
Vorcaro negou a senha, mas a PF está abrindo o celular
Malu Gaspar
O Globo
Quando parecia que já não faltava mais nada para garantir ao caso Master o topo do pódio dos maiores escárnios produzidos na história dos escândalos financeiros nacionais, surgiram as milícias digitais.
Descobrimos nos últimos dias que influenciadores com milhões de seguidores receberam ofertas generosas, algumas até milionárias, para difundir a versão de que a liquidação do banco foi decretada de forma apressada pelo Banco Central.
MUITO ESTRANHO – A ideia era disseminar em perfis de direita a teoria conspiratória de que “algo muito estranho aconteceu” nos bastidores do BC ao decidir liquidar o banco de Daniel Vorcaro.
Tal teoria reforça a tese da defesa do banqueiro, segundo a qual sua prisão, por uma fraude de R$ 12,2 bilhões na venda de créditos ao Banco de Brasília (BRB), ocorreu justamente quando ele se preparava para vender o Master a investidores árabes que, até agora, não se sabe quem são.
A ofensiva digital, batizada internamente “Projeto DV”, visava a simular um clima de apoio popular ao ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, um ex-deputado do Centrão que, da última vez que brilhou no noticiário, foi tentando explicar por que uma antiga BMW de sua mulher apareceu na garagem do Careca do INSS.
DEU 72 HORAS – Depois de passar meses desprezando pedidos de parlamentares e dos próprios técnicos do TCU para conferir se o BC não tinha demorado demais para tomar providências, Jhonatan decidiu, no fim de dezembro, dar 72 horas para a autarquia se explicar — mas não sobre a acusação de omissão, e sim sobre os “indícios de precipitação” em uma decisão tão “extrema”. E avisou: se não ficasse convencido, poderia simplesmente cancelar a liquidação do Master.
Assim que soltou o despacho, os agentes do “DV” começaram a acionar os influenciadores, que inundaram as redes de vídeos.
“Será que ninguém se interessa quando um banco desse tamanho entra em liquidação? Será que isso não vira oportunidade para muita gente grande?”, recitou um influenciador com mais de 4 milhões de seguidores que se apresenta como especialista em hipnose.
OUTRAS SAÍDAS? – “Se existiam outras saídas, por que escolheram logo a mais extrema? Por que tanta pressa? Essa história tá muito mal contada. A quem interessava a liquidação tão rápida do Banco Master?”
Não se tem notícia de que Vorcaro e seus advogados também tenham dotes psíquicos ou paranormais, mas é evidente que se julgam poderosos o suficiente para convencer qualquer um de qualquer coisa.
Não estão completamente errados. Mesmo sabendo que não tinham poder legal para cancelar a liquidação de um banco, o ministro Jhonatan e o presidente do TCU, Vital do Rêgo, se mantiveram firmes quanto puderam. Só recuaram e suspenderam a inspeção depois da revelação da milícia digital de Vorcaro e de sua impressionante coordenação com seus próprios movimentos.
BARREIRA NO STF – No Supremo Tribunal Federal (STF), por enquanto, a barreira do Master ainda resiste. Depois de colocar o processo em sigilo absoluto, o ministro Dias Toffoli convocou para o penúltimo dia de 2025 uma esdrúxula acareação entre Vorcaro, o ex-CEO do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino.
Em paralelo, preparou para cada um deles uma lista de perguntas que não deixava dúvidas sobre a intenção de lançar suspeitas sobre o BC e dar à negociação para a venda do Master aos árabes o ar de coisa concreta que nunca teve.
Algumas das questões foram divulgadas pelo GLOBO ainda durante a audiência, levando Toffoli a mandar excluir Aquino da acareação e a encurtar seu depoimento.
DE JATINHO – Embora já se saiba que Toffoli viajou de jatinho a Lima com o advogado de um dos investigados no mesmo dia em que pôs o processo sob sigilo, as razões para tanto malabarismo jurídico ainda não estão totalmente esclarecidas.
Para isso, seria necessário que se conhecesse a fundo o conteúdo do celular de Daniel Vorcaro, em poder da PF. O aparelho continha a cópia do contrato de R$ 130 milhões do Master com o escritório da mulher de Alexandre de Moraes, sobre o qual o ministro até hoje ainda deve explicações.
Até agora, a única coisa capaz de parar as iniciativas destinadas a blindar o Master foi o bom jornalismo. Só por isso ele tem sido tão atacado por milícias digitais, com métodos que o próprio Moraes outrora descreveu como ditatoriais e fascistas. É a velha tática de atacar o mensageiro. Muda de forma, mas nunca deixa de ser subterrânea. Uma vez exposta à luz do sol, perde força. O jornalismo está aí para isso. Contemos com ele.