, alianças partidárias ou cargos institucionais. Ele é uma narrativa biográfica que articula ascensão social, resistência ao estigma e retorno ao poder. A pesquisa demonstra, com clareza estatística, que esse tipo de capital não se transfere automaticamente. A racionalidade eleitoral brasileira permanece ancorada em figuras, trajetórias e personagens, não em abstrações institucionais.
No campo oposicionista, o levantamento revela um paradoxo estrutural que atravessa a política brasileira contemporânea. Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro aparecem como variações de uma mesma matriz social. Cada um capta segmentos distintos de um eleitorado marcado pelo antipetismo, pelo ressentimento institucional e pela sensação de perda de status simbólico. Quando fragmentado, esse campo perde densidade eleitoral. Quando unificado, torna-se altamente competitivo. A pesquisa sugere que o problema central da oposição não é ausência de base social, mas dificuldade de coordenação simbólica e narrativa.
Nos cenários de segundo turno, essa estrutura se torna ainda mais visível. Lula vence todos os confrontos testados, mas por margens estreitas, sempre acompanhado por um contingente expressivo de indecisos, votos brancos e nulos. Aqui, a eleição deixa de ser escolha positiva e se converte em julgamento moral. O eleitor não se pergunta quem o representa melhor, mas quem ameaça menos sua identidade, sua segurança e sua visão de mundo. Essa lógica é característica de sociedades atravessadas pela polarização afetiva. O adversário político deixa de ser interlocutor legítimo e passa a ser percebido como risco existencial.
O dado mais revelador do levantamento está nos índices de rejeição. Jair Bolsonaro e Lula aparecem praticamente empatados como figuras rejeitadas por quase metade do eleitorado. Essa simetria não é casual nem conjuntural. Ela indica um sistema político organizado por fronteiras morais rígidas, no qual a política opera menos como arena de deliberação e mais como mecanismo de exclusão simbólica. A rejeição expressa negação do outro como parte legítima da comunidade política. Trata-se de um fenômeno de alta densidade sociológica, pois redefine o próprio sentido do conflito democrático.
Do ponto de vista psicológico, esse cenário produz eleitores menos permeáveis à argumentação racional e mais sensíveis a gatilhos emocionais. Escândalos, crises institucionais, discursos religiosos, episódios de violência e conflitos internacionais tendem a produzir efeitos amplificados, não porque informam, mas porque confirmam narrativas pré-existentes. A metodologia digital captura o resultado final dessas narrativas, mas não acompanha seu processo de formação. Ela vê o ponto de chegada, não o caminho. Isso cria a ilusão de estabilidade, quando, na realidade, o terreno pode estar repleto de tensões latentes.
A chamada terceira via aparece nos dados como fenômeno dependente do vazio. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Ratinho Jr. crescem apenas quando os polos centrais são artificialmente retirados do cenário. Esse crescimento não decorre de mobilização social intensa, mas da ausência momentânea de alternativas mais carregadas de significado. O dado sugere que a terceira via é mais um projeto de racionalização do sistema político do que uma força enraizada na experiência cotidiana do eleitorado.
Há ainda um elemento estrutural que exige maior ênfase analítica. A pesquisa transforma intenções individuais em agregados estatísticos, mas a política real opera por contágio social. Conversas familiares, ambientes de trabalho, igrejas, redes sociais e lideranças locais produzem dinâmicas que escapam à lógica do questionário. A estabilidade observada nos números pode esconder volatilidades prontas para emergir diante de choques econômicos, crises institucionais ou eventos simbólicos de grande impacto emocional. A estatística fotografa o presente. A política se move no tempo.
Outro aspecto incontornável é o efeito performativo das pesquisas. Levantamentos desse porte não apenas descrevem a realidade. Eles a influenciam. Ao cristalizar cenários, moldam expectativas, orientam estratégias de campanha e reforçam percepções de viabilidade ou inviabilidade. Em contextos altamente polarizados, esse efeito tende a intensificar o voto defensivo e a lógica do contra, reduzindo ainda mais o espaço para mediação, escuta e negociação simbólica.
Nada disso diminui o valor do relatório. Ao contrário. É precisamente sua qualidade técnica que exige uma leitura crítica à altura. O erro não está nos números, mas na tentação de tratá-los como destino inevitável. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg revela um Brasil suspenso entre grandes campos afetivos, com baixa capacidade de diálogo e alta densidade de rejeição. Revela uma democracia que funciona formalmente, mas opera emocionalmente sob estresse contínuo. Revela, sobretudo, que o desafio central da política brasileira em 2026 talvez não seja apenas a disputa entre candidatos, mas a reconstrução de um espaço simbólico comum no qual o conflito não seja vivido como ameaça absoluta. Em um país onde quase metade do eleitorado rejeita previamente o outro polo, a democracia deixa de ser apenas um conjunto de regras institucionais. Ela se transforma em um exercício permanente de contenção do colapso social.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ