
EUA retiram acusação de que Maduro chefiava cartel
Pedro do Coutto
A mais recente reviravolta no caso envolvendo o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro deixou no ar mais perguntas do que respostas sobre a coerência e os objetivos da política externa dos Estados Unidos.
O Departamento de Justiça norte-americano alterou oficialmente a acusação contra Maduro, retirando a afirmação de que ele liderava o denominado Cartel de los Soles — e com isso recuando de uma narrativa que vinha sendo repetida há meses por membros do governo Trump e seus aliados.
PRETEXTO – Originalmente, a acusação formal apresentada em 2020 descrevia Maduro como chefe de um cartel de tráfico de drogas com alcance internacional, vinculando-o diretamente à suposta organização criminosa conhecida pela mídia como Cartel de los Soles. Essa designação foi citada dezenas de vezes no documento legal e usada como pretexto para justificar uma série de ações norte-americanas, inclusive uma operação militar que culminou na captura de Maduro e de sua esposa em Caracas no último sábado.
Na nova versão do indiciamento, contudo, o Departamento de Justiça mantém as acusações de narcotráfico e narcoterrorismo, mas suaviza a linguagem ao recusar-se a rotular Maduro como líder de um cartel formal. Em vez disso, o texto revisado afirma que ele teria “participado, protegido e perpetuado uma cultura de corrupção de enriquecimento a partir do tráfico de drogas”, caracterizando um “sistema de clientelismo” no qual elites civis e militares se beneficiaram de práticas ilícitas, sem a configuração típica de um grupo criminoso estruturado.
Esse recuo aponta para o que analistas e críticos já vinham observando: a designação do Cartel de los Soles como organização criminal formal é muito mais retórica política do que produto de provas jurídicas robustas. O termo, usado há décadas em reportagens e análises sobre a Venezuela, refere-se a símbolos e práticas de corrupção associadas a militares, mas nunca foi comprovado como uma entidade coesa com hierarquia e comando únicos.
FRAGILIDADE – A mudança de narrativa pelos EUA não apenas expõe a fragilidade de uma das acusações mais impactantes no processo contra Maduro, mas também levanta questões sobre os métodos e fins da política externa norte-americana. Se uma das bases públicas para a detenção e julgamento de um chefe de Estado — algo raríssimo no direito internacional — não se sustenta juridicamente, qual é, de fato, o propósito da operação? Os Estados Unidos continuam a acusar Maduro de crime organizado e tráfico de drogas, mas sem a contundência que antes alegavam.
Esse episódio tem repercussões relevantes para a credibilidade do sistema de justiça norte-americano e para a política internacional em geral. Quando narrativas são construídas com base em termos não verificados e depois revisadas publicamente, abre-se espaço para a desconfiança sobre os verdadeiros motivos que orientam ações tão dramáticas quanto a captura de um líder estrangeiro. Além disso, a crise evidencia que combater o tráfico de drogas não se limita a ações policiais ou militares, mas precisa enfrentar, simultaneamente, as causas profundas do consumo e da demanda, que alimentam essas redes ilícitas em escala global.
No fim das contas, o recuo na acusação contra Maduro não enfraquece apenas uma denúncia judicial: revela a necessidade de transparência e rigor na construção de narrativas que, em última instância, moldam decisões de Estado com consequências geopolíticas profundas.