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Tecnologia redefine poder, soberania e o futuro das nações
Marcelo Copelli
Le Monde Diplomatique Brasil
Nas últimas décadas, poucas inovações despertaram tanto entusiasmo quanto a inteligência artificial, inicialmente celebrada como símbolo de eficiência e progresso. À medida que saiu dos laboratórios para moldar mercados financeiros, plataformas de comunicação, sistemas de defesa e políticas públicas, tornou-se evidente que seus impactos extrapolam o campo técnico e alcançam o núcleo da política global.
A IA não representa apenas a culminação da transformação digital: inaugura uma nova etapa da competição internacional, na qual o domínio sobre dados, padrões tecnológicos e infraestrutura computacional converte-se em vantagem estratégica, redefinindo alianças e deslocando o equilíbrio de poder. O mercado global de inteligência artificial já vale centenas de bilhões de dólares e projeta crescimento acelerado, com investimentos privados e públicos concentrados em poucas potências – evidência clara de que a disputa tecnológica se tornou, também, um instrumento de hegemonia global.
DISPUTA GEOPOLÍTICA – O que emergiu como promessa de modernização tornou-se o epicentro de uma das mais decisivas disputas geopolíticas desde a Guerra Fria. Essa nova etapa ultrapassa os limites da inovação corporativa ou da automação industrial; ela redefine soberanias, altera a natureza da governança e desloca as fronteiras do que significa exercer influência internacional. O controle das arquiteturas digitais concede capacidade não apenas de dominar mercados, mas de condicionar democracias, moldar narrativas e direcionar comportamentos sociais.
Pela primeira vez, uma tecnologia afeta simultaneamente segurança nacional, economia, cultura e valores – e transforma o próprio conceito de poder. A rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China cristaliza essa transição.
Enquanto o relatório AI Index 2025 mostra que os EUA lideram em private investment e produção de tecnologias fundamentais, a China se aproxima rapidamente em capacidade de desenvolvimento e desempenho em benchmarks de inteligência artificial. Washington e Pequim disputam semicondutores, cadeias produtivas, computação avançada e padrões regulatórios, convertendo o domínio tecnológico em pilar de segurança nacional. O controle da IA tornou-se instrumento de política externa, ferramenta de influência e variável determinante na definição de dependências internacionais.
APOSTA – Nesse contexto, a União Europeia enfrenta sua encruzilhada: embora reconhecida como líder em governança ética e proteção de dados, sua participação em pesquisa e produção ainda fica atrás de gigantes tecnológicos de outras regiões. A estratégia europeia aposta em regulação e marcos legais para mitigar assimetrias e proteger direitos, na tentativa de equiparar soberania digital às capacidades tecnológicas.
As implicações sociais da IA são igualmente profundas – e mensuráveis. Segundo relatório da ONU UNCTAD, até 40% dos empregos no mundo podem ser impactados pela adoção acelerada dessa tecnologia até 2033, com risco de aprofundar desigualdades caso políticas de requalificação e inclusão não sejam implementadas. A promessa de aumento de produtividade convive com a ameaça de concentração de renda e exclusão de grande parcela da força de trabalho, especialmente em países com menor capacidade de adaptação tecnológica e educacional.
No campo da informação, o controle de grandes volumes de dados confere capacidade de influenciar comportamentos, modular preferências e moldar debates públicos. Plataformas digitais acumulam poder que ultrapassa estruturas tradicionais de controle social e político e, sem transparência, podem erodir os pilares democráticos. A IA não é apenas ferramenta: é infraestrutura de governança capaz de reforçar vigilância, polarização e concentração de poder.
DESAFIOS – O Brasil, inserido nesse cenário, enfrenta desafios e oportunidades. Sua posição estratégica dependerá menos da importação de soluções e mais da construção de autonomia tecnológica, formação especializada e marcos éticos robustos. O potencial científico, a biodiversidade, o agronegócio, o setor energético e as universidades constituem ativos relevantes; porém, a ausência de políticas estratégicas pode transformar vantagens competitivas em dependências estruturais.
A América Latina, por sua vez, ocupa posição emblemática: vulnerável às desigualdades que a IA pode amplificar, mas também capaz de utilizá-la como salto de desenvolvimento – saúde, educação, agricultura, monitoramento ambiental e gestão urbana representam áreas de aplicação com impacto transformador.
A governança internacional torna-se imprescindível. Nenhuma nação administrará isoladamente os efeitos globais da IA. O risco de fragmentação tecnológica pressiona instituições multilaterais a articular normas que reflitam valores universais – transparência, equidade, direitos humanos – e impeçam que assimetrias se convertam em novos regimes de dependência.
DEBATE – Em última análise, a disputa global pela inteligência artificial transcende o fascínio pela inovação e concentra o debate sobre qual modelo de sociedade deverá prevalecer: um em que algoritmos ampliem cidadania, democratizem conhecimento, fortaleçam transparência e promovam inclusão, ou um sistema em que a tecnologia consolide novas formas de concentração de poder, intensifique vigilância e aprofunde desigualdades.
O futuro não será resultado de inevitabilidades técnicas, mas de escolhas políticas, institucionais e sociais – da capacidade de estruturar marcos éticos que priorizem direitos humanos, soberania digital e justiça social. A IA pode ser instrumento de emancipação ou dominação; ao definir se a tecnologia servirá às pessoas ou as governará, determinar-se-á não apenas o equilíbrio de poder internacional, mas o próprio sentido de liberdade no século XXI.