sexta-feira, janeiro 02, 2026

Entre a esperança e a disputa: o importante ano político que se inicia

 


Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)

Pedro do Coutto

O Ano Novo começa, como quase sempre na política, sob o signo da esperança. Não se trata de um sentimento ingênuo, mas de um motor histórico que move partidos, lideranças e eleitores. Juscelino Kubitschek, um dos presidentes mais emblemáticos da República, sintetizou essa lógica ao afirmar que a política se alimenta, antes de tudo, da expectativa.

É essa projeção do futuro — quase sempre idealizada — que sustenta alianças, campanhas e narrativas, mesmo em contextos de desgaste institucional, crise econômica ou crescente desconfiança da sociedade em relação aos seus representantes. Pesquisas recorrentes conduzidas por instituições como a Fundação Getulio Vargas e o Latinobarómetro demonstram que, ainda quando a confiança nas instituições democráticas sofre abalos, a expectativa de mudança permanece como elemento central de mobilização política.

EVENTOS SIMBÓLICOS – Esse sentimento tende a ganhar força em anos marcados por eventos simbólicos de grande impacto coletivo. O calendário deste ano reúne eleições gerais e Copa do Mundo, combinação que intensifica emoções, desloca atenções e cria um ambiente fértil para disputas narrativas.

A política, longe de ser suspensa nesses momentos, adapta-se ao clima social, buscando dialogar com o humor do eleitorado. Estudos analisados por veículos de referência internacional, como The Economist e Le Monde, apontam que grandes eventos esportivos influenciam o estado de ânimo da população e, em certos contextos, acabam sendo incorporados ao discurso político como metáfora de união, superação ou identidade nacional.

No campo eleitoral, esse cenário amplia tanto as oportunidades quanto os riscos. Governos tendem a ressaltar realizações e promessas de continuidade, enquanto a oposição explora frustrações acumuladas e a demanda por renovação. Relatórios do Tribunal Superior Eleitoral e de organismos internacionais de observação democrática indicam que períodos eleitorais costumam intensificar a polarização, mas também elevam o nível de participação cívica, ainda que marcada por conflitos e discursos mais duros.

ESPAÇO DE CONFRONTO – A arena pública transforma-se, assim, em um espaço de confronto permanente entre diferentes projetos de país, mediado por expectativas muitas vezes infladas. Diante desse contexto, o desafio que se impõe à sociedade vai além da escolha entre candidaturas ou partidos. Trata-se de exercer um olhar crítico capaz de distinguir promessa de projeto, emoção de estratégia, esperança legítima de ilusão conveniente.

A política continuará sendo movida pela expectativa — como ensinou Juscelino Kubitschek —, mas a maturidade democrática exige que ela venha acompanhada de memória histórica, responsabilidade coletiva e vigilância cidadã. Só assim o ano que se inicia poderá ser lembrado não apenas pelo entusiasmo do calendário, mas pela capacidade de transformar esperança em decisões conscientes e duradouras.


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