
Estratégia foi anunciada num momento de intensa tensão
Pedro do Coutto
No início de 2026, a administração do presidente Donald Trump escancarou uma nova fase na relação entre os Estados Unidos e a Venezuela, que vai muito além de sanções pontuais ou discursos ideológicos. A Casa Branca anunciou um acordo pelo qual Caracas usará as receitas derivadas do petróleo exclusivamente para comprar produtos fabricados nos Estados Unidos, incluindo itens agrícolas, medicamentos e equipamentos industriais — uma exigência que formaliza o que é, na prática, um controle direcionado da economia venezuelana pelo governo norte-americano.
Essa estratégia foi anunciada num momento de intensa tensão internacional após a operação militar americana que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro — um movimento justificado pelo governo Trump como parte de uma luta contra o “narco-terrorismo”, mas que, para muitos analistas, revela a busca por vantagem geopolítica e econômica sobre um país rico em recursos naturais e historicamente estratégico.
VINCULAÇÃO – A imposição de uma lógica de compras exclusivamente americanas não é uma simples política comercial: ela conecta dois pilares do poder dos EUA — a capacidade de regular mercados globais e de influenciar profundamente a soberania econômica de um país vizinho. Ao vincular receitas fundamentais da Venezuela às exportações e produtos estadunidenses, Washington não apenas favorece indústrias americanas, mas também redefine o espaço de manobra político e econômico de Caracas no curto e médio prazos.
Historicamente, as tensões entre os dois países não são novidade. Desde o primeiro governo Trump, sanções e restrições ao setor petrolífero venezuelano foram utilizadas como ferramenta de pressão sobre o governo de Maduro, com bloqueios de bens, tarifações secundárias e até cancelamento de licenças operacionais de empresas como a Chevron.
No entanto, a recente exigência de que a Venezuela use exclusivamente recursos petrolíferos para adquirir produtos norte-americanos — com os rendimentos controlados em contas sob supervisão americana — marca um salto qualitativo nesse relacionamento assimétrico. Ao mesmo tempo que Trump afirma que a medida beneficiará o povo venezuelano e fortalecerá laços comerciais, o desenho dessas regras reduz significativamente a autonomia tradicional de Caracas em decidir seu destino econômico e políticas públicas.
NEOCOLONIALISMO – Enquanto os defensores dessa abordagem argumentam que o modelo é uma forma de reconstruir um país devastado por crises políticas e econômicas, críticos veem no arranjo um tipo de neocolonialismo moderno: uma dependência obrigatória que transforma a Venezuela em um mercado quase garantido para produtos dos EUA, ao mesmo tempo em que limita suas opções de parcerias internacionais. O debate, portanto, ultrapassa a retórica ideológica para tocar diretamente na soberania de um Estado e na forma como a economia global se reconfigura sob a influência das grandes potências.
Nesse contexto, a situação venezuelana se torna um teste para as normas de soberania frente ao poder econômico dos Estados Unidos — um embate que promete moldar percepções sobre poder, legitimidade e interdependência num mundo cada vez mais polarizado.