Por José Montalvão
Vários políticos bolsonaristas deixaram cair as máscaras e declararam, sem pudor, suas verdadeiras opiniões a respeito de direitos humanos, justiça e dignidade da pessoa humana. Usaram as redes sociais, microfones e a tribuna para propagar frases que mais se assemelham a barbaridades do que a posicionamentos de representantes do povo.
Entre as declarações registradas em vídeos amplamente divulgados, ouviu-se que “bandido bom é bandido morto”, que o ideal seria uma “cadeira elétrica”, que “não existe bandido de estimação”, que “prisão não é colônia de férias” e que o preso deve “apodrecer na cadeia até cumprir a pena”. Discursos carregados de ódio, desprezo pela vida humana e total desconhecimento — ou deliberado desprezo — pelos princípios básicos do Estado Democrático de Direito.
Em nenhum momento esses políticos demonstraram preocupação com o que são direitos humanos, com o amor ao próximo ou com o valor da vida, fundamentos presentes não apenas na Constituição, mas também nos princípios mais elementares da convivência civilizada. Preferiram a retórica fácil da violência, do aplauso das massas inflamadas e da justiça pelas próprias mãos.
O que esses discursos esqueceram foi a chamada “lei do retorno”. O tempo, implacável, encarrega-se de colocar cada um diante das próprias palavras. E hoje, em um curto espaço de tempo, muitos desses mesmos personagens parecem acometidos por uma conveniente amnésia seletiva. Esqueceram tudo o que disseram quando veem seu líder político em situação delicada, buscando proteção, privilégios e tratamento diferenciado — a famosa “papudinha”.
De repente, o discurso muda. Onde antes havia gritos por punição exemplar, agora surgem apelos por garantias legais, devido processo, humanidade e até compaixão. Aquilo que era negado aos outros passa a ser exigido para os seus. A lei, que antes deveria ser dura e implacável, agora precisa ser flexível, compreensiva e cuidadosa.
Essa contradição expõe não apenas a hipocrisia do discurso, mas também a fragilidade moral de quem defende a violência enquanto ela atinge apenas os outros. O problema, para eles, nunca foi a injustiça, mas quem está do outro lado das grades. Quando o alvo muda, o discurso desmorona.
Fica a lição: quem planta ódio não pode se surpreender ao colher medo. E quem despreza a dignidade humana jamais deveria esperar misericórdia quando precisar dela.