Crime agrava o ônus demográfico
*João Guilherme Sabino Ometto
O Brasil está vivendo o fim do bônus demográfico, período no qual há mais pessoas em idade produtiva do que crianças e idosos. Tal fator impulsiona o crescimento das nações. Entretanto, em cerca de 10 anos, ingressaremos na fase do ônus demográfico, quando a proporção de habitantes da terceira idade aumentará e o peso econômico sobre a população ativa será maior.
Não aproveitamos o potencial dessa janela histórica. O PIB cresceu pouco neste século e o País desperdiçou parte do que poderia ter sido um ciclo vigoroso de prosperidade. Agora, precisamos correr contra o tempo, aumentando muito a produtividade, investindo em educação de qualidade e tecnologia e criando as condições para um desenvolvimento inclusivo. Contudo, há um obstáculo adicional e crítico que ameaça corroer as bases desse esforço: o crime organizado. Ele subtrai das escolas e do mercado de trabalho milhares de crianças e jovens, cooptando-os para suas fileiras.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 23,5 milhões de brasileiros vivem em territórios sob o domínio desses grupos. É um contingente assustador, abrangendo mais de um em cada 10 habitantes. Na Amazônia, o número de cidades com presença de facções cresceu 46% entre 2023 e 2024. Em comunidades indígenas e quilombolas, jovens vêm sendo pressionados a integrar essas organizações.
O estudo Rastreamento de Produtos e Enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil, divulgado pelo mesmo Fórum, revelou um dado estarrecedor: R$ 146,8 bilhões circulam por ano nos mercados ilegais de ouro, bebidas, combustíveis, lubrificantes e cigarros. Somando-se os crimes virtuais e furtos de celulares, esse número sobe para R$ 186 bilhões apenas entre julho de 2023 e julho de 2024. A cocaína adiciona outros R$ 15 bilhões à engrenagem criminosa.
Essa economia paralela não apenas desafia e lesa o Estado, pois “cobra” impostos por serviços ilegais de telefonia, energia, transportes e moradia, como prejudica o setor privado com a concorrência desigual de produtos ilegais, roubo de cargas e pirataria. Segundo relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as perdas econômicas geradas por atividades ilícitas chegaram a R$ 453 bilhões em 2022. O valor equivalia à época a cerca de 4% do PIB nacional, recursos que poderiam ter sido direcionados à educação, saúde, segurança, saneamento e infraestrutura.
Outro estudo da CNI mostrou que, em 2024, 54% das 247 empresas respondentes relataram ter sido vítimas de algum tipo de ocorrência. O impacto econômico mais significativo refere-se à venda de produtos não conformes, que representa uma concorrência ilegal e desleal. Para 66% dos entrevistados, essa inaceitável atividade causa prejuízos expressivos.
O problema também afeta de modo grave o meio rural. De acordo com o Observatório da Criminalidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), cerca de 82% dos crimes no campo são classificados como roubos e furtos. Essas ocorrências, em especial no que diz respeito a maquinário e implementos agrícolas, cresceram 37,5% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Grupo Tracker, empresa de rastreamento presente em 17 estados. São Paulo lidera, com 70% dos casos, seguido pelo Paraná, com 10%. Na sequência, aparecem Maranhão, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Minas Gerais.
É nesse cenário que o crime disputa cada vez mais a mão de obra dos jovens brasileiros. O problema é muito preocupante para o agronegócio, um dos maiores empregadores formais do País e pilar da nossa economia, que sempre precisará muito dos recursos humanos. O setor registrou 28,2 milhões de pessoas ocupadas no segundo trimestre de 2025, um recorde histórico, segundo o Boletim Mercado de Trabalho no Agronegócio, do Cepea/CNA. Em relação ao trimestre anterior, houve alta de 0,5%, e de 0,9% em comparação com o mesmo período de 2024, o que elevou para 26% a participação do agro no total de empregos formais do Brasil.
Um dado chama a atenção: o agro vem aumentando o nível de escolaridade. Entre 2024 e 2025, cresceu o número de trabalhadores com Ensino Médio (3,4%) e Superior (4,5%), enquanto caiu a presença daqueles sem instrução (-8,5%) ou com o Fundamental incompleto (-1,8%).
Os avanços não podem ser comprometidos, um risco real se continuarmos a perder recursos humanos para o crime. A jornada da produtividade e do desenvolvimento passa pelas salas de aula. Precisamos que nossos jovens estejam nas escolas, capacitem-se e encontrem perspectivas de uma vida produtiva e cívica. Cada brasileiro que escolhe o estudo e o emprego legal representa uma vitória contra o retrocesso.
O País ainda tem cerca de uma década antes de vivenciar o ônus demográfico. O tempo é curto, mas suficiente para agir. Se não empoderarmos nossos jovens com as prerrogativas da cidadania e não os incluirmos na economia legal, o crime continuará a convertê-los em força destrutiva. E, nesse caso, não será apenas o bônus demográfico que perderemos, mas também o futuro.
*João Guilherme Sabino Ometto é engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP), empresário e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA).