segunda-feira, janeiro 19, 2026

A leitura como pena — ou quando os livros pedem habeas corpus

 

                                  Foto Divulgação - Redes Sociais


A leitura como pena — ou quando os livros pedem habeas corpus


Textos que já nascem com vocação para a crônica amarga. Este é um deles. A notícia de que Jair Bolsonaro pode reduzir pena lendo clássicos da literatura mundial não é apenas uma ironia histórica: é uma alegoria perfeita do Brasil recente. Um país onde a democracia precisou virar livro infantil para tentar ser compreendida, e onde a ignorância sempre foi tratada como virtude cívica, agora aposta na leitura como método de ressocialização de quem passou a vida combatendo as palavras.


Brasil adora essas cenas finais de novela ruim: o sujeito que desprezou o pensamento abstrato, que governou por frases curtas e vídeos verticais, agora condenado a enfrentar parágrafos. Muitos parágrafos. A literatura, essa velha senhora exigente, vira tornozeleira eletrônica da consciência.


O programa de remição pela leitura é civilizatório. O problema é o personagem. Bolsonaro nunca foi um anti-intelectual por acaso; foi por método. Desconfiava do livro porque o livro exige pausa, silêncio, ambiguidade três coisas que ele sempre confundiu com conspiração. Quando dizia que havia “texto demais” nos livros didáticos, revelava sem perceber uma confissão filosófica: texto demais obriga a pensar, e pensar desmonta slogans.


A lista de obras oferecidas pelo sistema penitenciário é quase uma curadoria sarcástica da História. “Ainda estou aqui”, memória da violência da ditadura que ele sempre defendeu; “Democracia”, explicado para crianças de 9 anos; “Crime e Castigo”, sobre a fantasia do homem que se julga acima da lei. Parece pouco acaso e muito roteiro.


A ideia de Bolsonaro escrevendo resenhas é tão improvável quanto Dom Quixote vencendo os moinhos. Não por incapacidade técnica apenas, mas por incompatibilidade ontológica. A resenha pressupõe interpretação, e interpretar é aceitar que o mundo não cabe inteiro na própria cabeça.

Quando imaginamos Bolsonaro lendo os clássicos, o riso vem antes da análise mas a análise vem logo depois, amarga.


Em Dom Quixote, onde Cervantes ironiza o delírio de grandeza, Bolsonaro veria apenas um louco combatendo inimigos imaginários. Não perceberia que o livro é justamente sobre isso: a tragédia cômica de quem troca realidade por fantasia ideológica.


Na Divina Comédia, Dante organiza o caos moral do mundo. Bolsonaro, fiel à sua gramática binária, transformaria o Inferno em esquerda, o Paraíso em seguidores, e o Purgatório num complô globalista. Dante choraria. Virgílio pediria exoneração.


Em Crime e Castigo, Dostoiévski desmonta a tese do “homem extraordinário”. Bolsonaro, ao contrário, sempre acreditou nela. Ler Raskólnikov seria como olhar no espelho e espelhos, sabemos, são perigosos para quem construiu a própria imagem à base de mitologia pessoal.


Ulisses, de Joyce, seria o castigo dentro do castigo. Fluxo de consciência para quem nunca teve intimidade com a própria consciência. A confusão entre Leopold Bloom e Ulysses Guimarães não seria apenas ignorância: seria sintoma.


Em Cem Anos de Solidão, a repetição trágica das gerações revela como o poder, quando não aprende, se condena a girar em círculos. Bolsonaro talvez se reconhecesse mas chamaria de perseguição.


Hamlet exige dúvida. E Bolsonaro nunca duvidou de si apenas dos outros. A tragédia shakespeariana é sobre hesitar antes de agir; o bolsonarismo sempre foi sobre agir antes de pensar.


E Kafka, claro, fecha com crueldade poética. A metamorfose como punição sem explicação. Gregor Samsa acorda inseto; Bolsonaro acorda leitor. Ambos igualmente perplexos.


No fim, a piada não é Bolsonaro lendo livros. A piada somos nós, que chegamos a um ponto da história em que a literatura precisa ser imposta como pena. Talvez funcione. Livros têm esse defeito maravilhoso: mesmo quando lidos por obrigação, às vezes escapam. Entram por uma fresta, desorganizam certezas, criam ruído onde antes havia apenas slogan.


Se isso acontecer, ainda que por acidente, a literatura terá vencido. Não por reduzir quatro dias de pena — mas por lembrar que palavras sempre foram mais perigosas do que armas para quem tem medo de pensar.


Alessandra A. Del'Agnese


@destacar

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