Olá,
Perdoem o “amostramento”, sou pernambucano. E como os quase 10 milhões de seres agraciados com a sorte de nascer nesta terra, quase não piso no chão nesta semana. A lista de motivos para se orgulhar de ser do centro cultural do universo sempre foi a maior em linha reta da galáxia e vai além do sotaque mais bonito do país, mas sempre há quem tente reduzir a região a uma farofa de pobreza e sertão, consumida com camadas de bolo de rolo ao som de um frevo que não toca nas rádios.
O Globo de Ouro premiar “O Agente Secreto” duas vezes é um recado gringo sobre o que sai da capital do cinema, título que mesmo os compatriotas brazucas há anos rejeitam.
Não é exagero, nem figura de linguagem, é pernambucanidade. Pode chamar de arrogância.
E ainda assim, minha emoção, sentida ao assistir ao filme pela primeira vez, experimentada novamente ao ver Kleber Mendonça Filho no palco do Beverly Hilton, em Los Angeles, tinha menos a ver com meu estado e mais com meu ofício.
Pra mim, “O Agente Secreto” sempre foi sobre jornalismo.
Eu acompanhava Kleber no Caderno C, do Jornal do Commercio, enquanto eu começava na profissão, no Diario de Pernambuco. Eu o achava um chato. Ele não curtia um filme sequer que eu gostava, detonava com elegância e falava belamente de obras que eu teria, no mínimo, como 26ª opção para o fim de semana. E trocava ideia com o hoje também cineasta Júlio Cavani, nosso repórter de cinema no jornal “mais antigo em circulação na América Latina” – sim, nosso abuso não é só marketing, é identidade também. E acompanhava cada resenha dos dois. Muitas vezes para chegar à conclusão “eu só posso estar doido”, ao vê-los concordar sobre alguma obra que eu havia detestado.
Mas essa é a questão: é possível discordar, achar chato e, ainda assim, reconhecer a importância, a competência, admirar o trabalho, mesmo envolto no Fla-Flu, ou melhor, no Sport x Santa Cruz jornalístico. No último domingo, vibrei como num estádio. Me emocionei com a imagem de amigos fazendo o mesmo, aos montes. Com bares cheios, gente chorando. Pernambuco numa Copa do Mundo, meus caros. E vencendo!
Ser pernambucano é lidar com uma realidade fantástica que te assombra em cada referência. A Perna Cabeluda, inserida em “O Agente Secreto” de modo magistral (que até agora eu não entendo como pode uma loucura daquela “funcionar” na telona), por exemplo, aterrorizou de verdade famílias pernambucanas. E quase levou um outro colega, da Rádio Jornal, Jota Ferreira, à prisão. A ele é creditada a criação da figura mítica que atacava amantes no Parque 13 de Maio, no Centro do Recife.
A fábula acabou sendo usada também como uma cifra, uma forma de dar cara de sobrenatural ao trabalho de militares a serviço da ditadura e fazer o absurdo ser aprovado pela censura em forma de notícia. Uma mentira, publicada nos jornais, que fez muitas crianças chorarem, e que estrela a obra que deve levar o estado (eu sei, o país, me deixe) ao Oscar.
Minha antiga casa, o Diario, também é personagem no filme. Vai ali ajudando a ditar o tempo e fornece pistas sobre a história do professor Armando, em sua derradeira tentativa de fuga. É a ficção usando a credibilidade documental para dar veracidade ao que se ouve e vê.
São a recortes e registros em áudio que duas pesquisadoras recorrem para juntar cacos da história do protagonista para tentar desbravar o que seria apenas mais uma vítima da ditadura – a real, que muitos insistem em chamar de ficção e que, todos os anos, insistimos aqui na Pública em revisitar, lembrar e descobrir novos detalhes pouco humanos. As duas quase vão fazendo o que nossa redação faz todos os dias: catando informações, juntando pontas soltas, investindo em personagens, ouvindo gente e com um esforço coletivo de registrar a história, dando nome aos pistoleiros, latifundiários do agro, engravatados, desmatadores e violadores dos direitos humanos, em vez de atribuir qualquer terror a pernas sem donos, com pelos ou sem. E se em plena democracia estamos censurados há mais de 2 anos, o que imaginar do tempo dos orelhões de fichas?
Em tempos de amnésia seletiva e verdades relativas, para mim, “O Agente Secreto” é sobre jornalismo, sobre a busca e a recusa ao esquecimento e à negação do passado. Kleber, jornalista, criou um Armando/Marcelo como lembrete das vidas não apenas perdidas, mas protagonistas de histórias que poderiam facilmente deixar de ser contadas e passar a eternidade desconhecidas até por famílias desavisadas.
É sobre se importar de levar informações até a quem simplesmente não a deseja, bem como a quem se incomoda com ela, porque alguém tem que fazê-lo e porque merecem ser contadas. É sobre isso que fazemos todos os dias, mesmo quando parece sem valor, para que o futuro tenha curadoria, contexto, emoção e realidade, do Brasil, do mundo e de Pernambuco (sim, nessa ordem). A quem se pergunte até agora onde estaria o agente secreto do filme, apresento os nossos aqui da Pública, uma equipe inteira, cheia de molho, apresentando roteiros reais que valeriam outros globos de ouro só de pirraça.
Se você acredita no valor das nossas histórias e no roteiro que a gente ajuda a escrever pro Brasil — um roteiro soberano, sem censura e sem amarras com o poder — considere que sua contribuição é um globo de ouro pra gente. Você não tem ideia do quanto valorizamos os nossos Aliados e apoiadores. Chega mais!