PF cita esquema de compra de voto com participação de promotor irmão de prefeito de Macapá
Conselho do Ministério Público afastou João Paulo Furlan e iniciou processo disciplinar
Por Fábio Zanini/Folhapress
16/01/2026 às 17:30
Foto: Divulgação/Ministério Público do Estado do Amapá
Promotor João Paulo Furlan foi afastado pelo CNMP em meio a investigação sobre crimes eleitorais
Uma investigação da Polícia Federal sobre o promotor João Paulo Furlan, irmão do prefeito de Macapá, Dr. Furlan (MDB), cita mensagens sobre compra de votos com cestas básicas e gasolina com Gleison Fonseca da Silva, suspeito de praticar crime eleitoral.
O promotor foi afastado por 60 dias pelo CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), de acordo com decisão publicada na edição de terça-feira (13) do diário eletrônico do órgão. Gleison aparece na página da Prefeitura de Macapá como ouvidor-geral.
Em dezembro de 2020, Gleison foi abordado por policiais federais com R$ 1.210 em espécie, além de um celular e um bloco de adesivos e um de santinhos do prefeito, eleito pela primeira vez para comandar Macapá naquele ano. O agente administrativo disse que o dinheiro era de seu 13º salário e que seria usado para o pagamento de aluguel e internet.
Em fevereiro de 2021, a Justiça Eleitoral autorizou a extração e análise dos dados do celular apreendido com Gleison. Dentre as conversas que apontariam uma suposta compra de votos estão algumas entre o suspeito e o promotor.
Em uma delas, o irmão do prefeito, que chama Gleison de Coló, diz que uma mulher ligaria para ele. "Entrega 13 (cestas básicas) para ela, tá, que ela vai pegar contigo. Vou te mandar o número dela", segundo trecho disponível no material da PF.
O relatório diz que, ao analisar a conversa entre o suspeito e o promotor afastado, "é possível comprovar os laços de amizade que existe (sic) entre ambos, sendo crível inferir que Gleison seria o 'homem de confiança' de João para tratar de assuntos referentes a política".
"Ainda, verifica-se que João seria um dos responsáveis pela articulação da campanha do Dr. Furlan, enviando mensagens para que Gleison publicasse em suas redes sociais e até mesmo dar algumas respostas para jornalistas que não eram alinhados as ideias de seu irmão", continua a PF.
"Aparentemente João foi um dos responsáveis financeiros da mesma campanha, pois nos trechos acima expostos infere-se que tenha havido pagamentos ordenados por ele, compra de cestas básicas para distribuição bem como acerto de abastecimento com motoristas para transporte de eleitores. Ademais, na mídia analisada existem diversos comprovantes de transferência bancária entre Gleisson e João Furlan", sustenta a PF.
Segundo a investigação, "não há nos autos, até o momento, indícios de que o mesmo utilizaria seu cargo para a realização dos crimes".
Procurado, o promotor informou que não poderia se manifestar sobre o processo, porque está sob sigilo.
Politica Livre
Nota da redação deste Blog - Ainda podemos acreditar nas instituições?
A pergunta que ecoa na consciência do cidadão brasileiro é dura, mas necessária: ainda podemos acreditar nas instituições, quando a corrupção parece ter alcançado os três Poderes da República? Infelizmente, os fatos que se acumulam no noticiário nacional reforçam um sentimento crescente de descrença, indignação e cansaço moral.
Recentemente, veio a público uma investigação da Polícia Federal envolvendo o promotor de Justiça João Paulo Furlan, irmão do prefeito de Macapá, Dr. Furlan (MDB). Segundo as apurações, mensagens apontariam para a prática de compra de votos por meio da distribuição de cestas básicas e gasolina, em diálogo com Gleison Fonseca da Silva, figura que, de forma ainda mais preocupante, consta no site oficial da Prefeitura de Macapá como ouvidor-geral do município. O promotor foi afastado de suas funções por 60 dias por decisão do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o que demonstra a gravidade dos indícios e a necessidade de apuração rigorosa.
O caso, por si só, já seria suficiente para causar perplexidade. Contudo, ele se torna ainda mais simbólico quando se observa o contexto mais amplo: denúncias recorrentes envolvendo membros do Executivo, do Legislativo e, agora, do próprio sistema de Justiça, instituição que deveria ser o último bastião de confiança da sociedade. Quando aqueles que têm o dever constitucional de fiscalizar, acusar e defender a legalidade passam a figurar como suspeitos de crimes eleitorais, o abalo institucional é profundo.
É nesse cenário que a célebre reflexão de Rui Barbosa soa atual e quase profética:
“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Essa não é apenas uma frase histórica; é um alerta permanente. Quando a impunidade se repete, quando escândalos se sucedem sem respostas rápidas e exemplares, o cidadão comum passa a se perguntar se vale a pena ser correto em um sistema que parece premiar os desvios e punir a honestidade.
Ainda assim, é preciso fazer uma distinção essencial: as instituições não se confundem com os indivíduos que, momentaneamente, as ocupam. A atuação da Polícia Federal e a decisão do CNMP de afastar o promotor investigado demonstram que, apesar das falhas e contradições, ainda existem mecanismos de controle funcionando. O problema não é a inexistência de instrumentos legais, mas a lentidão, a seletividade e, muitas vezes, a falta de rigor na aplicação da lei.
A reconstrução da confiança institucional passa, necessariamente, por três pilares: investigação séria, transparência absoluta e punição proporcional e isonômica, doa a quem doer. Sem isso, a democracia se fragiliza, o descrédito se aprofunda e a sociedade corre o risco de normalizar o inaceitável.
Acreditar nas instituições hoje não é um ato de ingenuidade cega, mas de vigilância ativa. Cabe ao cidadão acompanhar, cobrar, denunciar e exigir que a lei seja a mesma para todos. Somente assim será possível impedir que a amarga constatação de Rui Barbosa deixe de ser um alerta e se transforme, de vez, em uma sentença definitiva sobre o Brasil. (Por José Montalvão)