
Caso exige uma revisão dos mecanismos de supervisão
Pedro do Coutto
A história recente do Banco Master ilustra uma realidade que deveria ser evitada em um sistema financeiro moderno: a incapacidade do regulador — o Banco Central (BC) — de perceber, a tempo, que uma instituição estava incapaz de honrar suas obrigações. O resultado é a liquidação de um banco cujos desafios de liquidez e sinais de risco não só estavam visíveis como vinham sendo discutidos há meses, mas não foram tratados com a velocidade e a firmeza necessárias.
Para o cidadão comum, isso pode parecer uma briga técnica entre autoridades e banqueiros. Para os investidores e clientes que confiavam suas economias ao banco, é uma questão de confiança: dinheiro que poderia estar rendendo, financiando a educação de um filho ou servindo de reserva para um imprevisto agora está retido em um processo que pode levar meses — senão anos — até que qualquer reembolso seja efetivado.
TÍTULOS DO MASTER – Essa situação agrava-se quando lembramos que muitas pessoas aplicaram seus recursos em títulos do Master por acreditarem na garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), um mecanismo criado exatamente para evitar calotes generalizados no sistema financeiro privado.
A grande questão política e econômica aqui não é apenas que o banco não conseguiu honrar seus compromissos — o fato em si já seria grave o suficiente. O problema é que a fragilidade do Master se manifestou em operações absolutamente atípicas, envolvidas em circuitos financeiros complexos e suspeitos. Reportagens recentes revelaram que um dos fundos ligados ao grupo financeiro recebeu R$ 450 milhões em crédito oriundos de uma operação com o Master e, em apenas 20 dias, viu seu patrimônio multiplicar-se em cerca de 30 mil vezes.
Tal valorização desproporcional foge a qualquer padrão de mercado e foi registrada apenas nos papéis contábeis daquele fundo, sem que ganhos reais pudessem justificá-la — algo que já está sendo investigado pelo próprio Banco Central e pelo Ministério Público Federal (MPF).
FALHA REGULATÓRIA – O cerne político dessa crise é que a lógica de expansão rápida e de captação de recursos a qualquer preço, muitas vezes sem a devida diligência de risco, não é apenas uma falha de mercado: é também uma falha regulatória. O BC é, em tese, o guardião da estabilidade do sistema financeiro brasileiro.
Cabe a ele acompanhar com rigor os balanços, a saúde financeira e a capacidade de pagamento dos bancos. Mas, no caso do Master, sinais de alerta — como o volume anormal de operações com fundos de investimento atípicos e a dependência de receitas para cobrir vencimentos — não foram suficientemente inibidos antes que a crise se transformasse em colapso.
Os reflexos dessa omissão são múltiplos. Clientes do Master — muitos de classes médias e pequenas investidoras — enfrentam agora a incerteza de seus créditos enquanto aguardam a atuação do FGC, cujo papel é ressarcir até R$ 250 mil por investidor. Mesmo assim, o processo demanda tempo, e recursos que poderiam estar ativando a economia estão congelados.
CONFIANÇA PÚBLICA – Além disso, a própria investigação criminal envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente no ano passado sob acusações de gestão fraudulenta e operações que mascararam a verdadeira situação do banco, reforça que não se tratou de um problema de mercado qualquer, mas de práticas que violam a confiança pública.
Há também um componente ainda mais profundo: o impacto na credibilidade das instituições. Quando um regulador demora a agir, quando os mecanismos de supervisão parecem incapazes de identificar riscos estruturais e quando esquemas financeiros manifestamente atípicos são autorizados a circular sem intervenção tempestiva, o resultado é a erosão da confiança na regulação, algo que pode ter consequências duradouras para a economia como um todo.
TRANSPARÊNCIA – É fundamental que as autoridades responsáveis pelo sistema financeiro se debrucem sobre o caso Master não apenas para lidar com os efeitos imediatos, mas para aprender as lições que ele oferece. Isso inclui uma revisão rigorosa dos mecanismos de supervisão, maior transparência nas operações dos bancos, e um aperfeiçoamento dos instrumentos que permitem ao BC agir preventivamente diante de sinais claros de risco sistêmico. Afinal, a estabilidade financeira é uma conquista coletiva — não pode ficar refém de omissões ou interpretações excessivamente brandas da função regulatória.
O que está em jogo não é apenas o destino de um banco ou de seus investidores, mas a confiança da sociedade em todo o arcabouço que sustenta o crédito, a poupança e, em última instância, o crescimento econômico. A política monetária e a regulação financeira não são abstrações — são pilares concretos da vida econômica, capazes de tocar o bolso e os planos de milhões de brasileiros. E, quando falham, a conta acaba sendo paga por quem menos tinha a ver com o problema.