
Lucio Funaro, preso na Lava Jato, procura ajudar Vorcaro
Carlos Newton
Em Brasília, as relações contam. E contam muito. Não apenas as relações formais, que aparecem em contratos e atas, mas também aquelas que se constroem ao longo do tempo, em encontros repetidos, conversas reservadas e círculos de confiança.
No caso que envolve o Banco Master e operações financeiras que passaram a chamar atenção pública, uma dessas relações merece registro jornalístico: a relação entre Daniel Vorcaro e Lúcio Funaro, o famoso doleiro e operador que foi preso na Lava Jato e fez espetacular delação.
DE VOLTA AO MERCADO – Não se trata de especulação. Funaro está de volta ao mercado há mais de um ano, como “consultor financeiro”. Sua relação com Vorcaro existe, as reuniões aconteceram e são conhecidas nos bastidores políticos e empresariais.
Eles já se encontraram diversas vezes, em contextos que variaram de conversas reservadas a reuniões mais amplas, segundo relatos convergentes de pessoas que transitam no mesmo ambiente. Isso não é segredo, nem foi negado por quem conhece os dois.
Funaro é um personagem conhecido do país. Seu nome atravessou diferentes momentos da vida política e econômica brasileira, sempre associado aos bastidores, às articulações e à compreensão de estruturas financeiras complexas. Vorcaro, por sua vez, ocupa posição central em um grupo financeiro que cresceu rapidamente e passou a operar em áreas sensíveis, envolvendo grandes volumes de recursos e ativos de difícil avaliação.
RELAÇÕES PERIGOSAS – A existência dessa relação, por si só, não configura qualquer irregularidade. Amizades e encontros não são crimes. O jornalismo sério não acusa — apenas informa. E registra fatos em histórias que envolvem cifras elevadas, porque nessas decisões estratégicas e de exposição ao público investidor, as redes de relacionamento fazem parte do contexto que ajuda a compreender o todo.
O ponto relevante não é o simples fato de terem se encontrado, mas a naturalidade com que esses encontros ocorreram e a recorrência com que são mencionados por diferentes interlocutores. No Brasil, raramente grandes operações surgem isoladas.
Elas costumam nascer em ambientes de confiança mútua, onde pessoas se conhecem, se escutam e trocam impressões antes que qualquer coisa ganhe forma concreta.
INFORMAÇÃO RELEVANTE – Nada se afirma aqui sobre o conteúdo dessas conversas. Não se diz que houve negociação, influência indevida ou participação em decisões específicas. O que se afirma — e isso é um dado objetivo — é que há uma relação, há proximidade e houve encontros. E isso, goste-se ou não, é informação relevante em qualquer apuração que se pretenda completa.
O jornalismo não pode tratar relações pessoais como se fossem invisíveis, nem pode transformá-las automaticamente em acusações. Entre um extremo e outro existe o registro responsável dos fatos. E o fato é que Lúcio Funaro e Daniel Vorcaro mantêm relação conhecida no meio, inserida em um contexto maior que ainda está sendo examinado.
Em histórias assim, o silêncio não esclarece — apenas esconde. Registrar o que é conhecido não significa condenar ninguém. Significa apenas cumprir a função básica da imprensa: mostrar o cenário inteiro, para que o leitor tire suas próprias conclusões. E o principal assunto em Brasília é a possibilidade de delação de Daniel Vorcaro, que pode estremecer o país.