
Haddad, Alckmin e Tebet são cotados para disputa
Jeniffer Gularte
O Globo
O lançamento da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência acirrou os debates no PT sobre qual a melhor estratégia para enfrentar em São Paulo o governador Tarcísio de Freitas, mais próximo de concorrer à reeleição diante da escolha feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em favor do filho. O desejo de reeditar neste ano a frente ampla de 2022, agora numa versão paulista, com o vice Geraldo Alckmin e os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento), também reabriu discussões sobre o companheiro de chapa de Lula.
A eleição contra Tarcísio é vista pelo PT como difícil de vencer. O objetivo real do partido é manter o patamar de votação semelhante ao alcançado em 2022, quando o governador venceu por 55,27% dos votos, contra 44,73% de Haddad. Na última eleição, Lula fez 4,3 milhões a mais de votos no estado do que em 2018, quando Haddad concorreu à Presidência.
PANORAMA – Parte do entorno presidencial credita a vitória apertada do petista nas urnas contra Bolsonaro ao desempenho do petista em São Paulo. Para esse grupo, é preciso trabalhar para que Tarcísio não se aproxime de uma faixa próxima de 60% dos votos, puxando a votação do candidato bolsonarista à Presidência no maior colégio eleitoral do país. É com base nesse panorama que os cenários vêm sendo discutidos.
Auxiliares de Lula afirmam que tanto Haddad quanto Alckmin orbitam na cabeça do presidente como opções competitivas para enfrentar Tarcísio. O chefe do Executivo, no entanto, enfrentará barreiras distintas para viabilizar qualquer uma das duas opções. Procurados, o ministro da Fazenda e o vice não se manifestaram.
DISPUTA – Haddad já disse a Lula e tem repetido a petistas que não concorrerá em 2026, depois de ter enfrentado três eleições no pior momento do PT, sendo derrotado em todas (2016, 2018 e 2022). O ministro da Fazenda prefere contribuir com o programa de governo de Lula em um eventual próximo mandato. O nome dele também é citado como um possível chefe da Casa Civil, em caso de reeleição de Lula. “O Haddad tem maioridade e biografia para decidir o que quer fazer”, disse Lula em dezembro.
Já Alckmin teria que ser retirado do cargo de vice para enfrentar uma disputa em que poderia sair derrotado no estado que governou quatro vezes. A eventual saída abriria um vácuo na chapa diante de incertezas de apoio integral de siglas do centrão. Lula e o presidente do PT, Edinho Silva, têm repetido que Alckmin será “o que ele quiser” nas eleições, seja vice ou em outra missão.
Petistas com acesso a Lula afirmam que o presidente não vai forçar uma ou outra opção, mas atuará na ação de convencimento. Também pontuam que a proximidade do pleito contará a favor dos planos de Lula. Uma ala majoritária do PT defende Haddad como nome preferencial ao governo de São Paulo, inclusive com o argumento de que Alckmin deve ser preservado no posto em que já está.
ALIANÇA – Para esse grupo, só faz sentido mudar a composição em nome de uma ampliação maior da aliança eleitoral, com partidos como MDB e PSD. Por enquanto, não há horizonte para apoio total dessas legendas, e o PT trabalha para ter neutralidade e apoios pontuais pelos estados.
Esse grupo argumenta que o PT deve ter um nome próprio ao Bandeirantes que puxe votos para Lula. Há ainda a visão de que é o candidato ao Executivo local o “chefe da campanha” no estado, não o postulante ao Senado. Outra ala do partido, no entanto, vê Alckmin como candidato mais forte para fazer frente a Tarcísio, com mais capacidade de captar votos para Lula, inclusive no eleitorado bolsonarista, e ter melhor desempenho em cidades pequenas.
PROXIMIDADE – Alckmin é próximo de diversos prefeitos do interior paulista e fez uma gestão na Vice-Presidência e no Ministério da Indústria e Comércio sem se distanciar dos chefes dos Executivos municipais, com hábito de recebê-los em Brasília.
Dentro desse desenho, Haddad é colocado ao Senado. Petistas afirmam que essa montagem convenceria mais facilmente o titular a disputar um cargo majoritário, por se tratar de uma campanha menos “sangrenta” e pela tradição do PT de eleger senadores em São Paulo.
TEBET GANHA ESPAÇO – Outra peça importante no tabuleiro de São Paulo é Simone Tebet, cotada em cenários como candidata a senadora ou a vice-governadora. Dentro da chapa, seria o nome mais ao centro e com capacidade de buscar um eleitor que não vota tradicionalmente no PT. Se antes era irredutível sobre trocar domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul, estado onde já foi vice-governadora e eleita senadora, agora Tebet já admite transferi-lo para São Paulo.
Segundo interlocutores, a ministra ficou animada depois da demonstração de apoio que recebeu em um jantar promovido pelo Grupo Prerrogativas, em São Paulo. Procurada, Tebet não se manifestou.
DESAFIO – A ministra já avisou ao seu grupo político que estará com Lula em 2026 e que topará o desafio que ele propor. Petistas próximos ao presidente asseguram que Tebet está animada com a ideia de concorrer por São Paulo e toparia o Senado. Petistas descrevem Tebet como ministra afinada com Lula e como nome viável para ocupar a vice, se Alckmin disputasse outra vaga.
Os planos de Tebet, no entanto, encontram obstáculos na cúpula do MDB. Desde 2022, o partido apoia Tarcísio em São Paulo. E o presidente estadual do MDB, Rodrigo Arena, está organizando apoio à reeleição do governador. Na prática, emedebistas não veem chance de Tebet disputar o Senado por São Paulo pela sigla com apoio de Lula. Assim, aliados da ministra admitem inclusive a possibilidade de mudança de legenda.