
Lula segue favorito para as eleições 2026
Pedro do Coutto
A mais recente pesquisa do Instituto Quaest, divulgada em reportagem de Caio Sartori e Rafaela Gama em O Globo, ajuda a iluminar, com razoável nitidez, o cenário que começa a se desenhar para a sucessão presidencial. O presidente Lula da Silva segue na dianteira, liderando as intenções de voto tanto no primeiro quanto em eventuais cenários de segundo turno. Não se trata apenas de vantagem numérica, mas de uma posição política consolidada: Lula aparece como o nome mais reconhecido, mais testado eleitoralmente e, sobretudo, aquele que reúne hoje as melhores condições objetivas para disputar a própria reeleição.
No campo da oposição, o dado mais relevante talvez não seja apenas quem aparece em segundo lugar, mas a fragilidade estrutural do conjunto. Flávio Bolsonaro desponta como o nome mais competitivo entre os adversários do presidente, superando outros postulantes ligados ao bolsonarismo ou à direita tradicional. Ainda assim, a distância que o separa de Lula permanece significativa.
MARGEM CONFORTÁVEL – Em cenários simulados, o presidente vence Flávio Bolsonaro com margem confortável, algo em torno de 36% a 23%, enquanto os demais candidatos aparecem com índices ainda mais modestos. Governadores frequentemente citados como alternativas, como Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Romeu Zema ou Eduardo Leite, não conseguem romper a barreira da baixa projeção nacional, ficando presos a percentuais que, isoladamente, não sustentam uma candidatura presidencial viável.
Há, além disso, um elemento institucional que pesa contra a oposição: o calendário. A Constituição impõe a desincompatibilização dos governadores seis meses antes da eleição, o que significa que qualquer projeto presidencial exigiria renúncia antecipada, risco político e reorganização dos estados. Até agora, nenhum desses atores demonstrou disposição clara para esse movimento.
Tarcísio de Freitas, por exemplo, já sinalizou que não pretende disputar a Presidência, o que torna irrelevantes, do ponto de vista prático, as simulações que o incluem na corrida. O mesmo vale para outros governadores, mais inclinados a preservar seus projetos locais ou a mirar o Senado e a Câmara dos Deputados como caminhos mais seguros para manter capital político.
ALIANÇAS – Nesse contexto, a hipótese frequentemente levantada de uma união absoluta da oposição em torno de Flávio Bolsonaro parece mais teórica do que real. No papel, alianças se desenham com facilidade; na prática, ambições pessoais, divergências regionais e disputas partidárias tornam improvável uma convergência plena.
A transferência automática de votos — como se eleitorado fosse patrimônio negociável — raramente se confirma nas urnas. Cada estado tem sua própria dinâmica, seus próprios conflitos e seus próprios interesses, o que dificulta a construção de um palanque nacional coeso contra um presidente que dispõe da visibilidade, da máquina administrativa e do poder de agenda inerentes ao cargo.
CONTEXTO POLÍTICO – Tudo isso contribui para reforçar a posição de Lula. Não apenas pelos números frios das pesquisas, mas pelo contexto político que os envolve. O presidente tende, como ocorre historicamente com ocupantes do Planalto, a crescer ao longo do processo eleitoral, seja pelo uso estratégico das políticas públicas, seja pela capacidade de dialogar com diferentes segmentos sociais.
As pesquisas sucessivas, consideradas confiáveis quando comparadas a pleitos anteriores, indicam uma estabilidade favorável ao governo, ao mesmo tempo em que expõem a dificuldade da oposição em apresentar um projeto alternativo claro, competitivo e unificado.
FAVORITISMO – Ainda assim, o quadro não está fechado. Campanhas são organismos vivos, sujeitos a crises, rearranjos e mudanças de humor do eleitorado. O que os dados atuais sugerem, contudo, é que Lula entra no jogo como franco favorito, enquanto seus adversários seguem presos a um dilema: disputar entre si ou tentar, sem garantia de sucesso, uma unidade tardia.
Se nada mudar de forma substantiva, a vantagem do presidente tende não apenas a se manter, mas a se ampliar — e a possibilidade de uma vitória já no primeiro turno, hoje ainda hipótese, passa a integrar com mais seriedade o horizonte político brasileiro.