Abrigo dos Vicentinos: esquecido por quem só aparece em época de eleição
* Por José Montalvão
Entra período eleitoral, termina período eleitoral, e o filme se repete em Jeremoabo: as redes sociais são inundadas por promessas, sorrisos ensaiados, fotos em obras, anúncios de emendas, discursos sobre “compromisso com o povo” e juras de amor à cidade. Mas há um silêncio constrangedor que atravessa todos esses ciclos políticos: ninguém aparece dizendo que conseguiu qualquer recurso em benefício do Abrigo dos Vicentinos.
Nenhum deputado, nenhum senador, nenhum pré-candidato a nada. Nenhum politiqueiro de ocasião. Nenhuma selfie com placa de obra, nenhum vídeo emocionado dizendo: “trouxemos dignidade para quem mais precisa”. Nada. Absolutamente nada.
E isso é grave.
O Abrigo dos Vicentinos não é um detalhe na paisagem social de Jeremoabo. Ele é um dos lugares mais importantes do município. Um espaço que acolhe, cuida, protege e dá dignidade a pessoas que já deram tudo o que tinham para dar à vida. Um local que amanhã — sim, amanhã — poderá ser a moradia de qualquer um de nós. Porque ninguém adivinha o que está determinado para o amanhã de cada um.
A velhice, a doença, a solidão e a vulnerabilidade não escolhem partido, cor, ideologia nem posição social. Hoje muitos se acham intocáveis; amanhã podem estar batendo à porta do mesmo abrigo que hoje é ignorado por quem só enxerga voto e palanque.
Vale lembrar o que é, de fato, a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) e a magnitude do trabalho dos vicentinos.
Inspirados por Antônio Frederico Ozanam, os vicentinos formam uma verdadeira rede de caridade, que atua diretamente nos momentos mais difíceis da vida. Eles não ficam em gabinetes climatizados nem em redes sociais disputando curtidas. Eles estão nas casas, nas ruas, nos leitos improvisados, nas situações de abandono, pobreza e risco social.
A atuação dos vicentinos vai muito além da assistência material. Sim, eles distribuem alimentos, roupas, remédios e até materiais de construção quando necessário. Mas também oferecem algo que nenhum orçamento público consegue comprar: escuta fraterna, acolhimento humano e conforto espiritual.
Por meio das “Conferências” — os grupos locais de voluntários — eles identificam necessidades urgentes e agem onde o poder público frequentemente não chega ou finge não ver. São eles que estendem a mão quando o discurso acaba e a propaganda se cala.
Mas é preciso dizer algo com todas as letras: o Abrigo dos Vicentinos não pode — e não deve — viver apenas de ajuda da Prefeitura. A Prefeitura tem, sim, responsabilidade social, e o prefeito, muito ou pouco, faz a sua parte dentro das limitações do orçamento municipal. Isso é fato.
O que não é aceitável é jogar todo o peso dessa missão humanitária nas costas do município e dos voluntários.
Nenhum deles aparece com emenda parlamentar para o Abrigo dos Vicentinos. Nenhum articula recurso estadual ou federal. Nenhum assume publicamente esse compromisso. Todos sabem pedir voto; poucos sabem devolver em forma de dignidade.
A resposta é dura, mas necessária: porque o Abrigo dos Vicentinos não rende voto fácil, não vira palco, não dá foto bonita com fita para cortar. Ali não há multidão para aplaudir, nem música alta, nem bandeiras tremulando. Há silêncio, fragilidade, dor e necessidade real.
E é justamente por isso que deveria ser prioridade.
Jeremoabo precisa parar de aceitar esse teatro político cíclico, onde tudo gira em torno de eleição e nada em torno de humanidade. O Abrigo dos Vicentinos não pode continuar sobrevivendo apenas da boa vontade de voluntários, de doações esporádicas e de uma ajuda municipal limitada, enquanto milhões circulam em emendas, convênios e discursos vazios.
Se há um lugar que simboliza dignidade, solidariedade e o verdadeiro sentido de política pública, é ali.
Que os politiqueiros de plantão, tão falantes nas redes sociais, tenham ao menos a decência de olhar para o Abrigo dos Vicentinos. Que algum deles, pela primeira vez, apareça não para prometer, mas para entregar. Não para posar, mas para resolver.